Guerra entre gangues deixa rastro de mortes em várias regiões do DF

Em um intervalo de 18 dias, duas crianças ficaram na linha de tiro dos grupos e foram assassinadas em ataques em Ceilândia e Planaltina

atualizado 24/06/2018 12:20

Igo Estrela/Metrópoles

A guerra sangrenta entre gangues que se enfrentam em várias regiões do Distrito Federal havia arrefecido há cerca de um ano. No entanto, os embates reacenderam a violência entre as facções e deixaram um rastro de vítimas inocentes pelo caminho. Em um intervalo de 18 dias, entre maio e junho, duas crianças ficaram na linha de tiro dos grupos e foram assassinadas em ataques ocorridos em Ceilândia e Planaltina

Após a morte da menina Maria Eduarda de Amorim, 5 anos, em 21 de maio último, e do garoto Gabriel dos Santos Teixeira, 11 anos, em 7 de junho, setores de inteligência da Polícia Civil aprofundam as investigações sobre os principais integrantes das gangues, o modus operandi e os motivos que acirraram as guerras entre os grupos rivais.

O Metrópoles percorreu os principais pontos onde as gangues se enfrentam e também se reúnem para organizar as vinganças. Moradores das regiões mais afetadas pelas disputas – Ceilândia e Planaltina – e parentes das vítimas também foram ouvidos. Pela primeira vez, a mãe de Gabriel, morto de forma bárbara, conversou com uma equipe de reportagem: ela contou detalhes do crime que tirou a vida do filho.

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Motivo fútil
A morte do garoto reflete a triste realidade de uma rixa que começou há duas décadas em Planaltina. A rivalidade entre as gangues das regiões conhecidas como Jardim Roriz e Pombal é histórica. Apenas nos últimos dois anos, 23 pessoas perderam a vida em razão da guerra entre jovens que moram nas duas regiões. De acordo com as investigações da polícia, os ataques tornaram-se mais intensos após uma discussão fútil por meio do WhatsApp.

O assassinato de Gabriel ocorreu durante o chamado “efeito rebote”, quando uma gangue sofre um ataque e logo em seguida coloca o revide em prática. Duas horas antes de o menino ser atingido no peito por um disparo próximo de sua casa, no Pombal, a gangue que domina a região abriu fogo no Jardim Roriz contra integrantes da facção local, conhecida como Agreste ou pelas iniciais AGR.

A reportagem teve acesso aos áudios (ouça abaixo) onde membros dos bandos trocam ameaças por meio de um grupo de WhatsApp criado para divulgar festas em Planaltina. Nas gravações, aparentemente feitas por adolescentes, jovens garantem que uma morte irá ocorrer em breve enquanto outra pessoa acusa os rivais de terem matado “gente inocente”.


Adolescente é autor
Investigadores da 31ª Delegacia de Polícia (Planaltina) ainda trabalham para elucidar o assassinato de Gabriel, ouvindo testemunhas da morte e coletando indícios que levem aos outros envolvidos no crime. De acordo com o apurado até agora, os autores passaram de moto pela rua onde o menino passava. O alvo seria um adolescente que estava próximo do garoto, mas ele não foi atingido.

Informações repassadas por testemunhas levam a crer que quem efetuou o disparo fatal contra Gabriel seria um adolescente, integrante da gangue do Jardim Roriz. Ele estava sentado na garupa da moto de onde partiu o tiro. Houve correria entre o grupo, mas só Gabriel foi atingido.

Em seguida, os autores fugiram em disparada. Condutor e carona da motocicleta usavam capacete no momento do crime, o que dificultou a identificação dos assassinos. “Pelo corpo e roupas que ele usava, a chance é de ser um adolescente entre 15 e 17 anos, grande”, contou uma testemunha do crime ouvida pelo Metrópoles.

Morte e dor
A vida da dona de casa Eliene dos Santos, 34 anos, foi esfacelada após o ataque que tirou a vida do filho caçula. Gabriel (foto abaixo e em destaque) tinha apenas 11 anos e espalhava alegria por onde passava. Amante de futebol, o menino participava das aulinhas no campo de grama sintética da região às terças e quintas-feiras. A mãe, zelosa, sempre o buscava, com a exceção do dia da tragédia, ocorrida no último dia 7.

Eliene contou que estava no portão de casa quando a moto onde estavam os assassinos passou pela rua. “Eu vi quando abriram fogo e atingiram meu filho. Ele ainda teve forças para correr para dentro de casa, jogar as chuteiras no chão e abraçar um amiguinho. Ele caiu no chão em seguida e não levantou mais”, detalhou a mulher.

REPRODUÇÃO/ARQUIVO PESSOAL

 

O menino ainda estava vestido com o uniforme do futebol quando foi levado ao hospital. A mãe, que nasceu e foi criada no bairro do Pombal, confirmou que a guerra entre as gangues sempre existiu e está longe de acabar. “Esses grupos se renovam, mesmo quando os líderes morrem ou são presos. É preciso uma ação enérgica da polícia para que essas mortes parem. Infelizmente, nunca mais poderei abraçar meu filho”, lamentou, pesarosa.

Maria Eduarda, outra inocente
A menina Maria Eduarda Rodrigues, que ia completar 6 anos em agosto, morava com a família nos fundos da casa da avó, na QNO 18, Conjunto 36, em Ceilândia. O irmão mais velho dela – Marcos Rodrigues de Amorim, 19 anos – entrava no quintal quando dois homens chegaram em um Voyage preto e fizeram vários disparos. Atingido no joelho por um dos projéteis, o rapaz está internado no Hospital Regional de Ceilândia (HRC), mas não corre risco de morte.

Maria Eduarda (foto abaixo) levou três tiros – na cabeça, no tórax e na nádega. Ao ser atingida, caiu no corredor da casa. Foi levada por parentes ao HRC, mas chegou à unidade de saúde sem os sinais vitais.

Rafaela Felicciano/Metrópoles

 

Cerca de uma semana após o crime, em 29 de maio, três menores foram apreendidos, sob a suspeita de terem participado do ataque que tirou a vida de Maria Eduarda Rodrigues e causou a ida do irmão mais velho da menina para o hospital.

Segundo a Polícia Civil do Distrito Federal, o trio estava no carro usado no crime. O alvo dos acusados seria outro irmão de Maria Eduarda e Marcos, um adolescente de 15 anos. No entanto, os investigadores seguem apurando se há em Ceilândia, a exemplo do que ocorre em Planaltina, uma disputa de território por grupos rivais. Agentes de Brazlândia, Sobradinho e São Sebastião também tentam ligar homicídios recentes a uma suposta guerra entre gangues.

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