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Na Mira

Agiota da "montanha de dinheiro" pagava de influencer com pacote de bondade

Líder de grupo criminoso investigado por extorsão e lavagem de dinheiro usava assistencialismo para mascarar rotina de violência e agiotagem

13/09/2026 02:45
Reprodução
homem abraçando morador

Sapatos confortáveis, bermuda, sem camisa e a barriga proeminente à mostra. A figura rotineira de Adailton Fernandes de Oliveira, conhecido popularmente como “Dazin”, parecia a de um pacato morador de interior. Contudo, por trás da simplicidade aparente e do carisma ensaiado nas redes sociais, ocultava-se a rotina de um dos líderes mais implacáveis de uma organização criminosa especializada em agiotagem, extorsão e lavagem de dinheiro.

Com atuação ramificada pelo Distrito Federal, Goiás e Tocantins, “Dazin” construiu uma rotina dupla: enquanto estrangulava financeiramente devedores e ostentava fortunas no ambiente privado, cultivava publicamente a imagem de um “padrinho dos pobres” no município de Mimoso (GO). Ele e outros 11 alvos foram presos por equipes da Coordenação de Repressão a Crimes Patrimoniais (Corpatri), da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF). As investigações foram conduzidas por investigadores da Divisão de Repressão a Sequestros (DRS).

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Imagens obtidas pela coluna Na Mira revelam detalhes da intimidade do agiota e da estratégia populista que utilizava na tentativa de pavimentar aspirações políticas. Para além do luxo privado e da ostentação de notas contadas às dúzias, o cotidiano de Dazin na pacata cidade de Mimoso englobava o cumprimento de uma minuciosa “agenda de benfeitorias”. Pessoas ouvidas pela reportagem confirmaram que Adailton pretendia ingressar na vida política e, para conquistar a simpatia local, mantinha a rotina de oferecer o que apelidou de um verdadeiro “pacote de bondade”.

Bingo gratuito

Nas redes sociais, Dazin informava aos moradores da cidade goiana que realizaria eventos beneficentes, como bingos com cartelas inteiramente gratuitas cujo prêmio principal era uma motocicleta zero-quilômetro. Em outros registros, o homem aparece cumprimentando e abraçando populares enquanto distribui, de forma gratuita, sacos de carne fresca e garrafas de leite para famílias da região. Essa estratégia de assistencialismo financiada pelo crime servia para blindar sua imagem pública e criar uma rede de apoio na comunidade.

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A generosidade forjada em Mimoso, contudo, repousava sobre uma engrenagem de violência psicológica e opressão no DF. O contraponto do “pacote de bondades” era sentido por devedores encurralados por juros abusivos de até 20% ao mês.

O estopim para a investigação que desmascarou o esquema ocorreu em março de 2025, com a morte de um comerciante de 68 anos, figura tradicional da Feira dos Goianos, em Taguatinga. Semianalfabeto, o idoso contraiu empréstimos com o grupo e entrou em um turbilhão financeiro sem volta. Para tentar quitar as parcelas diárias e implacáveis cobradas pela quadrilha, o feirante recorria a celulares e contas bancárias de familiares. Submetido a um estresse diário contínuo e incapaz de conter a bola de neve das dívidas, o comerciante sofreu um colapso e veio a óbito.

Núcleos de extorsão

A crueldade do grupo de Dazin ficou evidente quando a morte do patriarca não interrompeu a cobrança. Os credores transferiram a dívida e direcionaram os ataques aos familiares do idoso falecido, cobrindo-a de mensagens e áudios com ameaças diretas à sua integridade física e vida, coagindo-a a assumir o passivo do pai.

A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) apurou que o feirante era alvo de dois núcleos de extorsão. O primeiro, composto por cidadãos colombianos voltados a cobranças ostensivas, havia sido desmantelado no ano anterior. O segundo — e mais complexo —, comandado por Adailton, possuía estrutura profissional, lavagem de capitais e suporte qualificado de segurança. Entre os investigados está um sargento reformado da Polícia Militar do Estado de Goiás (PMGO), responsável por prestar logística e atuar na intimidação direta das vítimas.

A rotina de ostentação, filantropia farsa e opressão foi interrompida na manhã dessa quinta-feira (10/9), quando a PCDF deflagrou uma megaoperação conduzida pela Coordenação de Repressão aos Crimes Patrimoniais (Corpatri) em conjunto com a Divisão de Repressão a Sequestros (DRS).

Montanha de dinheiro

Em um dos vídeos gravados por uma mulher, Adailton surge sentado em um sofá, debochando do próprio enriquecimento ilícito diante de uma montanha de cédulas de R$ 100 e R$ 50 — o acumulado da cobrança abusiva de juros que ele mesmo apelidou de “serra de dinheiro”.

Nas gravações, a esposa de Adailton o questiona sobre o cansaço do trabalho contínuo: “Não vai descansar, não? E esse tanto de dinheiro aí?”. Sorridente, o agiota responde sem hesitar: “Preciso conferir todo o dinheiro primeiro. Tem que ter ajuda, senão vamos passar a noite toda contando dinheiro”.

Em outro trecho áudio-visual, mantendo o tom irônico, o criminoso celebra a facilidade de suas extorsões, alegando que antes precisava correr atrás do dinheiro, mas que agora o capital “corre atrás dele”, cabendo-lhe apenas “agradecer a Deus demais”. Em tom de desdém, arremata questionando se a população de fato tem dinheiro, concluindo que seu grupo criminoso ajunta valores é “de saco”.

Bloqueio de fortuna

A ação policial resultou no cumprimento de 12 mandados de prisão preventiva — incluindo a captura de Adailton Fernandes de Oliveira — e diversas ordens de busca e apreensão expedidas pela Justiça. As buscas foram realizadas simultaneamente nas cidades de Palmas e Araguaína, no Tocantins, além de Goiânia, Senador Canedo e Formoso, no estado de Goiás.

Por determinação judicial, foram bloqueados até R$ 10 milhões nas contas bancárias dos investigados, além do sequestro de bens móveis e imóveis adquiridos com o proveito das extorsões. Os integrantes da organização criminosa foram indiciados por usura (cobrança ilícita de juros),  extorsão,  organização criminosa armada,  lavagem de dinheiro e coação no curso do processo.