Laudo, internet e negacionismo: o que leva as pessoas a não tomar vacina

Razões vão desde dificuldades para conseguir laudo comprobatório de comorbidades até negacionismo e problemas para agendamento no site

atualizado 13/06/2021 17:28

Hugo Barreto/Metrópoles

Em 19 de janeiro deste ano, o Distrito Federal iniciou a campanha de vacinação contra a Covid-19 de grupos prioritários, em meio a um cenário de apreensão devido aos alarmantes números de casos de infecções e mortes pela doença em todo o país. Na última semana, no entanto, o Governo do Distrito Federal (GDF) alertou sobre a baixa procura de imunização pelos públicos-alvos da vacina. Há também a tendência da população de procurar um local que esteja aplicando uma marca específica do fármaco.

O Metrópoles foi às ruas de regiões administrativas da capital da República para apurar sobre as razões que estão afetando o comprometimento dos números da vacinação.

Os motivos vão desde negacionismo, distância do local de vacinação e dificuldades para conseguir laudo comprobatório de comorbidades até problemas com o sistema informatizado para a marcação da vacinação.

Dificuldades

A dona de casa Charlene Fernandes, 39 anos, mora no Trecho I do Setor Habitacional Sol Nascente e tenta, há 10 dias, tomar a primeira dose da vacina. Ela tem comorbidades, mas ainda não conseguiu agendar data para a imunização.

Para a reportagem, a mulher relatou que tem problemas na tireoide e possui o índice de massa corporal (IMC) acima de 40 – condições que a incluem como parte do grupo prioritário.

“Eu não tenho a documentação comprobatória. Comecei a correr atrás assim que liberaram o agendamento para a minha idade. Já fui a um posto de saúde de Ceilândia e me disseram que, para conseguir a dose, eu preciso comprovar as doenças, por meio de laudo. A minha maior dificuldade está sendo conseguir marcar uma consulta com endocrinologista na rede pública”, afirmou.

Segundo Charlene, as datas mais próximas para agendamento de consultas são para daqui a três meses. “É muita dificuldade. Temos que colocar o nome em uma lista para conseguir acesso. Eu não tenho condições de pagar na rede privada, mas vou tentar. Eu preciso vacinar logo. Se eu for esperar para tomar na minha idade, vai demorar muito. O governo está dificultando. Eu quero me imunizar e não consigo. Estou apta, mas não tenho o laudo”, acrescentou.

Charlene contou ainda que foi infectada pelo vírus e passou 15 dias internada no Hospital Regional de Ceilândia (HRC). “Aconteceu há cinco meses. Se eu pegar de novo, tenho medo do que pode acontecer. Fui muito bem acompanhada. Ainda estou me recuperando.”

Moradora do mesmo lote da dona de casa, a mãe de Charlene, Maria de Fátima Silva Belém, de 59 anos, também está enfrentando dificuldades no agendamento da vacina. No caso dela, a marcação pode ser realizada pela idade, mas a família alega que não está conseguindo um local próximo de casa.

Veja as fotos de mãe e filha:

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“Desde que liberaram o agendamento pela idade, já tentamos diversas vezes. O site dá fora do ar, cai a conexão. Na hora que conseguimos acessar as opções de locais para a imunização, não aparece nenhum próximo de casa. Está complicado”, alegou.

A família avalia que o sistema de registro na internet não atende a todos os públicos. “Nós temos entendimento e ainda assim surgem dificuldades. Fica mais complicado a quem não tem acesso à internet. Muitas pessoas nem sequer entendem como funciona o agendamento”, opinou Charlene.

Lucineide Nascimento de Sousa, 42, teve paralisia infantil e é cadeirante. Ela mora na Chácara 36 do Sol Nascente e não possui Benefício de Prestação Continuada (BPC). A dona de casa conta que, nas tentativas de realizar o agendamento para receber a primeira dose da imunização, o CPF aparece como inválido.

“O meu documento está dando como inexistente. Já tentei de diversas maneiras. Vou preferir esperar chegar a minha idade. Estou evitando passar nervoso. Eu já fui até um posto, mas me pediram um laudo. Para que um laudo, se eu estou sentada numa cadeira de rodas?”, questionou. “Estou com muita dificuldade”, completou Lucineide.

Lucineide Nascimento de Sousa, 42, que teve paralisia infantil e é cadeirante
Lucineide Nascimento de Sousa, 42, que teve paralisia infantil e é cadeirante. Ela não consegue agendar a vacina porque o CPF aparece como inválido
Negacionismo

No Trecho II do Sol Nascente, o aposentado Jaime da Conceição Souza, 64, declara que não acredita na eficácia da vacina. Ele comentou que já foi infectado com a doença e, como teve apenas sintomas leves, conseguiu se recuperar em casa.

“Não quero me vacinar e tenho direito. Acredito que a vacina deve ser avaliada caso a caso. Cada um tem o livre-arbítrio para resolver se imunizar, ou não”, disse.

Distância de casa

A moradora do Pôr do Sol Lúcia do Nascimento, 47, é mãe de Jorge do Nascimento, 23, deficiente mental. Ela comenta que não conseguiu agendar a vacina para o filho em local próximo da casa deles, porque não tem internet na residência.

“Eu só consigo tentar agendar quando vou ao trabalho, uma vez por semana. Faço pelo celular. Até hoje, não consegui um posto de imunização próximo da nossa residência. Meu filho não consegue sair para muito longe e não possuímos veículo. Estou aguardando uma vaga para vacinar perto de casa”, relatou.

Em resposta aos problemas, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal pontuou que, no caso de atendimento realizado rotineiramente na rede pública, o sistema já verifica o tipo de acompanhamento e a comorbidade que o paciente tem, e não há necessidade de relatório médico. Esse documento é exigido apenas de pessoas assistidas na rede particular de Saúde, que não têm seu quadro catalogado na central da rede pública.

“O sistema da Secretaria de Saúde irá reconhecer, por meio do CPF do usuário, se ele é portador de alguma comorbidade, no caso de haver registro de atendimentos no SUS. Não havendo esse reconhecimento, o usuário poderá se cadastrar, mas deverá apresentar um laudo médico quando for vacinar, após o agendamento ser anunciado. Importante esclarecer que os dados informados devem ser comprovados, pois o cidadão declara estar prestando informações verdadeiras”, comunicou a pasta.

Com relação ao agendamento, a pasta distrital esclareceu que a medida foi adotada após campanha de imunização destinada ao público idoso, de 80 a 60 anos, sem a necessidade de marcação. Nesse contexto, o órgão observou que, em diversas ocasiões, houve muita aglomeração nos pontos de vacinação – gerando, consequentemente, risco aos pacientes.

“Por este motivo, e visando o conforto da população, além de evitar as aglomerações, é que o GDF considera a decisão de dar continuidade ao agendamento a mais acertada no momento. Somente no dia 10 de junho, foram administradas 14 mil doses por meio de agendamento.”

Vacinômetro

A Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) aplicou 1.062.908 doses de vacina contra a Covid-19 até a noite da última quinta-feira (10/6). Os dados constam no vacinômetro da pasta.

Desse total, 735.966 receberam a primeira dose e 326.942, as duas aplicações. Esses números indicam que 14,15% da população maior de 18 anos, na capital federal, estão imunizados com as duas doses da vacina. Em relação à população geral, o DF já aplicou a primeira dose em 24,11%. Já a D2 foi aplicada em 10,71%.

Na última coletiva sobre as ações do GDF no combate à pandemia do novo coronavírus, realizada na quinta, o secretário de Saúde, Osnei Okumoto, afirmou que a baixa procura nos postos de imunização contra a Covid-19 se deve à tendência de a população procurar um local que esteja aplicando um tipo específico de vacina.

Okumoto reforçou que o número expressivo se deve a uma programação feita pelo GDF, a ser cumprida nos próximos dias. A iniciativa estabelece que, caso os grupos contemplados não sejam imunizados, todas as doses serão redirecionadas.

“O que está acontecendo ainda são escolhas pela marca da vacina. Estamos tentando minimizar esse número de pessoas que fazem o agendamento, fazem o cadastro e não vão vacinar. Quando as pessoas vão até a localidade, elas desistem de se vacinar quando descobrem o tipo de imunizante disponível. O que a gente vai fazer é baixar as idades e, se a gente observar que está tendo dificuldade de vacinar e o motivo for o agendamento, se for o caso, vamos reavaliar o agendamento. Até agora, contudo, o que demonstra é que as pessoas estão escolhendo a marca da vacina”, disse.

Também presente na coletiva de imprensa, o secretário-chefe da Casa Civil, Gustavo Rocha, afirmou que, na atual fase da vacinação, a diferença de grupos etários entre as unidades da Federação se deve à aplicação de imunizantes que deveriam ser reservados à segunda dose, mas são usados como se fosse a primeira, em outras cidades. “Mantivemos a D1 para D1 e D2 para D2. Isso não ocorreu em outros estados”, frisou.

Educação

Rocha também afirmou que 36,2 mil doses da vacina Janssen, da Johnson & Johnson, serão destinadas para a vacinação de profissionais de educação pública do Distrito Federal. A decisão foi tomada porque o lote chegará com prazo de validade até o dia 27 de junho e, por isso, a imunização será em massa, com apenas uma dose, conforme orienta o laboratório.

De acordo com o titular da Casa Civil do DF, a remessa da nova fórmula deve chegar entre domingo (13/6) e terça-feira (15/6). As doses do imunizante serão aplicadas exclusivamente em gestores, professores e servidores administrativos da rede pública do Distrito Federal. A ideia é dar seguimento à expectativa do governador Ibaneis Rocha (MDB) para a retomada das aulas em agosto. Outras 1,8 mil doses da Coronavac serão utilizadas para finalizar a vacinação de profissionais de creche. Assim, serão 38 mil doses para a educação pública no DF.

“Em alguns momentos, até 22% não compareceram para vacinação. A Educação e a Saúde montarão uma operação de guerra para vacinar essas pessoas. Como foi repercutido pela imprensa, a Janssen tem prazo de validade até o dia 27. Será feita uma lista pela Secretaria de Educação, por escola. No momento em que for confirmada a chegada da vacina, esses profissionais precisam buscar imediatamente o seu posto. A vacina é uma dose só”, frisou.

Ainda segundo Gustavo Rocha, outras categorias, além da faixa etária dos 55 anos, receberão as remessas para continuar com a vacinação dos grupos prioritários. O secretário-chefe afirmou que serão 5 mil doses para rodoviários, mais 15 mil para pessoas com comorbidades e 10 mil para pessoas com deficiência e sem BPC.

53 anos

O agendamento para vacinação contra a Covid-19 a pessoas com 53 anos ou mais, sem comorbidades, começou na sexta-feira (11/6). Serão destinadas 114 mil doses para atender às pessoas com idade entre 53 e 59 anos. O número de unidades disponíveis considera somente os indivíduos pertencentes a essas faixas etárias e que, por não integrarem outros grupos elegíveis para a imunização, ainda não receberam a primeira dose da vacina.

Nas contas do governo local, todos os servidores da segurança já foram imunizados, encerrando a destinação de vacinas para esse público.

A cobertura vacinal da primeira dose entre as faixas etárias ultrapassa 100% em pessoas com 70 anos ou mais. Isso ocorre porque moradores de outras unidades da Federação buscaram vacinação no DF, o que não estava previsto dentro da estimativa populacional. Com o reforço, a cobertura vacinal passa 100% em pessoas com 75 anos ou mais e chega a 98,51% em quem tem de 70 a 74 anos.

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