Febre das figurinhas reúne gerações em pontos de troca no DF
Ponto de encontro permite que tradição de álbum de figurinhas, como o da Copa, atravesse gerações de famílias brasilienses
atualizado
Compartilhar notícia

Pais e filhos, irmãos e familiares ocupam mesas de uma banca na Asa Norte, Brasília (DF), tradicional ponto de troca de figurinhas e encontro de colecionadores, durante horas, munidos de listas para procurar os itens que ainda faltam.
Semanalmente, o cenário mistura diferentes gerações. Desde crianças negociando figurinhas ao lado dos pais, colecionadores espalhados pelo chão sobre forrinhos a vendedores com pastas, caixas e peças acrílicas organizadas por números, países e categorias e comerciantes com carros lotados de blusa da seleção. Reunião familliar
A secretária executiva Mariana Reinke, 35 anos, levou os filhos Martina, 8, e Bernardo, 4, para participar das trocas. Embora já tivesse feito algumas trocas de figurinhas anteriormente, foi a primeira vez que a família inteira participou do encontro.
“Eu faço álbum desde pequenininha. Tenho muitas lembranças de trocar figurinha com o meu pai.”
A experiência, segundo ela, ganhou um significado diferente nesta edição. Na Copa passada, Bernardo ainda era bebê e Martina era muito pequena: “É a primeira vez que a gente está curtindo isso de verdade”.
Moradora da Asa Norte, Mariana diz que a proximidade da banca facilitou a rotina de trocas. Em vez de depender apenas de colegas de trabalho ou dos poucos amigos dos filhos que também colecionam, ela passou a frequentar o espaço para acelerar a busca pelas figurinhas que faltam.
O servidor público Vladson Araújo, 45, montou uma espécie de força-tarefa de troca de figurinhas entre três dos quatro filhos, de 10, 11 e 14 anos, somente o caçula, de 4, não foi ao encontro.
Segundo Vladson, a coleção começou logo após o lançamento do álbum. No início, as trocas aconteciam na escola e entre amigos. Com o tempo, a família passou a frequentar a banca quase todos os fins de semana: “Aqui é bom porque tem muita gente. A gente consegue zerar as repetidas e até trocar as brilhantes”, compartilhou.
O servidor conta que uma das escolas dos filhos chegou a proibir as trocas após desentendimentos entre alunos. Mesmo assim, a movimentação continuou fora dos muros da escola. “A gente combina de ir para a casa dos amigos ou encontra o pessoal em outros pontos de troca”, disse.
O programa também fez parte do pós-feirado do dentista Daniel Duarte, 43 anos, que levou a filha Luísa Oliveira, de 7, para a tarde de trocas. Pai e filha já participaram de pelo menos dois outros encontros, e hoje chegaram a cerca de 85% do álbum completo.
Daniel conta que começou a montar álbuns durante a Copa de 2014 e manteve a tradição nas edições seguintes.
Agora, divide a experiência com a filha. “Tem mais ou menos um mês que a gente está abrindo pacotinho e trocando figurinha”, contou. Além dos encontros na banca, Luísa também leva os cromos repetidos para a escola, onde participa de trocas com colegas e até de um álbum coletivo organizado pelos alunos.
Vendedores, revendedores e colecionadores de figurinhas
Os irmãos Tiago Layan, 18, e Lucas Marçal mantinham uma das tendas mais movimentadas do local. Sobre a mesa, milhares de figurinhas separadas por categorias esperavam compradores em busca dos cromos mais difíceis.
“A gente compra muito pacote, separa tudo e depois revende”, explicou Tiago.
O negócio, porém, não nasceu com eles: “Meu pai vende desde 1996”. A tradição atravessou gerações. O pai participou das coleções de diferentes Copas e os filhos seguiram o mesmo caminho. “Desde criança a gente acompanha isso. Copa de 2004, 2008, 2012, 2016. A gente sempre esteve nesse meio.”
Nos fins de semana, a rotina dos irmãos começa cedo. Eles chegam por volta das 7h da manhã e permanecem no local até o início da noite.
Ponto de encontro para perpetuar a tradição
À frente da banca há mais de 40 anos, José Gonçalves Brito, 63, acompanha o movimento há décadas. No caso dele, a tradição de troca de figurinhas começou ao tentar completar o álbum do fiho de 7 anos, em 1998, quando ergueu um papel anunciando a troca na frente da banca. Desde então, a tradição se repete, e a Banca do Brito virou referência de troca brasiliense.
Ação social da banca
A movimentação em torno das figurinhas também tem rendido resultados fora das páginas do álbum. Segundo Brito, o aumento no fluxo de pessoas ajuda a impulsionar as vendas da banca e ainda alimenta um projeto social criado durante os encontros.
Batizada de Figurinha Solidária, a iniciativa arrecada cromos que sobram após a conclusão das coleções. O material é reunido e doado para crianças atendidas por projetos sociais.
“A última ação foi para a Casa do Ismael. Neste ano, a gente deve ajudar um projeto da Ceilândia”, explicou.
Enquanto alguns procuram as últimas figurinhas para completar o álbum, outros já pensam no destino dos cromos repetidos. Em comum, todos ajudam a manter viva uma tradição que, décadas depois, continua mobilizando famílias inteiras em Brasília.





























