Exclusivo: assassino dos Villela fala do crime da 113 Sul pela 1ª vez

Exatos nove anos depois da barbárie que chocou o país, Francisco Mairlon quebra o silêncio. Saiba onde estão os outros acusados

Daniel Ferreira/MetrópolesDaniel Ferreira/Metrópoles

atualizado 28/08/2018 10:20

Francisco Mairlon Barros Aguiar não aparenta representar risco. Com 1,65m de altura e fala mansa, o ex-entregador de gás é incapaz de intimidar pela postura. Mas as vestes brancas, os pulsos algemados e a ficha policial confirmam: o homem de 30 anos é o autor de um dos crimes mais chocantes da história do Distrito Federal.

Em 28 de agosto de 2009, ele e um comparsa invadiram um apartamento no Bloco C da 113 Sul e mataram com 73 facadas o ministro aposentado do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) José Guilherme Villela; a mulher dele, a advogada Maria Villela; e a funcionária da casa, Francisca Nascimento Silva.

Exatos nove anos depois da barbárie, Francisco quebrou o silêncio e falou pela primeira vez com uma equipe de reportagem. O Metrópoles solicitou a entrevista em março de 2018 e, cinco meses depois, teve o pedido deferido pela titular da Vara de Execuções Penais, Leila Cury.

Detido na Penitenciária do DF 2 (PDF2), Francisco calcula que só terá direito a começar a gozar do regime semiaberto após cumprir 18 anos de pena – ele está encarcerado há oito.

O castigo não é só o isolamento e a privação de liberdade. Nesse tempo, foi abandonado pela mulher, que pediu divórcio e se mudou para o Ceará. Ela levou o filho do casal, que Francisco só viu uma vez, quando a criança tinha cinco meses. Agora, recebe apenas a visita dos pais, de 15 em 15 dias.

Afirma que conseguiu manter-se distante de um ambiente hostil com os oito companheiros de cela por tê-los convencido de que não seria o assassino frio que chocou Brasília ao matar com dezenas de facadas três pessoas, segundo denúncia do MP e entendimento do júri que o sentenciou, mesmo não tendo antecedentes criminais. E que pensou em tirar a própria vida assim que chegou à cadeia.

Versão
No Complexo Penitenciário da Papuda, o detento contou sua versão sobre o crime da 113 Sul. Embora tenha narrado à Polícia Civil, em 2010, detalhes de como executou o casal e a empregada – depoimento crucial para sua condenação a 55 anos de reclusão –, desta vez negou participação no triplo homicídio e disse só ter confessado à Coordenação de Investigação de Crimes Contra a Vida (Corvida) porque foi torturado psicologicamente por agentes e delegados da unidade.

[Confessei] no momento de desespero. Tinha medo de acontecer algo com minha família, com meus pais. Um agente disse que eu tinha de citar algo que interessasse a eles e assumisse a parte que me cabia no crime. Ainda disse que eu só voltaria a ver meus pais se eu falasse o que eles queriam ouvir

Francisco Mairlon

Assista:

 

Francisco apresentou a mesma versão em 2012, quando foi condenado pelo Tribunal do Júri de Brasília, mas não convenceu e acabou sentenciado a cinco décadas e meia. Na mesma ocasião, Leonardo Campos Alves recebeu pena de 60 anos. Leonardo é apontado pelo Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) como o articulador do plano para matar os Villela.

Ex-porteiro do Bloco C, ele teria recebido dinheiro e joias da filha do casal, Adriana Villela, para executar o crime. Como era conhecido de funcionários e moradores do edifício, Leonardo convidou o sobrinho Paulo Cardoso Santana e Francisco para subirem ao apartamento. Os dois teriam encontrado a porta aberta e rendido Francisca.

O ex-ministro teria chegado ao apartamento por volta das 19h20, encontrado Francisca amarrada na sala e também foi imobilizado. Segundo as investigações, cerca de 30 minutos depois, Maria Villela entrou no imóvel e recebeu 12 facadas desferidas por Francisco e o comparsa, segundo aponta o MP.

Na sequência, o entregador de gás desferiu 38 golpes em José Vilella e 23 em Francisca. Os corpos só foram encontrados três dias depois, pela neta do casal Carolina Villela, que estranhou a ausência de notícias dos avós.

Daniel Ferreira/Metrópoles
Francisco Mairlon, durante entrevista concedida ao Metrópoles

 

Apesar de alegar inocência, Francisco Mairlon não soube explicar onde estava na noite do crime. “Eu me torturo bastante para recordar algo sobre esse dia. Fui preso após um ano e pouco depois do crime e não lembro o que eu fiz naquele dia.”

Ao sustentar sua linha de defesa, acusou, inclusive, Maurício Miranda, promotor responsável pelo caso à época. “O Maurício Miranda sabe muita coisa, mas não colocou no processo. Para ele, é bom dizer que resolveu um caso, mas cometeu um equívoco muito grande”, esbravejou.

 

“Monstro”
Atualmente, Francisco trabalha no setor de reciclagem da PDF2. Em 2017, concluiu o ensino médio e, agora, espera autorização do sistema penitenciário para cursar faculdade. Ao falar de Leonardo Campos Alves, demonstra raiva e diz esperar que “ele algum dia fale a verdade”. Ao fazer planos sobre a vida fora da prisão, teme ficar marcado como um monstro.

“O que mais dói é pensar como vai ser depois de passar por esses portões. Ser conhecido por isso [como monstro] é uma desonra, uma vergonha. Não vou poder ir onde eu quero, vou sempre estar preso psicologicamente a este crime”, diz.

Arquivo pessoal
Maria Carvalho Mendes Villela e José Guilherme Villela

 

A vida de Adriana depois do crime
Apontada como mandante do crime, Adriana Villela aguarda julgamento em liberdade. A arquiteta recebia uma mesada de R$ 8 mil, mas considerava pouco, o que motivava discussões acaloradas com os pais.

Adriana é suspeita de ter contratado Leonardo para matar os pais por R$ 60 mil. Ele, por sua vez, teria prometido dar R$ 10 mil a Francisco para executar o crime.

Há quase oito anos ela mora no Leblon, no Rio de Janeiro, em um apartamento dos pais. A herança deixada pelos Villela, estimada em mais de R$ 40 milhões, foi dividida entre ela e um irmão.

Enquanto não é levada ao júri popular, Adriana se define como alternativa. Nas redes sociais, costuma publicar fotos meditando em montes, pintando quadros ou produzindo utensílios com materiais recicláveis. No Facebook, apresenta-se como proprietária de uma marca chamada Atelier de Arquitetura e Reciclagem Verde Garrafa.

Adriana também demonstra ter virado militante de esquerda. Em vários posts, chama a gestão de Michel Temer (MDB) de golpista e critica a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Apesar de passar pouco tempo em Brasília, optou por não vender uma mansão no Lago Sul, que, segundo vizinhos ouvidos pela reportagem, fica praticamente o ano todo fechada. “Quando ela vem, é muito rápido. Passa dois, três dias e depois vai para a Chapada dos Veadeiros”, contou um homem que trabalha na quadra.

 

Trapalhadas na investigação
As investigações do crime da 113 Sul foram marcadas por trapalhadas e erros. Em 19 de julho de 2018, o GDF cassou a aposentadoria de R$ 16 mil da delegada Martha Vargas, a primeira a presidir o inquérito do caso. Ela foi condenada, em segunda instância, a 16 anos de prisão por ter plantado provas a fim de incriminar três homens sem relação com o triplo homicídio.

Durante a fase de inquérito do crime, Martha recorreu a uma vidente para anunciar a elucidação do caso. A paranormal Rosa Maria Jaques contou ter visto uma foto de José Guilherme num jornal, e o morto piscou para ela, indicando os responsáveis pela tragédia.

Com auxílio da líder espiritual, a delegada aposentada prendeu três suspeitos em Vicente Pires e apontou como prova principal uma chave do apartamento dos Villela, que estaria em posse do trio. Para obter a confissão de Alex Peterson Soares, Rami Jalau Kalout e Cláudio Brandão, Martha e parte de sua equipe teriam torturado os três.

No entanto, dias depois, laudo do Instituto de Criminalística (IC) revelou que a chave apreendida era exatamente a mesma recolhida pela própria Polícia Civil na cena do triplo homicídio. Diante da denúncia em relação à prova plantada, Martha pediu afastamento da investigação e o caso passou a ser conduzido pela Coordenação de Crimes Contra a Vida (Corvida).

O advogado de Adriana Villela, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, disse ter havido uma “opção midiática” em torno de sua cliente e garante ter comprovado que ela não estava na cena do crime. “Demonstramos, ao longo do processo, por meio de uma linha do tempo, que seria impossível a Adriana estar no apartamento naquele dia. Para nós, está muito claro a inocência dela e vamos provar”, disse ao Metrópoles.

Os outros envolvidos
Além de Francisco, outro condenado pelo crime, Leonardo Campos Alves, cumpre pena de 60 anos na PDF1, também na Papuda. O ex-porteiro é acusado de ter sido contratado pela arquiteta para matar os Villela.

Já Paulo Cardoso, sobrinho de Leonardo e também acusado de esfaquear o trio, foi condenado a 55 anos de cadeia. Ele foi recambiado para o presídio de Montalvânia (MG), pois respondia por outro delito no município mineiro.

 

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