Enquanto alguns órgãos do Governo do Distrito Federal (GDF) preparam a mudança para o Centro Administrativo (Centrad), a Secretaria de Cultura (Secult) procura se manter no Plano Piloto. A pasta iniciou reformas na Biblioteca Nacional de Brasília para abrigar o gabinete do secretário, Adão Cândido, e a equipe dele.

Usuários e funcionários da biblioteca confirmaram à reportagem que até mesmo um banheiro particular está sendo construído no prédio, que é um patrimônio tombado. A obra acontece em meio à crise financeira e à falta de investimentos em outras prioridades, como o Teatro Nacional, fechado há cinco anos. No fim de março, artistas da cidade também reclamaram sobre o atraso na liberação do Fundo de Apoio à Cultura (FAC).

Procurada, a Secult confirmou a transferência e justificou que a medida atende justamente a determinação do GDF para corte de despesas. Em nota, afirmou ter realizado estudos para avaliar os gastos básicos da pasta. “Foi identificado que a realização pulverizada das atividades representa grande fatia do orçamento disponível. Por isso, a gestão optou pela transferência para a área administrativa da Biblioteca Nacional de Brasília, que hoje está subutilizada”, disse.

Ainda de acordo com o órgão, a iniciativa reduzirá o custeio de manutenção do anexo do Teatro Nacional Cláudio Santoro, que entrará em reforma. Segundo a Secult, a empresa que assumir o empreendimento poderá utilizar o local. “Como as atividades da Secretaria de Cultura são realizadas em imóveis próprios, que não pagam aluguel, a mudança para o Centrad não é uma prioridade para o governo”, completou.

Questionado, o governador Ibaneis Rocha (MDB) afirmou desconhecer a mudança da Secult, nem os detalhes das adaptações realizadas pela pasta no monumento. “O plano não foi apresentado a mim”, disse o chefe do Executivo.

Obras
Frequentadores da biblioteca perceberam nas últimas semanas que o local vem passando por uma série de intervenções: como a troca de forro, adequação do plano de incêndio e reparo de vazamentos e infiltrações. O terceiro andar foi interditado, concentrando o uso apenas no segundo pavimento.

“O nosso medo é que as obras de manutenção do prédio sejam prejudicadas por conta dessas adaptações que o secretário está fazendo. Temos vários espaços de estudo que foram fechados por falta de manutenção, más condições e falta de recursos. A prioridade aqui tem que ser a população e a preservação do monumento histórico”, disse uma estudante, que pediu para não ser identificada.

À reportagem, um funcionário afirmou que não há previsão para a liberação dos espaços. Na última quinta-feira (4/4), a equipe do Metrópoles esteve na biblioteca e verificou que as salas de estudo estão interditadas, mas não viu trabalhos de manutenção sendo executados.

A secretaria explicou que grande parte das obras se deve pela falta de manutenção nos últimos anos, que culminou com graves problemas que podem afetar a segurança do edifício. No entanto, não informou o valor das intervenções feitas na biblioteca para receber o secretário.

Suspensão
falta de Habite-se do Centrad foi um dos argumentos utilizados pelo procurador do Ministério Público de Contas (MPC) Demóstenes Tres de Albuquerque para pedir ao Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) a suspensão da mudança de servidores do Executivo local para o complexo. Segundo ele, o documento é imprescindível, “uma vez que é relacionado diretamente à segurança dos usuários”.

O procurador demonstrou preocupação, também, com a falta de cálculos para comprovar a suposta economia proporcionada pela ocupação do Centrad. A transferência, lembra ele, passa por contratos logísticos, pontos de energia, água, internet, ar-condicionado, além de mobiliário e divisórias. Segundo Demóstenes, o GDF não sabe quanto vai custar efetivamente a troca de sede.

Na última terça-feira (9), o TCDF rejeitou a recomendação do MPC-DF. A votação foi apertada, com desempate feito pela presidente da Corte, Anilcéia Machado. Apesar de negar pedido do Ministério Público de Contas, a Corte determinou ao GDF que explique, no prazo de três dias, como será feita a ocupação do complexo, em Taguatinga.