Filho de ditador paraguaio enterrado no DF luta na Justiça por herança
O corpo de Alfredo Stroessner, ex-presidente do Paraguai, foi exumado, e, após exame de DNA, a paternidade foi comprovada na Justiça

A disputa pelo espólio de um dos maiores ditadores da América Latina segue em tramitação na Justiça do Distrito Federal. Os bens de Alfredo Stroessner são pleiteados por Enrique Alfredo Fleitas, filho de Michele Fleitas, amante do ditador paraguaio nos anos 1970.
Ao ser deposto da Presidência do Paraguai em 1989, Strossner passou a viver em Brasília como asilado político. Ele morreu em 16 de agosto de 2006 e foi enterrado no cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul.
Após determinação da Justiça, o corpo do ditador foi exumado para teste de DNA, que confirmou a ligação sanguínea de Stroessner com o filho gerado fora do casamento. O processo corre em sigilo.
A exumação do corpo foi essencial para comprovar o vínculo e dar início a uma nova fase: a localização dos bens para composição completa do inventário.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles DFA dimensão do espólio de Stroessner ainda é desconhecida, mas a estimativa é de que a cifra pode passar de bilhões de reais. O patrimônio de Alfredo Stroessner foi dissipado ao redor do mundo, o que tem gerado trabalho árduo para localizar as posses, checar a disponibilidade e acionar a Justiça em cada um dos países em que, potencialmente, os bens estão situados.
Há expectativa de que parte dos bens esteja na Suíça, nos Estados Unidos e no Brasil, além do Paraguai, por óbvio.
Inclusive, em uma decisão recente, houve a determinação de pagamento de um tradutor que prestou serviços no processo para transmitir documentos à Justiça suíça.
Antes, em fevereiro deste ano, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) negou recurso da filha de Stroessner que discutia a competência da Justiça do Brasil para decidir sobre o inventário do paraguaio – ela também apontou eventual falta de legitimidade de Enrique na disputa dos bens.
Na decisão, o juiz confirma que “a legitimidade do agravado está comprovada por documentação de filiação e exame de DNA” e que “a Justiça brasileira é competente para processar inventário de bens situados no Brasil, ainda que o falecido ou os herdeiros residam no exterior”.
A expectativa é que o processo do inventário seja concluído nos próximos dois anos.
Alfredo Stroessner viveu e morreu em Brasília
Alfredo Stroessner é considerado um dos mais longevos ditadores da América Latina. Ele comandou o Paraguai entre 1954 e 1989, após golpe militar, em um período que ficou conhecido como “El Stronato”.
Nessa época, as relações entre Brasil e Paraguai eram firmes e tiveram como um dos principais resultados a construção da usina binacional de Itaipu.
Ao longo de seu governo, milhares de pessoas desapareceram, foram mortas ou perseguidas. As evidências foram localizadas em 1992, quando um ativista dos Direitos Humanos e vítima do Stronato encontrou documentos que foram chamados de “Arquivo do Terror”.
Nesse material, foram detalhados os crimes cometidos durante a gestão de Stroessner – e com o conhecimento do então presidente –, seguindo a Operação Condor, que reuniu ditadores da América Latina em ação secreta contra opositores políticos.
Em 2019, restos mortais e ossos foram encontrados em um imóvel que havia sido abandonado no fim da ditadura, conhecido como “A casa de Stroessner” ou “A casa do horror”, em Ciudad del Este.
No mesmo ano, o então presidente Jair Bolsonaro elogiou Stroessner, chamando-o de “estadista”. Na ocasião, Bolsonaro visitava a usina de Itaipu e celebrou os presidentes militares que atuaram pela construção da hidrelétrica.
Após ser deposto, Stroessener recebeu asilo político no Brasil. Na época, o presidente José Sarney seguiu diplomacia que regia as relações naquele momento e concedeu autorização para que o ditador paraguaio tivesse onde pousar.
Em Brasília, Stroessener viveu por 17 anos no Lago Sul, inicialmente na QI 9 e depois na QL 12. Às margens do Lago Paranoá, o ditador paraguaio manteve vida discreta, longe do debate político, como se exige de exilado. Ele era frequentemente visto em igrejas da região e tomando sol no quintal da mansão em que morava.
Stroessner morreu aos 93 anos, em hospital particular de Brasília, pesando 45 quilos. Ele sofreu complicações após cirurgia e passou quase um mês internado em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) antes de morrer.



