Igreja diz não ter recebido denúncia contra catequista acusado de estupro

José Antônio iniciou o serviço voluntário na paróquia em 2017. No início deste ano, saiu sem qualquer explicação

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atualizado 12/07/2019 9:30

A igreja onde o professor de catequese José Antônio Silva, de 47 anos, atuou por dois anos no Guará II garante não ter recebido nenhuma denúncia contra o acusado de abusar de pelo menos 17 crianças, entre 4 e 12 anos. De acordo com o pároco Mário Alves Bandeira, neste período, “não houve qualquer acusação, desconfiança ou insinuação envolvendo o suspeito, seja por parte dos colegas, da coordenação de catequese Paróquia Divino Espírito Santo, das próprias crianças e de seus familiares”.

José Antônio, que é considerado foragido, iniciou o serviço voluntário de catequista em 2017 e ficou até o início deste ano, quando saiu sem qualquer explicação, segundo nota encaminhada à imprensa pelo pároco. “Antes de se tornar catequista, passou pelo período de formação, como se faz com todos os voluntários e voluntárias, etapa na qual se passa a conhecer o candidato, não apenas nas dimensões intelectual e espiritual, mas também nas dimensões humanas e afetivas, pastoral e da vida comunitária”, ressaltou o padre Mário Bandeira.

Segundo o comunicado, a Paróquia Divino Espírito Santo colabora com o trabalho da polícia. “Como tem feito desde o início das investigações, continuará à disposição das autoridades no que estiver ao seu alcance.”

Ele afasta ainda a possibilidade de José Antônio ter ficado sozinho com as crianças na paróquia. “Geralmente, as aulas de catequese são ministradas por dois catequistas em cada sala”. Além do trabalho na igreja, o homem dava aulas em uma escolinha de futebol no Guará. Vivia rodeado de crianças, segundo os próprios vizinhos, mas era considerado acima de qualquer suspeita.

O Metrópoles conversou com alguns vizinhos de José Antônio, na QE 40. “Foi um choque para todos. Nunca houve desconfiança. Cliente nosso aqui no estabelecimento. Às vezes o víamos com crianças, mas nunca em atitude suspeita. Uma pessoa amigável”, disse um empresário que atua na região e preferiu não se identificar.

Vizinha do acusado definiu como “inacreditável” a denúncia. “Conhecíamos demais o José Antônio. Convivia com a gente. Ele sempre andou com crianças aqui na quadra. Como era catequista e dava aulas de futebol, víamos nele a figura de paizão. Não dava para imaginar essas atrocidades.”

Quadra de esportes onde o acusado ministrava aulas de futebol

A única vítima do sexo feminino que acusa José Antônio de abuso sexual disse que morou durante uma década sob o mesmo teto do seu algoz. Hoje, ela está com 18 anos. O catequista teve um relacionamento com a mãe da jovem. A violência, no entanto, segundo a denunciante, aconteceu antes do casamento dos dois. “A primeira vez, eu tinha 5. Isso durou até eu completar 7. Depois, nunca mais ocorreu”, contou ao Metrópoles.

A enteada ressaltou que tinha medo de denunciar o agressor. “Não sabia que ele fazia a mesma coisa com outras crianças. Quando fui crescendo, comecei a entender o que ele tinha feito comigo. Tive de sofrer sozinha todos esses anos, sem poder contar para ninguém”, revelou.

A vítima frisou ainda que a convivência entre os dois, após o casamento da mãe, era superficial. “Falávamos só o que era necessário. Tão logo tomei conhecimento de que meu primo denunciou, resolvi contar também (para a polícia). Achei que ele tivesse parado, não fazendo isso com mais ninguém. Até eu ir à delegacia e saber de mais pessoas. Isso foi um choque para mim. Fiquei traumatizada”, afirmou.

A mãe dela se separou de José Antônio depois da denúncia. De acordo com a jovem, a mulher está muito abalada, mas, ainda assim, tem apoiado a filha. “Esperamos que ele seja encontrado o mais rapidamente possível. E seja punido”, cobrou.

Os supostos abusos cometidos pelo catequista ficaram ocultos até maio de 2019, quando um dos sobrinhos do acusado, hoje com 23 anos, resolveu procurar a polícia. Pai de um bebê, ele temeu que o crime se repetisse com o filho e denunciou o tio, considerado até então acima de qualquer suspeita. Ao Metrópoles, o jovem, que preferiu não se identificar, contou como José Antônio agia.

Foram quatro anos de abusos — dos 4 aos 8 anos, conforme afirmou. “Ele fez isso com todos os meninos da família. A psicopatia começou depois de uma certa idade. Temos conhecimento de um deles, que é mais velho do que eu, e depois de mim, todos os mais novos também foram abusados”, revelou. De acordo com a vítima, as crianças eram abusadas aos domingos, quando a família estava reunida. “Algo muito ruim de se recordar”, disse.

O rapaz afirmou que decidiu denunciar o tio após uma comemoração do Dia das Mães na casa da avó. “Ele (José Antônio) foi dar a bênção ao meu filho bebê e aquilo me causou repulsa. Lembrei de tudo que ocorreu na minha infância e percebi naquele momento que eu tinha de fazer algo, caso contrário, aconteceria o mesmo com o meu filho”, destacou.

O jovem assinalou que, quando decidiu denunciar o tio, outros primos apoiaram a postura dele e fizeram o mesmo. José Antônio teria abusado pelo menos 12 crianças do núcleo familiar, segundo revelou o Metrópoles nessa terça-feira (09/07/2019). “Estamos unidos. Queremos justiça. Ele precisa pagar por esse crime”, enfatizou.

A situação, porém, divide a família. “O nosso apoio está vindo apenas dos mais próximos. A maioria dos irmãos está do lado dele. Queremos mostrar que não estamos errados. Fomos vítimas. E esperamos que a nossa família possa voltar a ser a mesma. Unida como sempre foi”, disse o jovem.

A Justiça do Distrito Federal incluiu, na terça-feira (09/07/2019), no cadastro nacional de foragidos, o nome do professor de catequese José Antônio Silva. Com sua identidade lançada no sistema que pertence ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a Polícia Civil do DF espera facilitar a cooperação com outros estados, caso o suspeito esteja em outra unidade da Federação.

Até agora, 13 vítimas procuraram a 4ª DP (Guará). A delegacia tem informação de outras quatro pessoas que foram abusadas, mas ainda não procuraram a unidade para depor. “Nossos esforços estão todos concentrados em solucionar este caso. Já recebemos algumas denúncias sobre o paradeiro de José Antônio, temos linhas possíveis, mas ainda nada concreto”, afirmou o delegado Douglas Fernandes.

Denuncie

Além do telefone 197, o Disque-Denúncia da PCDF, informações sobre o paradeiro de José Antônio podem ser repassadas por meio do site da corporação (www.pcdf.df.gov.br) ou pelo e-mail denuncia197@pcdf.df.gov.br. Outro canal é o WhatsApp: (61) 98626-1197. A identidade do denunciante será mantida no mais absoluto sigilo.

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