O grupo criminoso acusado de ter causado um rombo milionário no Banco do Brasil (BB) era liderado por um morador de Águas Claras. De acordo com informações da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), o servidor aposentado da instituição financeira era o mentor do esquema, que consistia em superfaturar comissões recebidas por empresas de cobranças terceirizadas conveniadas ao BB.

O homem e seus comparsas, que não tiveram os nomes divulgados, ostentavam um alto padrão de vida, residindo em casas e apartamentos de luxo, segundo os investigadores da Coordenação Especial de Combate à Corrupção, ao Crime Organizado, aos Crimes Contra a Administração Pública e aos Crimes Contra a Ordem Tributária (Cecor).

De acordo com o delegado-chefe da Divisão de Repressão à Corrupção e aos Crimes contra a Administração Pública (Dicap) – uma unidade pertencente à Cecor –, Wenderson Teles, as empresas de cobrança recebiam comissão de 3% a 16% em relação às dividas pagas efetivamente pelo banco.

“Geralmente esse valor era pago automaticamente, mas ocorria um erro no sistema que dava autorização ao funcionário para efetivar o pagamento de forma manual. Um ex-funcionário, que já foi demitido, pagava valores maiores que os da comissão, para que ele também recebesse o dinheiro das empresas pela fraude que cometia”, explicou Teles.

Verificou-se, durante as investigações, que todos os envolvidos tinham vínculo e se comunicavam entre si. O morador de Águas Claras e um dos outros 14 presos na Operação Crédito Viciado são irmãos.

JP Rodrigues/Metrópoles

Um dos presos pela PCDF durante a Operação Crédito Viciado

Durante as buscas, foram apreendidos documentos e aparelhos de telefone usados exclusivamente para troca de informações sobre o esquema. Além disso, os agentes e delegados recolheram R$ 20 mil em moedas estrangeiras e identificaram 22 carros de luxo.

Segundo o delegado e coordenador da Cecor, Leonardo de Castro, as empresas especializadas em cobranças bancárias atuam em várias instituições financeiras, mas as investigações não apontaram fraudes cometidas em outros bancos até o momento. “Ao final do processo, caso haja condenação, os veículos serão leiloados e, a depender do entendimento do juiz, os valores apurados serão revertidos para o banco”, detalhou Castro.

Megaoperação
A megaoperação da PCDF foi deflagrada nas primeiras horas da manhã desta quinta-feira (09/05/2019), a fim de apurar desvios de cerca de R$ 26 milhões no Banco do Brasil. Os suspeitos são investigados por organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro.

A Cecor cumpriu 15 mandados de prisão temporária e 28 de busca e apreensão. As ações ocorreram no Distrito Federal e em oito estados: Goiás, São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso e Rio de Janeiro.

 

Segundo os investigadores, o esquema fraudulento envolvia ex-servidores do Banco do Brasil, além de funcionários de 11 empresas especializadas na cobrança de dívidas bancárias.

Os policiais conseguiram identificar os suspeitos de subtrair R$ 15.758.738,49 do banco. O valor foi bloqueado pela Justiça. No entanto, as apurações indicam que o esquema criminoso provocou um rombo ainda maior: R$ 26 milhões apenas entre os anos de 2017 e 2018.

De acordo com a PCDF, as empresas terceirizadas envolvidas recebiam o percentual de comissão superfaturado devido à fraude sobre os valores ressarcidos pelos clientes às instituições financeiras.

Os funcionários do Banco do Brasil utilizavam um erro técnico para repassar as comissões de forma manual e, assim, pagavam valores maiores às empresas de cobrança. Como contrapartida, pessoas vinculadas às companhias desembolsavam quantias vultosas aos servidores do BB, diretamente ou por meio de terceiros, em forma de propina.

As investigações da Cecor começaram em janeiro de 2019, devido a ameaças sofridas por executivos da instituição financeira. Elas foram motivadas pela decisão estratégica do Banco do Brasil em não renovar contratos com 117 empresas de cobrança de dívidas, para que o serviço de recuperação de créditos fosse feito pela empresa BB Tecnologia e Serviços (BBTS).

A PCDF informou que o Banco do Brasil está colaborando com as investigações.