Grampo e pressão: dossiê revela assédio contra servidores na CLDF
Dossiê denuncia assédio moral sofridos por servidores lotados na Diretoria de Modernização e Inovação Digital (DMI) da CLDF
atualizado
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Polêmicas envolvendo a Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) se intensificaram no início desta semana. Após a Presidência da Casa abrir investigação para apurar suspeita de espionagem e grampeamento de computadores, recentes denúncias envolvendo assédio moral apontam novas violações dos princípios administrativos ocorrendo no interior do Poder Executivo local.
Em um dossiê entregue ao alto escalão da CLDF, servidores descrevem com detalhes uma série de acusações de assédio que vão desde “pressão excessiva” à tentativa de restringir ou desestimular a comunicação de possíveis irregularidades em procedimentos licitatórios dentro da Diretoria de Modernização e Inovação Digital (DMI).
Segundo servidores, a situação teve início após a última troca na direção da DMI, ocorrida em março de 2025. Na data, o policial penal Walério Oliveira Campôres, indicado por um deputado distrital, passou a comandar a área de tecnologia. Foi nesse momento que os assédios teriam se intensificado, conforme trabalhadores ouvidos pela reportagem.
Entre as denúncias que constam no documento apresentado na Presidência da Casa está um memorando interno proibindo os servidores de se manifestarem sobre questões relacionadas a irregularidades em licitações.
A ordem foi expedida logo após trabalhadores identificarem falhas em informações prestadas durante um processo licitatório e terem comunicado as incoerências encontradas.
Posteriormente, o caso foi levado à Procuradoria-Geral da CLDF, que emitiu parecer reconhecendo expressamente o dever funcional do servidor de comunicar irregularidades observadas em contratações públicas.
Entre as denúncias também está a proibição de manutenção da temperatura do ar-condicionado. Servidores lotados na diretoria disseram que o grau térmico mantido no local era de 16ºC – 7ºC a menos que o indicado pela ABNT NBR para ambientes de escritório.
Inclusive, a determinação teria sido formalizada por meio de um memorando, que também desautorizava o contato de servidores com a equipe de manutenção predial para relatar desconforto térmico .
Diante das situações, em pouco mais de 1 ano, nove servidores – inclusive aqueles que atuavam na área desde os anos 90, teriam pedido realocação para outros setores da Casa legislativa.
Deep Inspection
A denúncia levada à Presidência da Câmara Legislativa também conta sobre a possível espionagem em computadores do órgão. O documento cita que houve monitoramento “do conteúdo trafegado pelos usuários da rede corporativa”, conforme apurou o Metrópoles.
O relato teria sido feito por servidores da CLDF, de forma anônima. A partir do fim do mês de março, segundo a denúncia, foi ativada uma funcionalidade suspeita conhecida como Deep Inspection. O mecanismo pode ampliar a capacidade de segurança interna, mas também possibilita a inspeção e o monitoramento dos sites acessados na rede da Câmara Legislativa.
Segundo a denúncia levada ao presidente da CLDF, o deputado distrital Wellington Luiz (MDB), “a funcionalidade teria sido implementada sem comunicação formal, sem deliberação do Comitê Gestor de Dados e sem ciência ou manifestação do encarregado de dados da CLDF”.
A execução do serviço tecnológico teria ocorrido sem a devida cobertura contratual, em “antecipação” ao processo licitatório que ainda estava em fase de instrução e tramitação, de acordo com o relato.
Outra inovação no sistema da Câmara Legislativa que teria chamado a atenção dos profissionais foi uma solução tecnológica que envolve “coleta contínua de telemetria, eventos de segurança, registros de autenticação, informações de ativos computacionais, tráfego de rede, logo de sistemas e outros dados operacionais potencialmente sensíveis, os quais podem ser processados, armazenados ou transmitidos para infraestrutura em nuvem vinculada ao fabricante ou a terceiros relacionados à prestação do serviço”.
Desconfiança
A desconfiança sobre a possível espionagem surgiu após servidores notarem instabilidade frequente na rede, alterações na área de trabalho dos computadores e o surgimento de aplicativos nos dispositivos que não haviam sido baixados pelos responsáveis pelas máquinas.
Por meio de memorando, o diretor Walério e o chefe do Setor de Infraestrutura de Tecnologia da Informação (Seinf) Pedro Cunha Rêgo Célestin tentaram tranquilizar os funcionários da Câmara Legislativa com relação ao aparecimento do programa “Stunnel” nas áreas de trabalho.
“Recentemente, verificamos que surgiram algumas preocupações com o ícone do software “stunnel” na área de trabalho dos computadores corporativos. A DMI informa que o referido software foi implantado por esta diretoria e possui papel importante para proteger a privacidade de todos e os dados da CLDF”, disse.
“É fundamental esclarecer, de forma categórica, que nem o Stunnel, nem a solução Elastic Cloud Enterprise ou qualquer outra ferramenta implementada pela DMI monitora os seus dados pessoais”, pontuaram.
No fim da mensagem, Walério e Pedro disseram que servidores “não precisavam clicar ou interagir com o ícone do Stunnel”: “Ele trabalha sozinho, garantindo a sua proteção enquanto você foca no seu trabalho”.
Licitação
O software em questão foi adquirido pela diretoria de inovação digital em processo licitatório, no valor de R$ 4,4 milhões, finalizado no início deste ano.
Segundo a denúncia apresentada na CLDF, para contratar a empresa responsável pelos programas a DMI foi alertada do “risco de descontinuidade da proteção institucional”, “inexistência de tempo hábil para o novo certame”, “risco de desperdício de recursos públicos” e “ausência de tempo” para estudo dos documentos apresentados ao longo do processo da licitação.
Mesmo assim, a DMI contratou a empresa sob justificativa de “mitigação de riscos decorrentes do encerramento do contrato anteriormente vigente”.
O contrato anterior, encerrado no fim de 2025, não foi renovado pela própria diretoria. Conforme consta no dossiê, no segundo semestre daquele ano, a área administrativa e a Comissão de Execução recomendaram formalmente a renovação do contrato com a empresa que garantia a segurança da rede da CLDF, no valor de R$ 265 mil.
A DMI, no entanto, encerrou todas as tratativas e efetuou novo contrato com valor 1555,61% mais caro.
Investigação
Nessa segunda-feira (11/5), o presidente da CLDF determinou a instauração de processo administrativo disciplinar para averiguar a ocorrência de possíveis ilícitos.
Wellington Luiz também assinou, a pedido do quarto-secretário da CLDF, Robério Negreiros (Podemos), o afastamento, por 60 dias, de Walério Oliveira Campôres.
O chefe do Setor de Infraestrutura de Tecnologia da Informação, Pedro Cunha Celestin, foi exonerado do cargo.
“A gente tem poucas informações. Sendo eu presidente e policial, entendo que a gente tem que apurar para saber se de fato existe veracidade na denúncia. Vamos apurar com rigor, isenção e transparência”, disse o presidente da CLDF.
Na terça-feira (12/5), durante a sessão Plenária da Casa, Wellington Luiz disse que iria oficiar a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) e o Ministério Público do DF (MPDFT) pedindo aos órgãos que investiguem a denúncia de possível espionagem na Casa legislativa.
Entrega de cargos
Após o afastamento do diretor da DMI e do chefe do Seinf, dezenas de servidores, entre gestores, técnicos, analistas e consultores, entregaram os cargos comissionados na Câmara Legislativa.
Em documento encaminhado à Diretoria de Gestão de Pessoas na noite de quinta-feira (14/5), os servidores apontaram pressão excessiva, instabilidade institucional, deterioração do clima organizacional e desconfiança institucional.
O Metrópoles apurou que após a saída de Wálerio e Pedro, um deputado distrital teria se reunido com servidores da diretoria para tentar realocar Wálerio na direção da DMI. Funcionários teriam se sentido ecoados e assediados, motivando o pedido de desligamento de alguns.
O outro lado
Por meio de nota, a CLDF informou que “estão em apuração, por meio de processo administrativo disciplinar (PAD), denúncias relacionadas ao setor de informática da Casa”. “O procedimento é conduzido com base nos compromissos da CLDF com a transparência, a legalidade e o rigor na apuração de eventuais irregularidades, assegurados os princípios do contraditório e da ampla defesa”, disse o Poder Executivo local.
“Por se tratar de procedimento administrativo em andamento, a CLDF não comentará o caso até a conclusão dos trabalhos da Comissão de Processo Disciplinar e Tomada de Contas Especial”, finalizou.
O Metrópoles não encontrou a defesa dos servidores citados. O espaço segue aberto para futuras manifestações.
