MPDFT investiga padre Moacir por pedir votos para Bolsonaro em missa

No entendimento dos promotores, a conduta do sacerdote desrespeita recomendação da Procuradoria Regional Eleitoral no Distrito Federal

atualizado 02/10/2018 21:38

Daniel Ferreira/Metrópoles

O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) abriu investigação para apurar se o padre Moacir Anastácio de Carvalho cometeu crime eleitoral ao pedir votos para o candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) durante celebração de uma missa no domingo (30/9), na Paróquia São Pedro, em Taguatinga Sul.

No entendimento de membros da 15ª Promotoria de Justiça Eleitoral, a conduta do sacerdote “vai contra a recomendação da Procuradoria Regional Eleitoral no DF para que líderes e entidades religiosas não façam propaganda eleitoral de qualquer espécie nos espaços dos seus cultos, bem como se abstenham de utilizar os recursos materiais dos seus templos em benefício de qualquer candidato”.

Veja o vídeo:

Famoso por seu engajamento com política, o clérigo usou o presbitério da paróquia para fazer proselitismo político em favor do postulante ao Palácio do Planalto. Em vídeo que circula pelo WhatsApp, o padre Moacir disse ter “uma campanha feita pelas moças da Rede Globo totalmente contrárias à palavra de Deus: o ‘nele não’. E eu te digo: nele sim, pois é o único cristão que nós temos aí”, declarou, sem citar o nome do presidenciável.

Na sequência, o religioso justifica o motivo de dar seu voto a Bolsonaro e pede aos fiéis para fazerem o mesmo. “Nele sim, porque só ele é contra o aborto; só ele é cristão. Ele é contra tudo aquilo que a Palavra é contra e que eu sou contra. Então, esse já tem meu voto garantido.”

Segundo o MPDFT, o procedimento aberto será encaminhado à Procuradoria-Geral Eleitoral, “pois o caso relaciona-se a um candidato à Presidência da República”.

Em agosto, o plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) firmou entendimento de que pedido de voto em evento religioso pode configurar abuso de poder econômico. A tese foi imposta no julgamento que levou à cassação do mandato do deputado estadual Márcio José Oliveira (PR-MG) e do candidato a deputa­do federal Franklin Roberto Souza (PP-MG) na campanha de 2014. Com a decisão da Corte eleitoral, os dois se tornaram inelegíveis por oito anos.

Posicionamento contrário à CNBB
Ao servir de cabo eleitoral de Bolsonaro, padre Moacir colocou-se contrariamente ao posicionamento da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que declarou não apoiar nenhum candidato no pleito de 2018. “Ressaltamos que, em razão de sua natureza e conforme já registrado em mensagem publicada este ano, a entidade não se manifesta a favor de nenhuma candidatura ou partido político”, informou em nota ao Metrópoles.

Na segunda-feira (1º/10), o presidente da Comissão Justiça e Paz do DF, Mauro Almeida Noleto, disse ter preocupação de que lideranças religiosas manifestem publicamente sua opinião política em celebrações de quaisquer credos. “Não vi o vídeo ainda e não posso me manifestar pela comissão sem consultar o colegiado, mas, juridicamente falando, se ele pede voto explicitamente, em tese, infringe a lei. Essa é uma infração que configura propaganda irregular. Dependendo da extensão do apoio, o próprio TSE pode enquadrar a liderança religiosa”, disse Noleto, que também é especialista em direito eleitoral.

Metrópoles ligou para o padre Moacir, mas ele não atendeu nem retornou aos telefonemas.

Relações políticas
Em maio de 2016, Moacir viajou a Curitiba para explicar a investigadores a origem e o uso de R$ 950 mil recebidos de empreiteiras para a realização do Pentecostes em 2014. Parte desse dinheiro teria sido doada por empresas citadas na Operação Lava Jato, que teve como um de seus alvos o ex-senador Gim Argello (PTB-DF).

O sacerdote prestou depoimento, durante uma hora e meia, ao delegado Luciano Flores de Lima. O pároco levou documentos que mostrariam como as doações foram feitas: recibos e comprovantes de transferências bancárias.

Na época, o político foi preso, e o padre, obrigado a se explicar. Ele ganhou R$ 350 mil da construtora OAS, doação que teria sido intermediada por Argello. Além disso, Moacir contou ter recebido dinheiro da Andrade Gutierrez (R$ 300 mil) e da Via Engenharia (R$ 300 mil).

As construtoras OAS e Andrade Gutierrez são citadas na Lava Jato. A Via Engenharia e a Andrade Gutierrez são suspeitas de superfaturamento nas obras do Estádio Mané Garrincha. Elas formaram o consórcio responsável pela construção da arena.

Após mais de um ano de investigação, a Polícia Federal inocentou o pároco de participação em qualquer esquema de corrupção.

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