Ibaneis cobra punição de PMs flagrados com prostitutas em viaturas

Reportagem do Metrópoles revelou esquema envolvendo militares, garotas de programa, funcionários e donos de boate no centro de Brasília

atualizado 26/07/2019 18:48

Michael Melo/Metrópoles

O governador Ibaneis Rocha (MDB) afirmou, nesta sexta-feira (26/07/2019), que vai cobrar da Corregedoria da Polícia Militar punição aos integrantes da corporação que mantinham relacionamento próximo com garotas de programa, funcionários e donos de uma boate no Setor Hoteleiro Sul (SHS), área central de Brasília.

Após quatro meses de apuração, o Metrópoles mostrou a permanência de integrantes da força fardados por longos períodos dentro da casa noturna,o transporte de prostitutas na madrugada em viaturas e até policiais saindo do estabelecimento com cervejas.

“Já determinei ao secretário de Segurança que acompanhe todo o procedimento. Eu peço aos policiais e aos bombeiros, que são bem-remunerados, que chega dessa história de corrupção. Principalmente em áreas tão sensíveis. Prostituição acaba com a imagem de uma cidade e, com apoio de autoridades, a coisa fica bem pior”, disse o chefe do Executivo local.

A Corregedoria da Polícia Militar abriu investigação para apurar os fatos. “Toda atuação da PM está pautada pelos princípios constitucionais da legalidade e moralidade pela estrita obediência ao ordenamento jurídico. Sendo assim, qualquer conduta que extrapole esses ditames legais será passível de apuração por meio de procedimento legal”, diz a corporação, em nota. A investigação será feita por meio de inquérito policial militar (IPM).

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Durante as campanas, a reportagem constatou que, semanalmente, grupos de PMs frequentam o estabelecimento. Alguns, inclusive, chegam a passar até três horas dentro do prédio.

No período, pelo menos 13 viaturas de diferentes prefixos transportaram mulheres que trabalham no local após as noitadas. Pagos para combater práticas criminosas, policiais tinham o hábito de entrar na boate sempre entre 23h30 e 3h30, quando o movimento de pessoas é reduzido nas ruas do Setor Hoteleiro. O modus operandi era semelhante em todas as situações flagradas: dois ou três militares ficavam na porta de entrada da Alfa Pub, conversavam com os seguranças e entravam.

Na madrugada dessa quinta-feira (25/07/2019), a casa noturna fechou às 2h. Do lado de fora, algumas prostitutas fumavam cigarros de maconha. Instantes depois, uma viatura da PMDF se aproximou, mas não para repreender o grupo por uso de entorpecentes. Sem demonstrar preocupação com a presença de representantes do Estado, uma das garotas apagou o baseado, enquanto outra seguiu em direção ao veículo. Após um rápido bate-papo, ela entrou no carro e deixou o local com os PMs.


Sacolas de cerveja

Na noite do dia 7 de julho, a movimentação de policiais militares foi intensa na boate. Câmeras do circuito de segurança registraram os passos dos PMs. Em uma viatura, eles surgiram, às 23h25, e foram recepcionados por um dos donos da casa noturna. O empresário chegou a se debruçar na janela do carro plotado com as cores da instituição. Ele cumprimentou amistosamente seus ocupantes. Após breve interação, a guarnição seguiu para outro destino, mas não demorou a voltar. Às 23h56, estavam novamente no local. Próximo à meia-noite, a equipe fardada e armada entrou na boate e saiu somente 38 minutos depois.

Embora na parte externa da Alfa Pub, a dupla de PMs permaneceu nas imediações conversando com funcionários até 0h43. Nesse horário, eles acabaram convencidos por um dos donos da boate a irem até aos fundos do estabelecimento verificar câmeras instaladas. Com o auxílio de uma lanterna, observaram cada uma delas, como se procurassem por alguém nas imagens. Pouco tempo depois, retornaram para o interior da boate. Ambos deixaram o local à 0h54, mas continuaram conversando com funcionários na porta até 1h36, horário em que finalmente decidiram patrulhar outro ponto do Plano Piloto.

Em outro episódio flagrado pela reportagem, PMs entraram na boate à meia-noite e foram embora depois das 3h. Em junho, dois policiais fardados cruzaram a porta da Alfa Pub à 1h10 e deixaram o local 18 minutos depois carregando sacolas com cervejas.

 

Televisores sintonizam TV Senado

Durante o período de campana, foi possível confirmar a relação íntima entre PMs, prostitutas e frequentadores da casa noturna. Alguns se mostravam tão confortáveis que, mesmo trajando uniformes operacionais, se debruçavam na bancada do bar.

Em abril, o Metrópoles produzia uma matéria sobre o esquema de tráfico de drogas no interior da boate, quando notou a presença de PMs que não estavam lá para coibir práticas criminosas. Além de pagar por sexo, os clientes tinham farta oferta de droga. A venda conjunta de programa e entorpecentes foi revelada por duas prostitutas.

À época, a reportagem passou uma noite na Alfa Pub e acompanhou o movimento de garotas de programa, clientes e comércio de substâncias ilícitas. A boate segue o calendário do Congresso Nacional: funciona às segundas, terças, quartas e, esporadicamente, às quintas-feiras. Em uma terça, havia pelo menos 20 mulheres no local. Nos televisores espalhados pelo ambiente, nada de filmes pornográficos, clipes musicais ou partidas de futebol. A sintonia era a da TV Senado, que transmitia uma sessão ordinária da Casa.

Poucos minutos após a equipe chegar ao local, duas mulheres pediram para se sentar à mesa. Simpáticas, com idades entre 25 e 30 anos, falaram abertamente sobre a facilidade em adquirir cocaína, desde que fosse atrelada ao programa. “É fácil conseguir. Tem um menino que vende, e taxistas e motoristas de aplicativos entregam. Eu tenho o contato”, afirmou uma delas, sem saber que estava sendo gravada. Ouça abaixo:

 

As garotas de programa revelaram a existência de traficantes dispostos a fazer as entregas. O contato é via WhatsApp e a transação se dá de maneira rápida. Ela é feita momentos após o programa ser fechado com as prostitutas. O consumo, geralmente, ocorre nos quartos de hotéis do Setor Hoteleiro Sul. Os traficantes lucram com a clientela abastada que frequenta a boate. Bebidas, comidas e uma noite de sexo custam caro no Alfa Pub. É preciso desembolsar R$ 150 de consumação para entrar. O ingresso dá direito a cinco cervejas long neck – cada uma não sai por menos de R$ 30.

Retirar uma garota da boate antes das 2h30 da manhã custa mais R$ 150, além do preço do programa cobrado pela prostituta, que gira entre R$ 400 e R$ 500. Ao todo, um cliente precisa desembolsar, no mínimo, R$ 800 para curtir a noitada. As drogas não estão incluídas nesse valor.

A reportagem tentou entrar em contato com um dos donos da Alfa Pub, mas ele não atendeu nem retornou as ligações. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações.

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