UnB aceita uma gêmea e rejeita outra no sistema de cotas

Carina Bastos obteve nota, mas não estava na lista de cotistas de escola pública para Veterinária. A irmã, Marina, sim. Caso está na Justiça

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atualizado 24/07/2018 17:22

As gêmeas Carina Bastos da Costa Soares (à direita na foto) e Marina Bastos da Costa Soares, 21 anos, podem ver o sonho de continuar trilhando o mesmo caminho juntas destruído. As estudantes contam que prestaram o vestibular tradicional da Universidade de Brasília (UnB) para o curso de Medicina Veterinária referente ao segundo semestre deste ano. As irmãs obtiveram notas altas, mas apenas uma delas foi aprovada, Marina, que, inclusive, fez a matrícula no curso na manhã desta terça-feira (24/7).

O nome de Carina não constava na lista dos cotistas de escola pública, embora o da sua irmã gêmea, Marina, candidata ao mesmo curso e também cotista, estivesse lá. A confusão, segundo a dupla, foi percebida no último dia 12, quando Marina foi aprovada em segunda chamada.

“Nós nos inscrevemos no sistema de cotas para estudantes que cursaram o ensino médio em escolas públicas em 2016. Tentávamos o vestibular há quatro anos e foi a primeira vez em que passamos, as duas. Estávamos muito felizes, pois sempre quisemos continuar estudando juntas”, conta Carina, a gêmea que não se enquadrou nas vagas.

Carina obteve notas melhores do que a irmã e, ainda assim, ficou fora da lista para o mesmo curso. Somadas as provas de conhecimento, a estudante teve 111.164 pontos. Já Marina, 28.473.

O problema agora será resolvido pela Justiça. “Nós entramos com uma liminar na 17ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Distrito Federal e esperamos uma resposta da UnB sobre o caso”, afirma Carina.

Liminar deferida pelo juiz Rodrigo Parente Paiva, em 12 de julho, determinou a matrícula de Carina. Segundo o magistrado, houve comportamento contraditório da comissão avaliadora. “Não há argumentos jurídicos no caso, tendo em vista que, consoante aos autos, é possível observar que sua irmã idêntica restou enquadrada como cotista, enquanto a impetrante ficou de fora de tal lista”, alega a sentença.

“Ontem [23/7], soubemos que a UnB pediu ao juiz para ele reavaliar o caso. Ficamos apreensivas porque ia ser muito bom a gente fazer veterinária juntas. Tenho nota para isso. Somos idênticas e temos as mesmas condições de vida. Quase inseparáveis”, classifica Carina. “Esperamos que eles esclareçam essa situação e sejam justos”, acrescenta.

O outro lado
Por meio de nota, o Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos (Cebraspe) informou que a candidata Carina Bastos não apresentou documentação exigida para concorrer no Sistema de Cotas para Escolas Públicas conforme regras do edital do Vestibular da Universidade de Brasília (UnB) e, por isso, o indeferimento para essa condição.

“Sua irmã, Marina Bastos, enviou a documentação e obteve a homologação desta no Vestibular de 2016 da UnB e, conforme item 4.3.3 do edital de 2018, reproduzido abaixo, teve sua condição para concorrer no sistema de cotas para escolas públicas neste ano automaticamente aceita”, esclarece o texto.

Histórico
O caso de Carina e Marina não é inédito. Em 2007, Alan Teixeira da Cunha e Alex Teixeira da Cunha, 18 anos, gêmeos univitelinos, passaram pela mesma situação. Na ocasião, os jovens – filhos de pai negro e mãe branca – disputavam vagas no vestibular da UnB por meio do sistema de cotas raciais. À época, a regra previa apenas critérios de raça e não socioeconômicos ou de origem escolar.

A submissão de fotografias à banca avaliadora levou o júri a decidir que Alan era negro, mas, Alex, não. O irmão “branco” recorreu – possibilidade prevista no edital do vestibular. A decisão foi mudada, mas os gêmeos não passaram no vestibular daquele ano.

 

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