Pais aprovam modelo de militarização de escolas do DF. Sinpro é contra

Quatro Centros de Educação no Distrito Federal servirão de teste e projeto deverá ser ampliado para até 200 unidades

JP Rodrigues/Metrópoles/ Foto ilustrativaJP Rodrigues/Metrópoles/ Foto ilustrativa

atualizado 03/02/2019 13:30

O projeto de militarização das escolas públicas do Distrito Federal tem dividido deputados distritais e se tornou alvo de críticas por parte do Sindicato dos Professores (Sinpro-DF), mas é praticamente uma unanimidade entre os pais dos alunos que estudarão nas quatro escolas escolhidas como piloto do projeto. O Metrópoles esteve em dois dos quatro centros de ensino militarizados e, neles, há o consenso entre a população de que a parceria da Secretaria de Educação com a Polícia Militar será benéfica.

Na entrada das escolas, as cercas de arame farpado em cima dos muros indicam que a violência é uma das principais preocupações. O Centro Educacional 1 (CED 1) da Cidade Estrutural fica a menos de 100 metros de um batalhão da PM, mas não impede que a ação e o aliciamento de traficantes nos arredores da escola, onde há bocas de fumo.

Com a presença massiva e constante da polícia, pais de estudantes do CED 1 creem que a segurança vai aumentar, o tráfico vai diminuir e mesmo as brigas constantes entre os estudantes tendem a ter um fim com a tutela compartilhada da instituição.

Moradora da Estrutural, Lygia Alves da Silva, 34 anos, terminou o curso da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em 2018 e foi até o CED 1 nessa sexta-feira (1º/2) para tentar matricular a filha de 15 anos no 7º ano do Ensino Fundamental. “Eu acho que tem de tudo para melhorar e sou a favor. Quem tem medo de polícia é bandido. Sinto que meus filhos estarão muito mais protegidos, vão aprender muito mais e isso pode fazer melhorar até o comportamento dentro de casa”, acredita Lygia.

Elias Gabriel Alves Saraiva, 10 anos, é o filho do meio de Lygia e admirador da PM. Estudante que cursará o 6º ano em 2019 já escolheu a profissão que deseja seguir. “Quero ser do exército”, diz, sobre a carreira que deseja.

Sem consenso
Embora haja grande resistência por parte do Sinpro, a diretora da escola da Estrutural, Estela Accioli, aprova a gestão compartilhada com a Polícia Militar. “No ano passado, fui duas vezes para a DCA [Delegacia da Criança e do Adolescente] por causa de alunos com maconha na mochila. Já aconteceu briga no primeiro dia de aula, com aluno dando murro na boca do outro, a ponto de sair com o rosto sangrando. Nossa expectativa é aumentar a nota da escola no Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica]. A meta é chegar a 5.9 neste ano”, opina a diretora.

Os professores da unidade ainda estão de férias e devem se reunir com a coordenação e direção no dia 5 de fevereiro, quando sentarão à mesa com dirigentes do Sinpro e representantes da PM.

Vinda de Aracaju (SE) para Brasília com o filho de 11 anos há cerca de dois meses, Roseane Soares Sobrinho, 32 anos, não sabia da mudança na escola e estranhou a presença de quase uma dezena de policiais no CED 1. “Aconteceu alguma coisa aqui?”, questionou a um coordenador da instituição. Ao saber que os PMs faziam parte de um projeto do governo de compartilhamento de gestão, ficou aliviada. “Que ótimo. Por mim, seria assim em todo lugar. Traz mais tranquilidade”, opina.

O capitão Igor Ribeiro, do Comando de Policiamento Escolar, disse ao Metrópoles que cada escola militarizada receberá de 20 a 25 policiais. Além do controle disciplinar, órgãos de governo estudam ampliar a participação da PM no contraturno, com esportes e música.

“Nós estamos procurando profissionais formados em educação física e musicalização para aprimorar o projeto com atividades no contraturno dos alunos”. Entre o corpo de servidores da polícia, há muitos formados em educação física. Para as ações de musicalização, a corporação espera que membros da banda da PM se voluntariem para ensinar as crianças.

Pais apoiam mudanças
A opinião de pais e mães do Centro de Ensino 7, em Ceilândia, também é favorável à presença da PM na escola. A técnica de enfermagem Poliana Batista da Silva, 32 anos, chegou atrasada e encontrou a escola fechada. Ela tentava matricular a filha de 15 anos no 9º ano e terá de retornar na segunda-feira (4/2). “Em todas as escolas aqui da região tem muito tráfico. Os professores sofrem ameaças, os alunos não respeitam. Agora, quero ver desrespeitar um policial”, diz Poliana.

Max Welber, 25 anos, é militar do Exército e acha que os policiais trarão mais fiscalização contra o tráfico de drogas e brigas na escola. Ele tentava matricular o sobrinho, de 15 anos, e concorda com o argumento do governo, de que disciplina reflete em resultados.

Serão transformados em colégios militares os centros educacionais 3, de Sobradinho; 308, do Recanto das Emas, 1; da Estrutural, e 7, de Ceilândia. O governador Ibaneis Rocha (MDB) afirmou que o programa será continuamente ampliado: até julho de 2019, serão 20 escolas da PM, número que vai dobrar até o final do ano. Ele prevê que até o final do mandato o DF terá 200 escolas militares.

O acordo prevê que a Polícia Militar participe da gestão administrativa e disciplinar das escolas escolhidas, atendendo a critérios de vulnerabilidades sociais, índices de criminalidade, de desenvolvimento humano e educação básica.

A gestão pedagógica dos colégios militares vai seguir as diretrizes da Secretaria de Educação. A iniciativa estabelece que, com um aplicativo de celular, os pais possam ter acesso ao que os alunos fizeram durante o período de aulas.

Reações
Para o Sindicato dos Professores (Sinpro-DF), a medida é apenas uma maquiagem aos reais problemas do setor. Samuel Fernandes, integrante da entidade, explica que a organização é totalmente contra a parceria entre PMDF e Secretaria de Educação, pois considera que a presença de policiais militares na escola pode deixar os alunos com medo e assustados.

“As escolas militares não educam, excluem os alunos com problemas disciplinares. A presença do Batalhão Escolar poderia fazer um trabalho satisfatório nas proximidades dos colégios”, destaca.

Os deputados distritais Fábio Félix (Psol), Leandro Grass (Rede) e Chico Vigilante (PT) são contra o modelo escolhido por Ibaneis Rocha (MDB) para algumas escolas do DF. Cláudio Abrantes (PDT), líder do governo na Câmara Legislativa, pede ponderação e diz ser muito cedo para qualquer avaliação. O deputado Hermeto, que é policial militar, defende o formato anunciado pelo GDF.

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