Mãe de professor assassinado desabafa: “Não estou aguentando a dor”

O enterro de Bruno Pires, 41 anos, ocorreu neste sábado (31/08/2019). Ele foi esfaqueado por um aluno de 18 anos, em Águas Lindas (GO)

André Borges/MetrópolesAndré Borges/Metrópoles

atualizado 31/08/2019 18:27

Cerca de 500 pessoas acompanharam o velório do professor  Bruno Pires de Oliveira, 41 anos, neste sábado (31/08/2019), no cemitério de Taguatinga. O coordenador pedagógico do Colégio Estadual Machado de Assis (Cema), em Águas Lindas de Goiás (GO), no Entorno do DF, foi assassinado, a facada, por um aluno do colégio nessa sexta-feira (30/08/2019). Anderson da Silva Leite Monteiro, 18, está foragido.

A mãe do professor, Maria das Graças (foto de destaque), esteve o tempo todo apoiada por seus familiares. “Não estou aguentando a dor”, disse à reportagem. Lembrou do café da manhã que tomou com o filho, no dia que ele morreu. A mulher contou que Bruno chegou a mencionar que corria perigo, mas que não desistiria de seus projetos.

Apesar de o professor nunca ter relatado ameaças, o irmão contou que Bruno disse estar tocando projetos que desagradavam a algumas pessoas. “Meu irmão era um vocacionado. O sonho dele era dar aulas”, afirmou o comerciante Otávio Rodrigues, 44.

O clima é de revolta pela maneira como o docente, um homem de temperamento tranquilo e afetuoso, foi morto. Os estudantes relatam que o professor de Geografia era muito mais do que um educador. “Ele era muito próximo da gente, um amigo, que sempre nos aconselhava nas dificuldades”, lembrou Victória Oliveira da Silva, 13, do 8º ano. O professor Bruno estava na escola há dois anos e a proximidade que mantinha com os alunos chamava a atenção. “Nossa escola nunca mais será a mesma. Ele era um professor exemplar”, afirmou Sarah Carvalho, 14, também do 8º ano.

A Secretaria de Educação de Goiás decretou luto de uma semana na escola que foi palco da tragédia. Ônibus trouxeram professores, pais e alunos para a despedida do professor.

 

 

Prisão decretada

Neste sábado, a Justiça de Goiás decretou a prisão preventiva de Anderson da Silva Leite Monteiro. O pedido foi feito pelo Grupo de Investigação de Homicídio (GIH). Desde o assassinato, o estudante está foragido. O temor dos policiais era de que, com o fim do flagrante, o suspeito se apresentasse e não pudesse ser preso. Equipes das polícias Civil e Militar de Goiás estão à procura do rapaz, inclusive no Distrito Federal, já que Anderson tem parentes na capital da República.

O crime

Segundo o delegado plantonista de Águas Lindas, Rodrigo Mendes, Anderson “estava muito nervoso” na sexta, por volta das 11h55. Ele se encontrou com Bruno no estacionamento, no momento em que o professor se dirigia até a sua moto para ir embora. Nessa ocasião, o estudante desferiu um único golpe de faca no docente e fugiu. A lâmina perfurou o fígado do educador, que tinha contrato temporário.

“Bruno entrou na sala dos professores e disse que o ‘Anderson Grandão’ o havia atacado. Uma professora nem acreditou e chegou a sair para ver se encontrava o jovem. A vítima chegou a ser socorrida, mas morreu no hospital”, detalha o delegado Mendes.

“A gente ainda está investigando, mas há a hipótese de que ele tenha surtado. O Anderson não é um aluno com histórico de violência, não possui passagens pela polícia, mesmo quando menor, e, apesar de nunca ter tido boas notas, também nunca foi agressivo. Era um aluno aparentemente tranquilo”, conta Mendes. De acordo com o delegado, os pais do menino eram participativos na comunidade escolar.

Quando Anderson saiu da última aula de sexta-feira, a professora estranhou o comportamento do rapaz. O motivo da raiva e nervosismo foi um burburinho que se espalhou pelo colégio de que ele seria desligado do programa Mais Educação, direcionado a alunos dos 6° e do 7° ano e focado em atividades pedagógicas e esportivas. “Pelo visto, ele gostava muito desse programa e a escola não confirmou o desligamento”, acrescentou o policial.

Mais tarde, o delegado titular do Grupo de Investigação de Homicídios (GIH), Cleber Martins, confirmou que o aluno havia sido excluído do programa escolar. “Estamos apurando três versões: uma era a de que ele teria saído por indisciplina; outra, de que ele teria problemas de saúde, possivelmente cardíaco, e desmaiava nas atividades físicas; e também a questão da idade, por ser bem maior e mais velho que os colegas de classe.”

De acordo com o investigador, não foi Bruno quem tirou Anderson do programa. “Foi outra professora, e eu não sei se ele pensou que a vítima tivesse interferido. O aluno vai responder, a princípio, por homicídio qualificado com uso de meio que dificultou a defesa da vítima”, explica.

A faca usada no crime teria sido emprestada por outro colega, ainda do lado de dentro da escola. “Ninguém viu claramente o que aconteceu. Os alunos já tinham sido liberados e os funcionários estavam almoçando na sala dos professores. Não houve reação, ele chegou para os colegas estancando os ferimentos, disse que tinha sido esfaqueado e pediu para ser socorrido”, finalizou o delegado.

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