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O julgamento de recursos – tanto da defesa quanto da acusação – da ex-delegada Martha Vargas foi suspenso nesta quinta-feira (8/3) após pedido de vista do desembargador Jair Soares, da 2ª Turma Criminal do Tribunal de Justiça do DF e dos Territórios (TJDFT).

O juiz pediu vista após o relator, Silvânio Barbosa, votar pela reversão da cassação da aposentadoria de Martha Vargas e aumentar a pena de 16 anos e 10 dias para 16 anos e 12 dias.

Apesar de o prazo do pedido de vista ser de 10 dias, a expectativa é de que a análise seja retomada na próxima quinta-feira (15/3). Além de Silvânio Barbosa e Jair Soares, participou do julgamento na 2ª Turma o desembargador João Timóteo de Oliveira.

Martha Vargas foi responsável pela primeira fase da investigação do triplo homicídio do caso que ficou conhecido como crime da 113 Sul. Em 28 de agosto de 2009, o ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) José Guilherme Villela, 73 anos; a mulher dele, Maria Carvalho Mendes Villela, 69; e a empregada da família, Francisca Nascimento da Silva, 58, foram brutalmente assassinados com 73 facadas no total no apartamento onde o casal morava

Pedido para aumentar a pena
O julgamento desta quinta (8) começou com a sustentação do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). A promotora Marta Rezende representou o órgão e pediu aumento da pena da ex-delegada. “No caso da violação de sigilo da investigação, cada ato caracteriza um delito. As informações foram passadas no local do crime e, depois, por e-mail e telefone”, argumentou.

Marta Rezende se referia ao fato de a então delegada, que comandava as investigações, ter divulgado informações sobre os assassinatos à vidente Rosa Maria Jaques.

Ao ler o relatório contra Martha Vargas, o desembargador Silvânio Barbosa afirmou que a então delegada mentiu ao dizer que recebeu uma denúncia anônima, por telefone, de onde estavam os “responsáveis ” pelo triplo homicídio.

“Na verdade, as informações eram de uma pessoa chamada Rosa Maria, que se identificou como vidente, paranormal, desde o início”, afirmou o magistrado.

Para o relator, se a delegada tivesse especificado na época que o pedido de prisão de três suspeitos foi embasado na informação passada por uma “cartomante”, a solicitação não teria sido deferida. “Esse é o primeiro ato de falsidade ideológica”, afirmou o desembargador.

O segundo ato de falsidade ideológica, de acordo com Barbosa, foi a chave do apartamento dos Vilela encontrada nos pertences dos suspeitos. A chave, apontam as investigações, teria sido plantada por Martha Vargas.

Em seguida, Barbosa acatou parcialmente os pedido da defesa de Martha Vargas e do Ministério Público. O desembargador negou a perda de cargo e de aposentadoria de Martha Vargas, porque esse tema já é analisado em outra ação de improbidade. Contudo, aumentou em dois dias a pena de 16 anos e 10 dias – passando para 16 anos e 12 dias –, além do pagamento de 45 dias-multa.
Logo depois, o desembargador Jair Soares pediu vista.

Vidente
Atualmente respondendo em liberdade, a ex-delegada dirigiu a fase inicial da apuração do triplo homicídio praticado em um dos endereços mais nobres de Brasília.

Durante a fase de inquérito, Martha recorreu a uma vidente para anunciar a elucidação do caso. A paranormal Rosa Maria Jaques contou ter visto uma foto de José Guilherme num jornal e o morto teria piscado para ela, indicando os responsáveis pela tragédia.

Com auxílio da líder espiritual, a delegada aposentada prendeu três suspeitos em Vicente Pires e apontou como prova principal uma chave do apartamento dos Villela, que estaria em posse do trio. Para obter a confissão de Alex Peterson Soares, Rami Jalau Kalout e Cláudio Brandão, Martha e parte de sua equipe teriam torturado os três.

No entanto, dias depois, laudo do Instituto de Criminalística (IC) revelou que a chave apreendida era exatamente a mesma recolhida pela própria Polícia Civil na cena do triplo homicídio. Diante da denúncia em relação à prova plantada, Martha pediu afastamento da investigação e o caso passou a ser conduzido pela Coordenação de Crimes Contra a Vida (Corvida).

Até a última atualização deste texto, a reportagem não havia conseguido contato com a defesa de Martha Vargas.

Filha é suspeita
Pelas mãos da unidade especializada da Polícia Civil, ganhou força a tese de que a mandante do crime seria a filha do casal assassinado, Adriana Villela. A arquiteta recebia uma mesada de R$ 8 mil, mas considerava pouco, o que motivava discussões acaloradas com os pais.

No decorrer das investigações e após várias reviravoltas, o ex-porteiro do Bloco C da 113 Sul Leonardo do Campos Alves confessou sua participação na barbárie e indicou como comparsas o sobrinho, Paulo Cardoso Santana, e Francisco Mairlon Barros. Conforme contou Leonardo, eles praticaram o crime a mando de Adriana.

Os três foram condenados a mais de 60 anos de prisão. O único que ainda pode recorrer é Paulo Cardoso. Já Adriana Villela aguarda em liberdade a data em que será levada a júri popular.