“A ideia era matar as pessoas de fome.” A frase é da escritora holandesa radicada no Brasil Nanette Blitz Konig, 86 anos. Após perder toda a família no campo de concentração de Westerbork, a sobrevivente do Holocausto refez a vida nos solos brasileiros. Apesar da voz doce e calma, Nenette guarda em suas rugas os horrores vividos durante a Segunda Guerra Mundial. Na quarta-feira (27/1), ela esteve em Brasília no evento que marcou o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, instituído pela ONU.

Criada em 2005 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, a data relembra o episódio em que tropas soviéticas libertaram o campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia, em 27 de janeiro de 1945. A cerimônia foi organizada pela Confederação Israelita do Brasil (Conib) e ocorreu no Edifício-Sede da Ordem dos Advogados do Brasil. Ao lado de Nanette, estavam presentes outros sobreviventes do Holocausto e líderes de diferentes religiões.

O combate à intolerância foi o tema escolhido para a campanha de 2016 da Conib. Recentes casos de atentados contra terreiros no DF e no país foram relembrados durante a apresentação. A estudante Kayllane, de 11 anos, atingida por uma pedra quando saía de um culto de candomblé no Rio de Janeiro, em junho de 2015, também esteve no encontro e participou de um momento da solenidade em que acendeu uma das seis velas de um candelabro. Cada vela representou a morte de 1 milhão de judeus durante a guerra.

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Documento apresentado pela escritora Nanette Blitz Konig sobre as vítimas do Holocausto

 

Embora a memória da Nanette se perca em trechos conturbados de sua vida, ela relembra que, durante o tempo que esteve no campo de concentração, chegou a pesar 31 quilos. “Quando nos ofereciam algo para comer, era uma espécie de bolinho extremamente azedo”, recorda. Colega de escola de Anne Frank, a escritora a reencontrou em um campo poucos dias antes da morte dela. Nenette foi, inclusive, citada no livro da adolescente de origem judaica (“O Diário de Anne Frank”).

A holandesa levou três anos para se recuperar do cativeiro. Teve tifo, tuberculose e pleurisia. No fim da década de 1950, Nanette mudou-se para São Paulo com o marido John Konig. Comunicando-se em inglês com o homem responsável pela mudança para o Brasil e com quem dividiu todos os anos posteriores ao Holocausto, ela aponta: “Foi aqui que criei os meus três filhos”. Sobre o evento de quarta (27), a escritora desabafa: “Ninguém tem ideia do tamanho da tragédia”.