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Moradores das quatro cidades do Distrito Federal listadas pelos Estados Unidos (EUA) como áreas de alta periculosidade receberam a notícia com surpresa. Embora admitam residir em regiões administrativas com altos índices de criminalidade, a maioria dos entrevistados pelo Metrópoles considera exagerada incluí-las no mesmo patamar de países que sofrem rotineiramente ataques terroristas.

O alerta para turistas e autoridades norte-americanas vale para as “favelas” – como trata o documento – de Ceilândia, Santa Maria, São Sebastião e Paranoá. Curiosamente, os quatro primeiros homicídios registrados na capital do país, na passagem de 2017 e 2018, ocorreram nas regiões mencionadas pelo Departamento de Estado dos EUA.

O militar do Corpo de Bombeiros e líder comunitário do Paranoá Sérgio Damaceno, 43 anos, diz ter se sentido “ofendido e menosprezado” pela alta cúpula da segurança da maior potência mundial. “Nossa cidade tem problemas na segurança pública como outras milhares no Brasil, mas é acolhedora, e nada justifica difamá-la para os turistas”, protestou.

A técnica em enfermagem Lilian Alves Oliveira, 33, mora desde os 4 anos no Paranoá. Há um ano, foi assaltada à mão armada, perto de casa. Na ocasião, o bandido levou o seu celular e o carro da irmã. Apesar de defender um patrulhamento mais eficaz da Polícia Militar nas ruas, ela também entende ser descabido inserir o Paranoá entre as localidades mais violentas do país.

“Os homicídios aqui são mais associados a rixas e ao tráfico de drogas. O que incomoda as pessoas de bem são os roubos. Mas, apesar de achar que a cidade necessita muito de mais segurança, não deveria estar nessa lista”.


Critérios questionados

Na visão dos gringos, São Sebastião também merece integrar a indigesta relação. Os moradores da cidade convivem há décadas com uma sanguinária guerra entre gangues que já vitimou centenas de jovens, a maioria adolescentes.

A administradora Romaiana Martins Silva, 30 anos, conta ter ficado surpresa com a divulgação da lista. “Achei muito estranho quando li a reportagem do Metrópoles. Sabemos dos assaltos e outros crimes, mas dizer que é uma favela?! Quais foram os indicadores para considerarem isso?”, questionou ela, que mora na cidade há 15 anos.

Para Alan Vallim, professor universitário e líder comunitário da região administrativa, é preciso tentar entender quais os critérios usados pelos americanos para elaborar a tabela. “Pelas estatísticas da segurança pública, São Sebastião não está nem entre as mais violentas do DF. Então, precisaríamos analisar que tipo de parâmetro eles consideraram”, ponderou.

A avaliação do docente é corroborada pelo Palácio do Buriti. Em um comunicado oficial, o Governo do Distrito Federal rebateu com números o departamento dos Estados Unidos. De acordo com o Executivo local, nenhuma das cidades mencionadas está entre as primeiras no ranking de crimes letais intencionais para cada grupo de 100 mil habitantes. A pior colocada entre elas é São Sebastião, que aparece na 5ª colocação entre as 31 regiões administrativas do DF. Na sequência aparecem Santa Maria (7ª), Paranoá (11ª) e Ceilândia (14ª).

Segundo o governo local, a realidade da segurança das quatro localidades mencionadas não pode ser comparada a outros locais violentos no Brasil e no exterior. “Nelas vivem cerca de 600 mil habitantes, que trabalham, estudam e convivem em situação de absoluta normalidade. Como em qualquer cidade no mundo, ocorrem crimes, mas tudo dentro da normalidade”.

Perigo a qualquer hora
Mas há quem aprove a tabela elaborada pelos subordinados do presidente Donald Trump. O corretor de imóveis Carlos Eduardo de Carvalho, 33, trabalha em Santa Maria há cinco anos e diz concordar plenamente com o relatório. “Aqui é perigoso em qualquer horário do dia”, declara. “Eu já fui assaltado, e o escritório onde trabalho, também”, contou.

Opinião rechaçada pelo estudante Walison Domingos de Souza,16. “Trabalho e estudo em Santa Maria, e a cidade tem seus perigos como todo lugar, mas também, suas qualidades. Acho um lugar bastante tranquilo”, comentou.

Na maior e mais populosa cidade do Distrito Federal, Ceilândia, a manicure Krislany Bastos Cruz, 20 anos, também chancela o documento norte-americano. “É um lugar muito perigoso, sempre ouço as pessoas comentando de assaltos aqui na região. Eu mesma já vi várias pessoas sendo assaltadas na porta do meu trabalho”, conta. Krislany também foi alvo dos bandidos, em Ceilândia e em Águas Lindas (GO), onde mora: “Fui assaltada uma vez aqui e duas em Águas Lindas.”

Opinião contrária à da feirante Suely Araújo dos Santos, 58 anos, que reclama da vigilância precária do Estado, mas defende a localidade. “Gosto de morar aqui, nunca aconteceu nada comigo. Ceilândia é um bom lugar, não trocaria por outra cidade”.