Fraude em programa habitacional do DF sustentava "negócio de família"
Investigações após Operação Clã apontam que parentes de Rafael Oliveira, ex-secretário adjunto de Habitação e ex-presidente da Codhab, conseguiram vantagens no programa Minha Casa, Minha Vida. Polícia ainda apura se houve conivência do ex-secretário Geraldo Magela

Com o objetivo de esclarecer o funcionamento de uma organização criminosa suspeita de interferir e cobrar taxas para a concessão de lotes do Programa Habitacional Riacho Fundo II – 4ª Etapa, a Polícia Civil deflagrou, no início do mês, a Operação Clã. O clã em questão é a família do ex-presidente da Codhab Rafael Carlos de Oliveira. Documentos exclusivos obtidos pelo Metrópoles mostram que o pai, Carlos Roberto e a irmã dele, Daniela Kely, teriam encabeçado o esquema milionário de grilagem de terras, por meio da Associação Pró-Morar do Movimento Vida de Samambaia (AMMVS). O grupo teria agido por mais de cinco anos. O lucro obtido ainda é contabilizado. Além da venda irregular de lotes, eles atuariam na captação de votos para políticos.

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Ver todasCada integrante do esquema desempenhava um papel definido. O modo de operar da família, segundo os delegados que apuram o caso, é semelhante ao de uma organização criminosa. Em 2006, a AMMVS conseguiu um terreno de 1.334.600m², repassado pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU) para construir 5 mil habitações. Embora os documentos oficiais apresentem Antônio Francisco Barbosa como presidente da entidade, o pai de Rafael era um dos diretores mais atuantes, aponta o inquérito.
Carlos Roberto era também o dono da Luppha Construções, empresa responsável por erguer as casas no setor habitacional. Ao lado dele, atuava a filha, Daniela Kely de Oliveira. Segundo a denúncia analisada pela polícia, ela era uma espécie de corretora, intermediava as vendas de lotes que deveriam ser financiados pela Caixa Econômica Federal. As terras eram repassadas mediante o pagamento de R$ 30 mil.
Os interessados arcavam R$ 120 mil em espécie. Esse dinheiro era usado para construir as moradias. O esquema foi tão lucrativo que a Luppha precisou aumentar a equipe de funcionários. O número de contratados saltou de dois para 60, um quadro de pessoal 30 vezes maior. Mesmo assim, teve de pedir ajuda para outras duas empresas para dar conta do serviço: a Direcional Engenharia e a CN Construtora. O contrato de cooperação foi publicado pelo próprio site da associação, em 2012.
As casas construídas estariam na QN 19 e QN 20. Os carros nas portas das residências denunciam o poder aquisitivo dos moradores. Vão de Civic a Land Rover. Realidade difícil de imaginar para uma família que, para se encaixar no programa, precisa ter rendimento de até R$ 3.275.

Denúncias
Em 2009, um dos denunciantes do esquema registrou o caso no Tribunal de Contas do DF, no Ministério Público, na Polícia Civil, na Secretaria de Transparência e Controladoria Geral da União. A denúncia que deu origem à Operação Clã foi feita em 5 de dezembro de 2013. Em março do ano seguinte, houve a abertura do inquérito.
O pagamento de propina permitia que pessoas furassem a fila da Codhab. Os valores, à época, variavam de R$ 8 mil a R$ 12 mil. O Metrópoles também teve acesso a uma investigação que aponta o ex-chefe de gabinete da Administração Regional do Riacho Fundo 2 Francisco Gilvan Pereira da Silva como o intermediador das negociações. Em um dos casos, ele cobrou R$ 12 mil, divididos em R$ 8 mil para a construtora e R$ 4 mil de reembolso. No entanto, o possível “beneficiado” nunca viu o lote.
Três meses
Ao contrário do denunciante que não viu os R$ 12 mil se converterem em uma vaga no programa habitacional, a irmã do ex-secretário e ex-presidente da Codhab, Daniela Kely de Oliveira, foi beneficiada com um lote no Riacho Fundo 2. Ela declarou uma renda familiar de R$ 1 mil, entrou na fila e, em três meses, conseguiu ser chamada. As polícias Civil e Federal investigam se Daniela recebeu, mora ou vendeu o lote.
Respostas
No dia 3 de junho, Rafael de Oliveira usou o Facebook para desabafar. Disse que a polícia recolheu em sua casa um computador, dois notebooks e dois celulares, de propriedade dele e de sua mulher. Afirmou que prestou esclarecimentos voluntariamente. No entanto, havia um mandado de condução coercitiva (quando a pessoa é obrigada a depor) em nome dele.
“Esclareço que, no ano de 2014, eu já havia prestado depoimento na mesma investigação. O mesmo tema foi motivo de investigação em 2011 pela Secretaria de Transparência e Controle do Governo do Distrito Federal (STC/GDF) e pelo Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), oportunidades nas quais prestei todos os esclarecimentos”, disse.
O ex-presidente da Codhab afirmou ainda que “o processo de seleção dos beneficiários é realizado pelas entidades, não cabendo ao GDF nenhum tipo de indicação”. Vale lembrar que a investigação aponta o pai e a irmã dele como diretores da AMMVS. Coincidência ou não, em 2014, Rafael doou R$ 20 mil à campanha de Geraldo Magela ao Senado .

Segundo a assessoria de imprensa de Magela, que assina nota publicada nas redes sociais, as suspeitas não estão em conformidade com a realidade. “Todas as ações empreendidas pelo ex-secretário e pela equipe da Sedhab foram no sentido de moralizar o projeto. São absurdas quaisquer conclusões em sentido diferente deste”, disse.
“Não é responsabilidade da Sedhab a contratação de empresas construtoras ou a definição dos associados das cooperativas. De acordo com o convênio, tais responsabilidades são das cooperativas participantes do consórcio”, informa a nota, que destaca ainda que o ex-secretário prestou todas as informações solicitadas aos policiais.
A reportagem checou ainda a situação da empresa Luppha Construções. Na Receita Federal, ela continua ativa. No entanto, o telefone fornecido no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica é de um escritório de contabilidade localizado no Setor de Rádio e TV Sul. A atendente informou que a empresa é cliente do escritório e informou um novo telefone para o contato com a Luppha. O número informado, no entanto, era da AMMVS.
Geraldo Magela foi procurado pelo Metrópoles, mas não atendeu às ligações. Os integrantes da Luppha Construções também não responderam às tentativas de contato. A Direcional tem dois telefones, um em Brasília, outro em Minas. Os dirigentes estavam em reunião quando a reportagem ligou. Rafael Oliveira não foi encontrado para comentar os fatos.

























