Falta de pets doadores de sangue deixa gatos e cães em risco no DF
DF tem 3 bancos de sangue veterinários, mas baixa adesão de animais doadores dificulta manter os estoques e compromete atendimentos urgentes

Assim como acontece com os seres humanos, a transfusão de sangue pode ser a diferença entre a vida e a morte de um cão ou gato em estado grave. No entanto, no Distrito Federal, a baixa adesão de animais doadores é o maior desafio enfrentado pelos bancos de sangue veterinários e dificulta a manutenção dos estoques, o que pode comprometer atendimentos de urgência e cirurgias.
Foi o caso do vira-lata Chorão, que viveu durante muito tempo nas ruas do Paranoá (DF) e foi resgatado por duas protetoras da causa animal: Eliane Carvalho, 41 anos, e Joelma Alves, 42.
Elas o encontraram cambaleando enquanto resgatavam outro animal e, preocupadas com o estado de saúde do cachorro, passaram a cuidar dele ainda na rua, levando ração e antibióticos comprados com recursos próprios.
Eliane relata que, mesmo assim, o quadro do cachorro piorou. Foi diante disso que elas conseguiram uma consulta doada para que Chorão fizesse exames de sangue, mas o veterinário alertou que o animal precisava de uma transfusão urgente, um procedimento que custa até R$ 2,5 mil, valor fora das possibilidades financeiras das protetoras, que já mantêm cerca de 50 animais com recursos próprios.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles DF“Chegamos a procurar outros lugares, mas o custo era muito alto. Uma das alternativas seria ter um cão doador, mas, no caso de protetores, isso é praticamente impossível, porque nossos animais geralmente chegam debilitados”, explica Eliane.
Ela afirma que já perdeu cães por falta de sangue e reforça a importância da doação. “Os cachorros aptos deveriam doar. Falta acesso a doadores. A gente precisa que mais pessoas abram os olhos para isso”, disse.
Foi nesse cenário que o Hospital Veterinário da Universidade de Brasília (HVet-UnB), na L4 Norte, entrou na história de Chorão. A unidade oferece atendimento clínico gratuito e recebeu o cachorro para avaliação e suporte.
O atendimento foi possível graças ao projeto de extensão “Uma pata salva a outra”, coordenado pelo professor Jair Costa, responsável por estruturar e divulgar o Banco de Sangue Animal do HVet.
Criado em 2012, o projeto surgiu da necessidade de suprir a demanda constante por bolsas de sangue para transfusões em cães e gatos. A iniciativa garante hemocomponentes para atendimentos clínicos, ambulatoriais e cirúrgicos.
“Tem meses que está tudo bem, mas há períodos mais difíceis”, explica Jair. Segundo ele, manter uma rotina de coleta é essencial para evitar o desabastecimento.
Bancos de sangue
O médico-veterinário e CEO do Centro de Hemoterapia Pet do DF (OHV Pet), Francisco Anilton Alves Araújo, afirma que o problema não é a quantidade de bancos de sangue, mas a dificuldade de manter um número suficiente de animais doadores para abastecer as clínicas veterinárias do Distrito Federal e do Entorno.
“O que ocorre com os bancos de sangue pet é muito similar ao que ocorre com os bancos de sangue humano: a falta de doadores. E aí, em especial em alguns momentos, como feriado, Carnaval, final de semana, época de férias escolares, Natal, os estoques de bolsa de sangue desses bancos vão cair muito”, explica.
Atualmente, o Distrito Federal conta com três bancos de sangue veterinários: o Centro de Hemoterapia Pet do Distrito Federal (OHV Pet), no Núcleo Bandeirante; o Hospital Veterinário da Universidade de Brasília (HVet-UnB), na L4 Norte; e o Banco de Sangue do Hospital Veterinário Brasília (HVB), na Asa Sul.
Francisco informa que a OHV Pet tem capacidade para armazenar até 200 bolsas de sangue e produz cerca de 320 bolsas por mês. Segundo ele, esse número varia conforme a quantidade de animais aptos para doação.
“Quando nós falamos de estoques são suficientes, não são suficientes. Tanto do nosso banco como do outro banco, porque a gente percebe quando o tutor liga para cá que a gente não tem, não tem bolsa de sangue, a gente passa o contato do outro banco de sangue e eles também estão sem sem bolsa de sangue”, afirma.
Segundo Francisco, a demanda por transfusões não aumentou necessariamente, mas o comportamento dos tutores mudou nos últimos anos.
“[O tutor] sabe que o sangue produzido por um banco de sangue, a qualidade é muito maior, a confiabilidade, a possibilidade de rastreamento daquele doador é muito maior. Então, isso tudo pra gente mudou. O comportamento do tutor com os animais, em especial, desde a pandemia, mudou muito”, disse.
O veterinário também esclarece que, ao contrário do que muitos imaginam, a doação não oferece riscos aos animais.
“No OHV, o animal pode doar a cada dois ou três meses e sai tão saudável quanto chegou. O doador cadastrado recebe vacinas, vermífugo, exames e tipagem sanguínea. Não existe custo nenhum para o tutor”, explicou.

Receba no seu email as notícias de Metrópoles DF
Frequência de envio: Diário
Ver todasSegundo o presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Distrito Federal (CRMV-DF), Rodrigo Montezuma, as bolsas de sangue atendem às demandas de sangue total e de hemoderivados, após passarem pelos testes necessários de tipagem sanguínea e análises patológicas, garantindo a biossegurança dos pacientes.
Ele destaca que a doação é indispensável para o tratamento de cães e gatos com diversas doenças que comprometem a circulação sanguínea.
“Várias patologias debilitam a hemodinâmica de cães e gatos, reduzindo os parâmetros normais dos componentes sanguíneos, chamados de hemoderivados, ou até mesmo comprometem a correta volemia do sangue total”, explica.
Alguns animais não conseguem esperar
Nem todos os animais conseguem uma bolsa de sangue a tempo, como foi o caso do pit-bull Beethoven, que morreu em fevereiro de 2025 à espera de uma transfusão. O cão, de 3 anos, apresentava um quadro grave de anemia, agravado pela falta de alimentação, desidratação e dificuldade para respirar.
Na época, a tutora Ingrid de Ferreira Costa contou ao Metrópoles que levou Beethoven ao Hospital Veterinário Público do Distrito Federal (Hvep), em Taguatinga. No entanto, não havia leito disponível para internação nem bolsas de sangue.
Segundo Ingrid, a equipe médica informou que faria a transfusão caso ela conseguisse uma bolsa ou um doador. Desesperada, ela procurou bancos de sangue particulares, mas encontrou outro obstáculo: o custo. Cada bolsa custava cerca de R$ 1.850, valor muito acima de suas condições financeiras.
Francisco afirma que casos como esse acontecem com certa frequência. “Os bancos de sangue que existem são privados. O setor público não tem banco de sangue, com exceção da UnB, que tem uma capacidade muito pequena de coleta”, disse.
Segundo ele, outro fator que pesa é o custo do procedimento que pode ser extremamente alto para alguns tutores.
“A condição financeira do tutor, ele é um fator bastante importante numa situação dessa. Além da produção de uma bolsa de sangue para um banco de sangue, é muito caro, porque esse animal precisa fazer todos os exames, precisa passar por uma avaliação clínica”, acrescentou.
Como funciona a doação
Antes da doação, os animais passam por uma triagem por meio de um formulário. Após a confirmação de que atendem aos pré-requisitos, é feito o agendamento. No dia da coleta, são realizados exames de sangue e testes rápidos para doenças transmissíveis.
Com os resultados dentro da normalidade, a coleta é concluída e o material segue para processamento, onde ocorre a separação de hemácias, plasma e plaquetas. As hemácias podem ser armazenadas por até 21 dias; o plasma fresco, por até um ano; e as plaquetas, por até cinco dias.
Jair explica que a doação só é realizada quando o animal está calmo, para que o procedimento seja o mais tranquilo possível. Nos cães, a coleta leva de sete a 11 minutos. Nos gatos, o tempo é maior porque eles passam por um período de adaptação.
Caso algum exame indique doença, a bolsa é descartada. O tutor recebe os resultados e pode acompanhar o caso no próprio HVet.
O intervalo mínimo entre as doações é de três meses. Para doar, os cães devem pesar pelo menos 25 quilos e os gatos, mais de 4 quilos, além de terem entre 1 e 8 anos, vacinação e vermifugação em dia, não apresentarem pulgas nem carrapatos e nunca terem recebido transfusão. No caso das fêmeas, elas não podem estar gestantes, amamentando ou no cio.
Serviço
Tutores interessados em cadastrar cães e gatos como doadores podem entrar em contato com o Banco de Sangue Veterinário da Universidade de Brasília (UnB) pelo e-mail bsveterinario@unb.br ou preencher o formulário disponível no perfil @bancosdesangue.hvet no Instagram.
Já os interessados em participar do programa de doação do Centro de Hemoterapia Pet do Distrito Federal (OHV) podem entrar em contato pelo telefone (61) 99847-4402.



