Farmácias do GDF estão há 8 meses sem remédio de hipertensão pulmonar

Farmácias de alto custo estão desde o início do ano sem estoque de bosentana, remédio usado no tratamento da hipertensão arterial pulmonar

atualizado 22/09/2022 11:27

farmácia alto custo dfHugo Barreto/Metrópoles

Pacientes com hipertensão arterial pulmonar (HAP) vivem drama com falta de medicamento nas farmácias de alto custo do Distrito Federal. O problema começou no início do ano e se arrasta há 8 meses. Segundo a Associação Brasileira de Apoio à Família com Hipertensão Pulmonar e Doenças Correlatas (Abraf), os estabelecimentos da Secretaria de Saúde estão sem estoque de bosentana, um dos remédios usados no tratamento.

painel InfoSaúde-DF, da Secretaria de Saúde, mostra que faltam tanto comprimidos de 125mg quanto os de 62,5mg nas farmácias da Asa Sul, de Ceilândia e do Gama. Na rede privada, uma caixa de bosentana tem custo mensal estimado entre R$ 3 mil e R$ 4 mil.

No início deste ano, o desabastecimento se estendia também a outro medicamento usado por pacientes com HAP: o sildenafila. Este, agora, voltou a ser fornecido pelas farmácias do governo do DF e do Ministério da Saúde.

Flávia Lima, presidente da Abraf, explica que os medicamentos, geralmente, são usados de forma combinada. “Então, muita gente usa os dois. Normalmente, começa com o sildenafila e, depois, passa a usar o bosentana também. E, em alguns momentos do ano, tivemos o desabastecimento de ambos”, comenta.

“Está, realmente, insustentável. A gente fez reuniões com a Secretaria de Saúde em julho e em agosto, e a última informação que tivemos foi de que a pasta estava em processo de compra e que o fornecedor tinha previsão de entrega até agosto. Só que já passou agosto, estamos no fim de setembro, e nada ainda”, reclama a presidente da entidade.

Além desses, Flávia aponta que outro medicamento, que também pode ser usado no tratamento da hipertensão arterial pulmonar, é o ambrisentana. “As pessoas o recebem por meio da Farmácia Judicial, mas ele também está em falta”, lamenta.

Sem previsão

Silvani Marques Ferreira de Siqueira, 48 anos, vive uma saga por medicamentos para a doença. Aposentada por invalidez há cinco anos, ela foi diagnosticada com HAP há 10, e relata estar desde julho sem o ambrisentana.

“Eu tinha muito cansaço, desmaios, falta de ar. Não conseguia andar. Fazia acompanhamento com cardiologista, e ele pediu um ecocardiograma e descobriu (a doença). Aí, me encaminhou para a pneumologista e, hoje, faço tratamento no HUB [Hospital Universitário de Brasília]”, detalha a paciente.

A moradora de Santa Maria faz uso combinado do ambrisentana, de 10mg, com o o sildenafila, de 20mg. “É o que preciso para tentar uma qualidade de vida melhor. “Como é um remédio judicializado, e estão sem fornecer desde julho, entrei com processo pela Defensoria Pública, mas, até agora, nada”, queixa-se Silvani.

Flávia Silveira Pereira do Nascimento, 45, também faz tratamento no HUB. Ela precisa ser medicada com sildenafila e bosentana e tem sofrido com sintomas da doença devido à falta de um dos remédios na farmácia de alto custo.

“Fui diagnosticada com lúpus, em 2008, e HAP, em 2013. Nesse ano, me aposentei por invalidez”, diz. “Sem o remédio na farmácia de alto custo, eu estou tendo falta de ar, não posso andar muito rápido, fazer as coisas. Dependo de quanto alguém consegue para mim metade da caixa ou alguns comprimidos. Mas vou fazendo os exames e sempre dá alterado”, afirma a moradora de Ceilândia.

“Eles não dão previsão para o fornecimento. Já perdi amigas para a doença, justamente devido à falta dessa medicação. Sem os remédios, a pessoa não consegue viver”, desabafa.

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Doença rara

A incidência da HAP é de 1 para cada 250 mil habitantes, e a maioria dos pacientes é jovem, entre 20 e 40 anos, e mulher. Ela é causada por histórico familiar, uso de drogas ou diagnóstico prévio de outras patologias.

A hipertensão arterial pulmonar não tem cura. Os principais sintomas são falta de ar e cansaço aos esforços, como caminhar e subir escadas; distensão abdominal; desmaios; fadiga; e edema de membros inferiores.

“A maior parte dos pacientes inicia o tratamento com duas medicações e, à medida que a doença evolui, pode ser adicionada uma terceira. Em centros ou países onde há o transplante de pulmão mais disponível, quando a gente já associa a terceira medicação, pensamos em encaminhar o paciente para a lista de transplante. É um realidade ainda limitada no nosso país, mas que, pouco a pouco, começa a vislumbrar essa possibilidade”, explica a pneumologista Verônica Amado.

O acompanhamento em centros especializados é importante para que também haja orientação a respeito da alimentação do paciente e série de outras recomendações, além da reavaliação periódica.

“As medicações melhoram bastante os sintomas, muitas vezes, permitem que os pacientes voltem a ter suas atividades laborais que haviam sido suspensas dada à limitação imposta pela doença; então, tem esse aspecto muito positivo”, completa a médica.

Conforme a Abraf, o tratamento da hipertensão pulmonar é complexo e realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em centros de referência. No DF, os hospitais que contam com ambulatórios especializados são o HUB, o Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF) e o Hospital Regional da Asa Norte (Hran).

O que diz a Secretaria de Saúde

A Secretaria de Saúde do DF informou que aguarda a entrega do bosentana, na apresentação de 62,5mg. No caso do medicamento de 125mg, ocorreram três inexecuções devido à não entrega por parte do fornecedor. “No entanto, já foi emitido um novo pedido de aquisição, que se encontra em fase de empenho”, detalhou a pasta, em nota.

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