Funerárias denunciam: hospitais não separam corpos de mortos da Covid

Segundo associação, falta de separação aumenta risco de transmissão da doença e ainda impede a despedida em velórios no Distrito Federal

atualizado 14/03/2021 12:16

Agente funerário Jacqueline Lisboa/Especial Metrópoles

Em plena escalada da pandemia do novo coronavírus em Brasília, hospitais públicos estariam misturando corpos de pacientes mortos pela Covid-19 com pessoas vítimas de outras doenças e acidentes. A denúncia é da Associação das Funerárias do Distrito Federal (Asfun-DF). A Secretaria de Saúde do DF nega a falta de cuidado sanitário.

Existem três grupos de cadáveres para recolhimento nos hospitais. O primeiro é o das vítimas do novo coronavírus. O segundo é designado de Covid Tratado, composto por pessoas que foram curadas da infecção pandêmica, mas faleceram devido a sequelas ou complicações da doença. O terceiro abrange as demais causas de morte.

Segundo a presidente da Asfun-DF, Tânia Batista da Silva, 49 anos, teoricamente, os três grupos deveriam ser separados nos necrotérios e nos frigoríficos das unidades de saúde, mas este procedimento estaria sendo negligenciado. “Isso vem ocorrendo desde o começo da pandemia. Mas, com o aumento dos número de casos, piorou muito”, alertou.

Vetor de transmissão

O corpo das vítimas de Covid-19 é um vetor de transmissão do vírus. Após o óbito, a pessoa começa naturalmente a soltar gases. De acordo com os agentes funerários, no caso do coronavírus, esta liberação é ainda mais intensa, o que aumenta o risco de contaminação de pessoas vivas e de outros corpos próximos.

Segundo a Asfun-DF, a mistura de cadáveres ocorre de maneira generalizada na rede pública, mas é ainda mais grave no Hospital Regional de Ceilândia, no Hospital Regional do Gama, no Hospital Regional do Guará e no Hospital de Campanha do Polícia Militar.

“Está cada vez pior. Os corpos estão misturados, mal identificados”, explicou. Os agentes funerários usam equipamentos de proteção individual (EPIs) para o serviço, mas, mesmo assim, ficam expostos. “E os corpos não Covid são contaminados, fazendo com que as famílias depois não possam fazer o velório dos parentes”, pontuou.

Tânia foi contaminada pelo vírus pandêmico. A experiência foi dolorosa. “Foi a pior coisa. Passei 15 dias muito difíceis. É algo que destrói o organismo. Eu tenho neoplasia por conta da Covid-19”, relatou. Na funerária da empresária, a doença atingiu sete colaboradores.

A dor de Tânia é ainda mais profunda. “Perdi meu pai e minha mãe para essa doença”, lamentou a presidente da Asunf-DF.

Veja o ofício encaminhado para o GDF:

Vacina

Atualmente, a Asunf-DF representa 45 funerárias. Cada empresa emprega entre 15 e 30 funcionários. Além de pedir oficialmente ao Palácio do Buriti e à Secretaria de Saúde do DF a separação dos corpos, a associação solicitou que a categoria seja incluída nos grupos prioritários de vacinação contra a Covid-19.

O agente funerário Bruno Rodriguez, de 40 anos, trabalha com medo. “Em um fim de semana, nós retiramos oito corpos com Covid-19. E estavam sendo misturados com outros. A gente é obrigado a entrar no necrotério, e não fomos vacinados. Em Goiás, estão vacinando os agentes funerários”, desabafou.

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“Vi a morte”

Rodriguez foi infectado pela Covid-19 em 2020. Ficou 10 dias na unidade de tratamento intensivo (UTI) e precisou de equipamentos para respirar. Durante uma semana, pensou que iria morrer. “Te juro, eu vi a morte”, resumiu. Agora teme ser infectado novamente, principalmente pelas novas variantes mais agressivas da doença.

“Moro com minha avó de 85 anos. Tenho medo de pegar novamente. Pelo que escuto nos hospitais, essas novas variantes destroem muito mais rápido o organismo”, contou.

Segundo Rodriguez, os cuidados com os corpos de Covid-19 precisam ser redobrados. Além dos EPIs, os agentes envelopam os corpos três vezes com plástico, justamente para reforçar os protocolos na contenção do vírus. Ou seja, mesmo com caixão fechado, mesmo sem velório, ainda é necessário uma atenção extra.

Com a pandemia do novo coronavírus, o número de enterros aumentou em Brasília. Conforme o repórter Caio Barbieri noticiou no dia 6 de março, na coluna Janela Indiscreta, o número de sepultamentos em cemitérios do DF cresceu 22% em fevereiro deste ano.

Saúde refuta denúncia

Segundo nota da Secretária de Saúde enviada ao Metrópoles, a denúncia da associação não procede. Quanto à questão de vacinação, a pasta argumenta que a eventual ampliação do grupo prioritário é tratada com cautela, pois há dificuldade de obtenção de novas doses neste momento delicado da pandemia.

Lei a nota completa:

A informação não procede. A Secretaria de Saúde esclarece que os protocolos são rigorosamente seguidos pelos profissionais nas unidades de saúde. Corpos de vítimas de morte por Covid e não Covid têm destinações distintas, para evitar qualquer risco de contaminação. Dúvidas ou questionamentos porventura encaminhados à SES, por meio de ofício ou qualquer outro instrumento, serão devidamente esclarecidos.

Com relação à vacinação dos agentes funerários, a secretaria vem adotando cautela na ampliação do grupo prioritário, justamente por entender a dificuldade na obtenção de doses de vacina neste momento, e também a prioridade estratégica em se garantir a segunda dose da imunização contra a doença, o que já começou a ser feito no DF.

Os grupos de vacinação serão ampliados conforme o recebimento de novas doses por parte do Ministério da Saúde.

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