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Distrito Federal

Ibama: mulher autuada com macaca no DF apresentou documentos falsos

Segundo analista do Ibama, documentos apresentados por Vitória Gabriela são falsos e macaca-prego foi vítima de tráfico e teve mãe morta

21/12/2024 02:50, atualizado 21/12/2024 10:39
Material cedido ao Metrópoles
Ibama: mulher autuada com macaca no DF apresentou documentos falsos

A mulher que foi autuada com a macaca-prego Anne em shopping no Distrito Federal apresentou documentos falsos a autoridades para justificar a posse do animal. As informações são do analista ambiental Roberto Cabral, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

A Justiça Federal concluiu que os documentos apontados como falsos não passaram por perícia técnica e deu ao Ibama 48 horas para devolver a macaca-prego Anne às tutoras: Vitória Gabriela Rodrigues, 24 anos e a mãe dela, a enfermeira Rosemary Rodrigues, 51 Rosemary.

Roberto Cabral, contudo, contestou esse entendimento e disse que a idoneidade ficou comprovada por meio do Sistema de Gestão de Fauna (SisFauna), que valida esses tipos de registros.

“Afirmamos com 100% de segurança que o documento é falso. Ele não aparece na hora em que entramos com o código do documento na plataforma. É como se eu entrasse no sistema do Detran [Departamento de Trânsito], colocasse o número de uma placa, e ela não aparecesse. Então, a autarquia sabe que aquela placa é falsa, porque ela não consta no sistema”, comparou.

Quando a tutora foi ao instituto, os fiscais verificaram que os registros apresentados seriam falsos. “Esse animal veio do tráfico, teve a mãe morta, e ela comprou a macaca de um traficante. Nós apreendemos o bicho, e a multamos por mantê-lo em cativeiro ilegal. Também comunicamos o crime ao Ministério Público”, destacou o analista ambiental Roberto Cabral.

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Passeio no shopping

Um vídeo disponibilizado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) registrou a macaca-prego Anne minutos antes de ser abordada por dois fiscais da autarquia, em um shopping do Distrito federal. O episódio aconteceu em 16 de novembro deste ano.

Dias depois, o animal acabou apreendido pelo instituto por suspeitas de falsidade documental. Na última quarta-feira (18/12), porém, o TRF  determinou que o animal fosse devolvido às tutoras que estavam com ele no centro comercial.

“Ela estava no shopping, que estava lotado por causa das festas de fim de ano, passeando com a macaca e a passando de mão em mão. Inclusive, no colo de pessoas com crianças”, contou.

“Felizmente, esse macaco ainda é filhote. Um animal desse adulto, se permanecer com esse tipo de comportamento, de ser levado [a centros de compras] e exposto a outras pessoas, pode chegar a morder e causar dano em alguém, ou até mutilar. Estar no shopping não faz parte das necessidades do macaco. É questão de capricho do dono”, ressaltou Roberto.

Vitória Gabriela teria sido abordada pelos fiscais enquanto andava em um carro de brinquedo com o animal na cabeça. A dupla do Ibama pediu que ela fosse ao estacionamento do shopping com eles, para evitar constrangimentos, e se deslocaram até o carro da tutora do animal – que estava estacionado em uma vaga para idosos.

Veja:

Ainda segundo Roberto, a tutora garantiu ter a documentação necessária do animal, apesar de não ter apresentado os papéis. Vitória Gabriela também disse que ganhou a macaca do ex-marido e chegou a ligar para alguém que seria o antigo companheiro.

No entanto, a mãe dela contou ao Metrópoles que o marido de Vitória Gabriela havia comprado o animal, pois a esposa não podia ter filhos. O casal teria ficado junto por dois anos, segundo ela.

A enfermeira também disse à reportagem bicho teria sido comprado por R$ 30 mil, em um criadouro de Santa Catarina, em fevereiro. Cerca de um mês depois, o marido de Vitória Gabriela morreu. O homem que atendeu à ligação dos fiscais do Ibama, porém, teria informado que todos os registros da primata estavam em situação regular e que ele até tinha mais três macacos, mas não quis se identificar nem passar outras informações.

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Vitória Gabriela ainda precisou comunicar um endereço próprio, mas prestou informações de um imóvel da mãe que está alugado para outras pessoas, segundo o Ibama. Ela acabou multada pelo instituto por posse irregular do animal e foi notificada para apresentar a devida documentação do bicho. Neste momento, o instituto verificou que os documentos eram falsos.

Mudança de versão

Ainda na sede do Ibama, Vitória Gabriela teria mudado a versão e dito que havia ganhado a macaca do marido, mas que ele havia morrido em março. “Se me falam que a pessoa morreu, não consigo verificar a veracidade da informação. Só que é muito estranho, porque falei com alguém pelo telefone no momento da abordagem, e ela dizia ser o ex-marido dela”, completou o servidor do instituto ambiental.

O valor da compra também é motivo de estranhamento para o analista ambiental. “Esses animais valeriam cerca de R$ 80 mil, e elas compraram por R$ 30 mil. Na hora que você tem um macaco-prego comprado por esse valor, é óbvio que tem alguma coisa errada. Muitas informações precisam ser explicadas”, resumiu. Roberto Cabral.

Para o analista, o Judiciário não ouviu as argumentações do Ibama nem deu a possibilidade de o instituto mostrar que a documentação era, de fato, falsa. “O fato de o macaco não ser ameaçado de extinção não interfere. A legislação brasileira o protege, e o que o Ibama está tentando fazer é combater o tráfico, para evitar que esse animal acabe ameaçado”, ponderou. “É como se estivéssemos falando às pessoas que a lei ambiental não precisa ser cumprida”, concluiu.

Inserida no habitat

O analista ambiental também rebateu a declaração do desembargador responsável pela decisão, sobre o Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Distrito Federal – para onde a macaca foi levada – supostamente enfrentar graves deficiências estruturais e de pessoal, que teriam comprometido a capacidade operacional do local.

“O Cetas passou por reforma há pouco tempo. Na questão estrutural, ele está totalmente adequado. Em relação ao pessoal, contamos com biólogos e veterinários que trabalham nesse centro de triagem, além de cooperações técnicas com o hospital veterinário da Universidade de Brasília”, afirmou.

O valor da compra também é motivo de estranhamento para o analista ambiental. “Esses animais valeriam cerca de R$ 80 mil, e elas compraram por R$ 30 mil. Na hora que você tem um macaco-prego comprado por esse valor, é óbvio que tem alguma coisa errada. Muitas informações precisam ser explicadas”, resumiu Roberto Cabral.

Apesar de não descumprir decisões judiciais, o instituto vai recorrer da determinação do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), segundo o servidor da autarquia, por entender que a devolução representaria uma medida equivocada, tanto em relação à segurança do animal e das pessoas envolvidas no caso quanto em respeito à legislação ambiental.

Para o analista, o Judiciário não ouviu as argumentações do Ibama nem deu a possibilidade de o instituto mostrar que a documentação era, de fato, falsa. “O fato de o macaco não ser ameaçado de extinção não interfere. A legislação brasileira o protege, e o que o Ibama está tentando fazer é combater o tráfico, para evitar que esse animal acabe ameaçado”, ponderou. “É como se estivéssemos falando às pessoas que a lei ambiental não precisa ser cumprida.”

Há quase um mês no Cetas-DF, Anne estaria bem inserida a outro grupo de macacos-prego, segundo Roberto. “Conseguimos colocá-la em um grupo que a aceitou e interage com ela. Voltar [Anne] para essa pessoa [a antiga tutora], na verdade, também é eliminar a relação que ela tem com indivíduos da própria espécie”, ressaltou.

Confira imagens de Anne no Cetas-DF: