Festa de funcionários da Caixa será no superfaturado Mané Garrincha

Evento reunirá 6 mil gestores. Por desvios em obras do estádio, três ex-governadores e um ex-vice tornaram-se réus na Panatenaico

atualizado 10/05/2018 12:45

Rafaela Felicciano/Metrópoles

A Caixa Econômica Federal, citada em ao menos quatro operações sobre escândalos de corrupção da Polícia Federal, escolheu o Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha, símbolo do superfaturamento nas obras da Copa, para um evento festivo com seis mil funcionários na próxima quarta-feira (16/5). A maioria virá à capital com despesas pagas pelo banco.

A celebração ocorrerá quase um mês após a Justiça tornar réus os ex-governadores José Roberto Arruda (PR) e Agnelo Queiroz (PT), e o ex-vice-governador Tadeu Filippelli (MDB). Alvos da Operação Panatenaico, todos são suspeitos de desviar recursos da construção do palco de futebol.

As informações foram divulgadas pela Folha de São Paulo na madrugada desta quinta (10). O encontro “Seleção Caixa: em campo pelo Brasil”, será repleto de alusões ao maior torneiro de futebol do planeta. A próxima edição começa na Rússia, em 14 de junho.

Segundo a divulgação, celebridades da bola, como o ex-jogador Cafu e o narrador Galvão Bueno, foram convidadas para dar palestras motivacionais aos gerentes. Os mestres de cerimônia serão o ator Luigi Barricelli, astro de novelas globais, e a apresentadora Renata Fan, do Programa Jogo Aberto, da Band.

Sigilo
A Caixa mantém em sigilo os custos do evento na arena, bem como os valores dos cachês pagos aos convidados. Num site de agenciamento de palestras, por exemplo, o passe de Cafu está cotado em R$ 40 mil.

A reportagem apurou que o contrato com Galvão Bueno ainda não havia sido assinado na quarta (9). A condição para que ele participasse era a de que não fossem permitidas filmagens e fotografias. A ideia dos organizadores era que a presença do narrador fosse uma surpresa para os funcionários.

O propósito do investimento na “Seleção Caixa”, segundo o banco, é divulgar suas “novas e desafiadoras metas” para 2018, entre as quais superar o lucro de R$ 8,6 bilhões em 2017.

Para órgãos de controle externo da instituição, outros desafios se impõem, como conseguir aumentar o colchão de garantias próprias para, com isso, continuar fazendo empréstimos sem descumprir as regras de solidez bancária previstas no chamado Acordo de Basileia III, um sistema de regras financeiras internacionais criado para garantir solidez a bancos.

O Ministério Público Federal (MPF), que conduz inquéritos sobre pagamento de propinas a políticos em troca de investimentos bilionários, cobra desde dezembro de 2017 melhorias de gestão para blindar o banco da ingerência de partidos. Mesmo após o afastamento de vice-presidentes investigados, a maioria das diretorias é composta por indicações políticas.

Ao fim das atividades no Mané Garrincha, os funcionários da Caixa vão se divertir com o cantor Saulo. O público foi selecionado nas unidades do banco em todos os estados e embarcará, na semana que vem, em ônibus e aviões.

O presidente Michel Temer — que tem apostado na instituição para estimular a economia — também foi convidado, mas ainda não confirmou presença. Ele e aliados foram denunciados pela Procuradoria-Geral da República por integrar uma organização criminosa que desviava recursos de vários órgãos públicos, incluindo a CEF. A acusação contra Temer foi barrada pela Câmara e só poderá prosseguir quando ele deixar o cargo.

Arena bilionária
Palco do evento da Caixa, o Mané Garrincha foi o estádio mais caro da Copa e, atualmente, está subutilizado, tendo em vista que a capital federal não tem grandes clubes de futebol e nem um fluxo de eventos que garanta ocupação frequente.

A ociosidade é tanta que, para fisgar o cliente e assegurar investimentos dos gerentes da Caixa na economia local, o governo do DF deu um desconto de 85% no valor do aluguel do estádio, que caiu para R$ 48 mil. A obra foi contratada por R$ 696 milhões, mas, ao final, custou mais que o dobro, R$ 1,577 bilhão.

Menos de R$ 25 milhões ​
Procurada, a CEF informou que o orçamento não está finalizado. Em nota, alegou que o valor deve ficar “bem abaixo” de R$ 25 milhões. O banco disse que “os contratos com as personalidades participantes têm cláusula de confidencialidade”.

Sobre os custos com passagens, diárias e hospedagens, também justificou que o orçamento não está concluído. ​A instituição financeira alegou que o ato “será uma boa oportunidade para o comando do banco motivar e valorizar os gestores”.

“A Caixa está seguindo a iniciativa de outros grandes bancos brasileiros, que também promoveram eventos da mesma magnitude voltados para a implementação de suas ações em 2018. Entre eles, o Banco do Brasil, que, em março passado, reuniu 7 mil empregados no estádio do Palmeiras, em São Paulo”, afirmou.

As investigações da Panatenaico identificaram fraudes e desvios de recursos públicos em obras de reforma do Estádio Nacional Mané Garrincha para a Copa do Mundo de 2014. Orçada em R$ 600 milhões, a arena brasiliense custou mais de R$ 1,6 bilhão. A estimativa de desvio na obra é de R$ 900 milhões. A operação é decorrência das delações de ex-executivos da Andrade Gutierrez.

O alvo da investigação era a formação de um cartel por várias empreiteiras para burlar e fraudar o caráter competitivo da licitação e assegurar, de forma antecipada, que os serviços e as obras fossem realizados por consórcio constituído pelas empresas Andrade Gutierrez e Via Engenharia.

Como contrapartida, os vencedores teriam pago propina a agentes políticos e públicos. Entre os réus, estão os ex-governadores José Roberto Arruda (PR) e Agnelo Queiroz (PT), e o ex-vice-governador Tadeu Filippelli (MDB). Todos negam as acusações do MPF.

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