DF: abandonados há 30 anos, pinheirais do Paranoá ameaçam ecossistema

Espalhados por 273 hectares da capital, pinheiros já tiveram seu cultivo proibido em Florianópolis (SC) pelos danos ambientais causados

Andre Borges/Esp. MetrópolesAndre Borges/Esp. Metrópoles

atualizado 11/08/2019 19:47

É do ateliê construído nos fundos da casa onde mora, no Condomínio Fazendinha, no Paranoá, que Joana Oliveira de Carvalho, 60 anos, tira o sustento. No espaço improvisado, colocou máquinas de costura e passa o dia debruçada sobre os equipamentos, trabalhando exaustivamente. O esforço braçal diário se torna mais difícil durante os períodos de seca. Asmática, a costureira sofre cotidianamente com a fuligem proveniente de incêndios nos 273 hectares de pinheirais que cercam sua residência.

Plantados em 1972 pela Proflora – Florestamento e Reflorestamento, empresa estatal do Distrito Federal em processo de liquidação há três décadas, os pinheiros foram cultivados para suprir a demanda de madeira dos brasilienses durante o processo de desenvolvimento da capital. Contudo, a companhia faliu e foi extinta em 1989, sem nem mesmo ter explorado o maciço florestal, deixando o local abandonado há 30 anos.

Cansada de visitar o Hospital da Região Leste (HRL), antigo Hospital do Paranoá, para tentar tratar as crises asmáticas, dona Joana “trouxe o hospital para dentro de casa”, conforme relata. No quarto dos fundos, preparou o ateliê para a “dose diária de fuligem”. As janelas foram cobertas com telas e mosquiteiros e, agora, a costureira precisa trabalhar usando um pano no rosto se não quiser aspirar os resquícios da queima dos pinheiros.

“Se não fosse isso, eu não aguentaria trabalhar. Se não trabalho, como faria para comprar os meus medicamentos? Precisei trazer o hospital para cá”, reclama a costureira, que diz gastar R$ 400 todo mês com os remédios para o tratamento da doença respiratória.

 

Joana não é a única moradora do Paranoá a sofrer com as queimadas dos pinheirais. Ao Metrópoles, o comandante do Grupamento Especializado de Proteção Ambiental do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF), tenente-coronel Fabiano Medeiros, conta que diariamente recebe chamados para combater chamas na vegetação.

“Fogo por lá é quase todo dia, e a ação é complicada, pois esse tipo de árvore emite muita fumaça, além da resina liberada pelo pinheiro, que é altamente inflamável. As folhas finas das árvores caem no chão e formam uma espécie de tapete que, durante a queima, é muito difícil de apagar”, afirma o oficial.

O comandante explica ainda que o volume de água gasto para conter o avanço das chamas é “muito maior” do que a quantidade demandada em combates a queimadas de áreas do Cerrado, por exemplo. “O fogo dos pinheiros cria também enorme quantidade de fumaça que incomoda os moradores da cidade”, acrescentou o militar.

Desequilíbrio ambiental

Matéria-prima na confecção de, pelo menos, 126 produtos, os pinheiros da espécie Caribaea hondurensis foram plantados em 273 hectares de terra do Paranoá pela Proflora, que conseguiu, junto à Agência de Desenvolvimento do DF (Terracap), em 1972, o direito de administrar o manejo do maciço florestal da área em prazo de até 20 anos. Na prática, isso significa que a empresa poderia realizar a colheita e o plantio da vegetação do local para fins econômicos e com o propósito de suprir a demanda de madeira da capital.

Ocorre, no entanto, que a Proflora entrou em processo de liquidação há 30 anos. Em 1989, a Lei Distrital nº 49 autorizou a extinção da empresa. No ano seguinte, os projetos da estatal passaram à administração da Terracap. A aérea à qual tinha direito possui extensão territorial equivalente a quase quatro vezes a dimensão do Varjão.

Desde então, os campos que deveriam ser manejados seguem intocados. Abandonados, os pinheiros configuram grave ameaça ao ecossistema da região. Mais do que seu alto teor de inflamabilidade, a falta de controle no crescimento da espécie tem preocupado ambientalistas do DF.

“Espécie exótica e invasora”

Doutora em desenvolvimento sustentável e professora do Centro Universitário de Brasília (UniCeub), Fernanda Cornils explica que a “espécie exótica e invasora” é perigosa para o meio ambiente se não for manejada de maneira adequada.

“O pinus [pinheiro] é uma árvore que compete com outras vegetações e as vence. Os riscos são vários, a começar justamente pela resina liberada quando a casca da árvore pega fogo. É altamente inflamável. Outro risco é a possibilidade do fogo de copa, ou seja, aqueles que ocorrem no topo das árvores. São incêndios de difícil combate, como os que vimos recentemente na Califórnia (EUA) e em Portugal”, relata a especialista.

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“É uma espécie capaz de dispersar a semente pelo ar em distâncias que chegam a 60 km. Nos locais onde se instauram, os pinus não deixam vida crescer ao redor. Formam-se florestas vazias, pois não são oferecidas aos animais condições necessárias para manter a fauna ativa. Os pinheiros não são comestíveis nem oferecem proteína aos bichos”, acrescenta Fernanda.

O engenheiro florestal Pedro Maciel de Andrade Melo, por sua vez, alerta para outra característica perigosa da espécie: “O Cerrado produz 50 metros cúbicos de biomassa por hectare e, desse total, 60% são de água. Já os pinus apresentam consumo de 600 metros cúbicos pelo mesmo espaço. Na prática, isso significa que os pinheiros consomem 12 vezes mais água do que o Cerrado”.

Melo destaca que a situação pode prejudicar o fornecimento de água na área. “Estamos falando de pinheirais localizados em uma região [Paranoá] cujo abastecimento hídrico deriva quase que em sua totalidade dos poços artesianos que utilizam o líquido acumulado no lençol freático.”

Extermínio e recuperação

A elevada capacidade de dispersão das sementes é outro fator que tem preocupado ambientalistas de todo país. Com alto poder de dispersão, os pinheiros entraram na lista das quatro espécies prioritárias para extermínio no Distrito Federal.

A capital não é a única região do Brasil a sofrer com a proliferação desordenada de pinheiros. Em Florianópolis (SC), decreto municipal aprovado em 2012 pelo governo local proibiu o plantio dessa espécie, de eucaliptos e casuarinas. Segundo o texto, a medida objetiva o extermínio da planta no município dentro de 10 anos, ou seja, até 2022.

Plantados em ação de política pública realizada nos anos 1960, os pinheiros catarinenses provocaram prejuízos ao ecossistema da capital do estado. Para evitar que se espalhassem, a lei instituiu, ainda, a cobrança de R$ 100 por árvore remanescente aos que insistirem no plantio.

Os ambientalistas brasilienses temem agora que o cenário encontrado em Florianópolis se repita no DF. De acordo com Fernanda Cornils, estudos comprovam que o melhor a se fazer para recuperar a área é realizar a troca gradual da vegetação atual para o Cerrado.

“Por muito tempo, acreditou-se que o Cerrado não se restaurava após as queimadas, mas pesquisas recentes comprovam seu alto poder de regeneração. É um bioma que precisa do fogo e evoluiu com ele. Algumas sementes, por exemplo, se adaptaram para suportar as chamas. E há árvores que precisam dos incêndios para dispersar suas sementes”, explica.

O plano de recuperação proposto por Fernanda Cornils compreende seis etapas. A primeira delas seria a colheita dos pinos enraizados no campo. Na sequência, a ambientalista defende a realização de queimada e, então, a semeadura direta. Mais rápida e eficaz, essa estratégia consiste em semear vegetação pioneira, em alta diversidade, ou com espécies secundárias, dependendo da resiliência da área.

A próxima etapa seria o engordamento das espécies – ou seja, a inserção das sementes que não vingaram no processo de semeadura direta – e, então, o plantio das demais mudas. Por fim, o último passo é, como explica Fernanda, “deixar que a natureza faça seu trabalho”.

Imbróglios judiciais

Fernanda diz que corre contra o tempo para conseguir realizar a recuperação da área. A boa intenção, no entanto, esbarra em uma dificuldade que perdura desde 1972, quando a Proflora – dona dos maciços florestais – foi criada. Com o término do contrato para realizar o manejo dos pinheiros, previsto para ocorrer em até 20 anos, as áreas ocupadas pela empresa deveriam retornar à Terracap, dona do solo onde as plantas estão fixadas.

O cenário de abandono parecia que ia terminar em 2014, quando a FCS Engenharia Florestal formalizou, em 14 de julho daquele ano, contrato de compra e venda do maciço florestal de um dos terrenos anteriormente cedidos à Proflora. Porém, segundo um dos sócios da empresa, o engenheiro Pedro Maciel de Andrade Melo, a exploração foi suspensa pelo Instituto Brasília Ambiental (Ibram).

“O Ibram nos comunicou a intenção da criação de um parque e suspendeu nosso contrato, por não saber como conduzir essa intenção. Era um contrato de cinco anos, prorrogáveis por mais cinco, que se encerrou em julho deste ano sem que eu pudesse ter explorado a área. Fui impedido”, reclama.

Procurado pela reportagem, o instituto negou ter registro de pedido do órgão junto às promotorias de Justiça de Defesa do Meio Ambiente e do Patrimônio Cultural (Prodema) no que diz respeito ao acordo firmado entre a empresa FCS Engenharia Florestal e a Proflora. Mas confirmou que no local foi criada uma unidade de conservação e que o Ibram, agora, “aguarda resposta de estudos sobre a possibilidade de continuidade ou não da vegetação na área”.

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