Na Mira

“Índio de papel”: falso indígena frauda cota em universidade federal

Após ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público de Rondônia, a matrícula do candidato no curso de Direito da Unir foi cancelada

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Reprodução Google Maps
Universidade federal de Rondônia / Unir
1 de 1 Universidade federal de Rondônia / Unir - Foto: Reprodução Google Maps

Um estudante autodeclarado indígena para concorrer a vaga no curso de Direito na Universidade Federal de Rondônia (Unir) por meio de cota para pessoas indígenas teve a matrícula cancelada após decisão da Justiça Federal.

Ação judicial foi movida pelo Ministério Público de Rondônia (MPF-RO) a pedido de lideranças indígenas karitianas do estado.

Conforme a denúncia recebida pelo MPF, lideranças Karitiana afirmam que o estudante não foi reconhecido pelos anciãos e nunca teve vínculos culturais ou familiares com aquele povo. A denúncia também afirma que que o estudante chegou a enganar alguns indígenas para conseguir assinaturas em uma falsa declaração de reconhecimento de pertencimento étnico e de vínculo com a comunidade indígena. 

“Segundo o documento, o estudante se aproximou de karitianas dizendo que era membro do povo Parintintin e que não teria tempo para ir buscar assinaturas de seu povo em Humaitá (AM). Acreditando no estudante, alguns karitianas assinaram a declaração. Mas a banca de heteroidentificação da Unir, que é composta por indígenas, desconfiou da validade do documento e entrou em contato com quem assinou a declaração, descobrindo a verdade”, informou o MPF-RO.

No ato da entrevista da banca de heteroidentificação na universidade o candidato não demonstrou ter parentesco e sociabilidade com os karitianas, além de não conhecer os elementos culturais do povo, suas tradições, suas lutas sociais e históricas.

“O estudante sequer sabia a localização geográfica da aldeia Karitiana”, pontuou o MPF.

Histórico da fraude

  • O caso começou em 2024, quando o candidato apresentou autodeclaração de indígena, mas foi reprovado pela banca de heteroidentificação.
  • Na época, ele recorreu à Justiça e conseguiu uma decisão liminar para estudar Direito na Unir.
  • O Ministério Público Federal (MPF) foi comunicado pelos indígenas karitianas sobre a situação e passou a atuar no caso.
  • Em sua manifestação no processo, o MPF conseguiu comprovar que o aluno não é indígena, portanto não pode ocupar vaga da cota étnica.

“Índio de papel”

A pedido do povo Karitiana e do MPF, a antropóloga Andréa Carvalho Mendes de Oliveira Castro, que estuda os povos karitiana há muitos anos elaborou um laudo sobre o caso. A pesquisa da antropóloga analisa a linha de parentescos dos karitiana há mais de 130 anos.

O estudante teria alegado de que seu avô era indígena e que seu pai havia sido tirado da aldeia com apenas um ano de idade, perdendo o convívio com seus parentes biológicos. No entanto, a pesquisadora afirma que nem o pai e nem o avô do estudante aparecem em nenhuma árvore genealógica dos karitianas.

A pesquisadora também pontua que não há como existir um karitiana desconhecido pois essa etnia habita uma única aldeia com pouco mais de 300 indígenas, sendo que todos se conhecem.

Para a antropóloga, critérios puramente documentais para a verificação de pertencimento a grupos étnicos são perigosos porque passaria a existir “índio de papel”.

“Dizer-se indígena sem ser reconhecido como tal está sob a ótica da apropriação cultural, isto é, apropriação indevida de uma identidade, causando prejuízos às lutas reais dos povos indígenas. Não existe um sentimento de pertencimento que seja válido, legítimo e legal sem o reconhecimento do grupo ao qual se diz pertencer”, acrescentou.

Não é um caso isolado

Segundo o MPF, há diversas denúncias de ocupação irregular das vagas destinadas às cotas indígenas na Unir por pessoas não indígenas. Os casos estão sendo apurados por meio de um inquérito civil.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comDistrito Federal

Você quer ficar por dentro das notícias do Distrito Federal e receber notificações em tempo real?