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Um homem violento que espancava os filhos e a mulher constantemente. Há cerca de um ano, Maria Júlia de Alvim (foto em destaque), 44 anos, conseguiu se separar de Orlando Sousa Alves, 61. Na terça-feira (9/10), ele voltou a se aproximar da ex-companheira. O flanelinha pediu “um canto para dormir” e, comovida, a mulher permitiu que ele ficasse alojado na varanda. Sorrateiramente, entrou na casa nessa quarta (10) e esfaqueou Júlia, enquanto ela estava deitada na cama se recuperando de uma crise de gastrite.

O crime bárbaro foi na frente de três dos oito filhos do casal. Entre eles, um menino de 8 anos, uma menina portadora de necessidades especiais e uma adolescente. Assim que viu o pai agredir a mãe, o garoto saiu aos gritos pela rua e pediu socorro a um tio. Não houve tempo de salvar Maria Júlia.

De acordo com Iolanda de Alvim Alves, uma das filhas do casal, o irmãozinho que presenciou toda a cena chora muito. Chama pela mãe. Além da dor, o sentimento da família é de revolta, diz. “Minha mãe sofreu tanto. Agora que ia começar a viver, ele vem e tira a vida dela. A gente quer que ele pague”, desabafa a jovem, que também mora no Itapoã. Conforme relato de Iolanda, Orlando agredia Maria Júlio e os filhos. “Sempre foi violento”, afirmou.

 

Orlando, segundo a filha, já havia matado uma outra mulher, em 2010. A vítima – uma idosa – levou foi morta a paulada após brigar com o pai. Nessa quinta (10), o homem foi preso momentos depois do feminicídio. Antes, foi espancado por vizinhos da QL 6 do Itapoã.

O suspeito de ter matado a ex-mulher ficou ferido após as agressões dos populares e está internado no Instituto Hospital de Base (IHB). O caso é investigado pela 6ª Delegacia de Polícia (Paranoá). “Pelo que disseram, ele teve traumatismo craniano”, ressaltou Iolanda. Aos militares, uma testemunha informou que Orlando agiu por ciúmes. O corpo de Maria Júlia será enterrado no sábado (13), às 15h30, no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul.

Em 2018, até agora, 23 feminicídios foram registrados no Distrito Federal. O número é quase o dobro de todas as ocorrências de 2017: 12. Em pelo menos três ocasiões, os filhos viram a mãe ser executada a sangue frio.

Mesmo os profissionais acostumados a lidar com familiares de vítimas de violência admitem ser extremamente delicado tratar órfãos de feminicídio. “Você vai estar diante de crianças que enxergavam ao mesmo tempo a mãe cuidadora e amorosa e a mãe esfaqueada e morta”, conta a professora Gláucia Diniz, PHD em psicologia da Universidade de Brasília (UnB).

Ainda de acordo com a especialista, que há 10 anos coordena um projeto interdisciplinar voltado para o acolhimento de vítimas de violência doméstica, “é fundamental acolhê-las para que essas imagens chocantes não as levem a um estado de ansiedade e as façam evoluir para sintomas de ansiedade crônica, depressão ou esquizofrenia”.

Ao Metrópoles, familiares de vítimas de feminicídio contaram que até conseguem ser inseridos em programas de acompanhamento psicológico gratuitos, mas muitos desistem pela distância dos locais de atendimento.

Subsecretária de Apoio às Vítimas de Violência da Secretaria de Justiça, Andressa Augusto Queiroz diz que, atualmente, há núcleos do Pró-Vítima em Ceilândia, Paranoá, Lúcio Costa (Guará), Asa Sul, Taguatinga e Plano Piloto. “A ideia é expandir para Planaltina, Santa Maria, Sol Nascente e Estrutural. Também temos um carro disponível que só falta adesivar. Ele será o núcleo móvel”, informa.

Apesar da quantidade expressiva de feminicídios em 2018, até o início de setembro apenas quatro órfãos de mulheres vítimas desse crime passavam por acompanhamento psicológico na rede pública de saúde. “É preciso que essas pessoas saibam que nossa rede está à disposição”, reforça Andressa Augusto.

Em nota, a Secretaria de Saúde diz manter o Programa de Pesquisa, Assistência e Vigilância à Violência (PAV), que acolhe familiares e vítimas de violência. “O PAV tem como principais atribuições o atendimento a pessoas em situação de violência, numa abordagem biopsicossocial e interdisciplinar, a articulação com a rede de atendimento, os encaminhamentos institucionais e intersetoriais, a promoção da cultura de paz e a vigilância dos casos.”

A pasta também informou que tal público tem acesso ao Centro de Orientação Médico Psicopedagógica (COMMP), que presta atendimento interdisciplinar em saúde mental a crianças e adolescentes do DF e Entorno. “Atende desde os casos mais leves de sofrimento psíquico até os transtornos mentais mais graves. Possui, ainda, acolhimento humanizado, diário, com classificação de risco, realizado por profissionais capacitados para melhorar o processo de trabalho na unidade e avaliar a gravidade e a urgência de cada caso”, ressalta o texto.

Botão do pânico” é para poucos
Uma das medidas anunciadas pelo GDF para frear os feminicídios no DF foi o programa Viva Flor, um dispositivo entregue a mulheres ameaçadas de violência doméstica que, ao ser acionado, emite alerta à central da Polícia Militar, que, imediatamente, envia uma equipe ao local. Apesar do avanço tecnológico, até a primeira semana de setembro apenas sete mulheres receberam o aparelho desde o lançamento da medida, há quase 10 meses.

Com base em informação da Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social, a Vara de Violência Doméstica do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) é a responsável por indicar quem serão as vítimas de violência atendidas pelo programa. 

No campo nacional
Embora os números ainda preocupem, houve avanço com a instituição da Lei Maria da Penha, sancionada em 2006. Antes de a legislação entrar em vigor, o crescimento da taxa de assassinato de mulheres era, em média, de 2,5% ao ano. Depois da norma, caiu para 1,7% ao ano.

Levantamento publicado no Mapa da Violência 2015 – Homicídio de Mulheres no Brasil – lançado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) – revela que o Brasil está em quinto lugar no ranking de países que mais matam mulheres, atrás apenas de El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia.