Mesmo com queda, DF registra desigualdade maior que média do país

Índice de Gini, que mede a desigualdade per capita, caiu de 0,594 para 0,569 em um ano, mas continua acima da média nacional, de 0,545

Myke Sena/Especial para o MetrópolesMyke Sena/Especial para o Metrópoles

atualizado 16/10/2019 22:07

O Índice de Gini, que mede a diferença de renda em uma escala de 0 a 1, sendo 1 a maior desigualdade per capita, bateu o recorde da série pesquisada entre 2012 e 2018, com 0,545 para todo o Brasil. Assim como em todos os anos pesquisados, o Distrito Federal ficou acima dessa média, registrando 0,569 no ano passado.

Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira (16/10/2019).

No entanto, em 2018, o Gini na capital ficou abaixo do índice do ano anterior, de 0,594, e se distancia do maior número já registrado pelo IBGE: 0,603, em 2012. Para toda a Região Centro-Oeste, o índice mais recente é de 0,513.

No cálculo per capita, o DF está na liderança em relação as outras unidades da Federação. No entanto, quando calculado para o rendimento médio mensal recebido de todos os trabalhos, o Distrito Federal fica com 0,544 e perde o pódio. Em 2017, o número também era maior: 0,563.

No entanto, o índice ainda é superior à média nacional, de 0,509. Enquanto o DF apresenta a segunda menor média em todos os anos pesquisados, o Brasil registra a maior nesta categoria para a série.

Desigualdade

O rendimento médio do 1% mais rico da população do Distrito Federal é 29,5 vezes maior que o dos 50% mais pobres. Enquanto a renda média para os moradores mais ricos é de R$ 33.791, os mais pobres ganham R$ 1.146.

A média do DF, no entanto, fica abaixo do nível nacional. Em todo o país, o rendimento médio do 1% mais rico da população é R$ 27.744. A cifra é 33,8 vezes o rendimento dos 50% mais pobres, de R$ 820.

A renda per capita do Distrito Federal em 2018 foi quase o dobro da registrada na média nacional. Enquanto na capital a cifra era de R$ 2.407, a quantia para o restante do país ficou em R$ 1.337.

Em 2017, a média da capital era maior: R$ 2.527 – duas vezes maior que a do Brasil, de R$ 1.285. Mesmo com a queda entre um ano e outro, o índice da capital continua na liderança da maior renda per capita por unidade da Federação.

O rendimento médio mensal do DF também é maior que a média nacional apontada pelo IBGE. Em 2018, para a capital, o índice era de R$ 3.908, enquanto o número registrado para todo o país era de R$ 2.166. Já em 2017, o valor para a capital foi quase duas vezes maior: R$ 4.087, contra R$ 2.107.

Contraste social

Moradora de um dos bairros mais nobres do Distrito Federal, a jornalista Liz Elaine Lôbo, 53 anos, vive em uma casa no Lago Sul, onde mora sozinha. Sem filhos, ela relata que boa parte dos 12 salários mínimos (cada salário vale R$ 998) que recebe mensalmente sobra ao final do mês, para atividades de lazer.

“Meu trabalho é home office. Tenho uma equipe comigo, de cinco pessoas. Então, consigo pagar todos certinho, e sobra dinheiro para mim”, afirma. “Gasto mais com alimentação, porque como fora nos finais de semana com a minha mãe, e com viagens”, completa.

Ao Metrópoles, ela conta que é diretora de uma revista que cobre eventos em embaixadas. “Mas quando não está tendo nada, no fim da tarde eu gosto de caminhar, já que saí da academia”, afirma.

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Liz gosta de caminhar no Pontão do Lago Sul aos finais de tarde

 

O dia a dia de Liz e de outros moradores de áreas como o Lago Sul, no entanto, contrasta com a realidade de moradores de regiões mais distantes do Plano Piloto, como é o exemplo do Paranoá.

Na Quadra 8 dessa cidade, vive a família de Maria das Graças de Souza, 54 (foto em destaque). Dona de casa, ela trabalhava como empregada doméstica no Plano Piloto há três anos. Com a mudança de cidade dos patrões, porém, dona Maria ficou desempregada e, agora, é sustentada pela filha e pelo genro.

“Trabalhei na W3 faz uns três anos, em casa de família, mas a mulher se mudou pra São Paulo. Eu ainda corri atrás de trabalho, mas não apareceu mais nem uma diariazinha para eu fazer”, lamenta.

Devido às dificuldades financeiras, a dona de casa recebe ajuda da igreja que frequenta. “Eles me trazem uma cestinha todo mês. Se não fosse essa ajuda, a gente passava fome”, diz.

Sua filha, Maria de Lurdes, 29, trabalha vigiando carros no Lago Norte, mas conta que o dinheiro recebido não é suficiente para pagar as contas do mês. “Não tem nem como medir o salário, porque tem vezes que recebo só R$ 15 no dia”, conta.

Com quatro filhos, Maria de Lurdes precisa gastar tudo que recebe com aluguel da casa, vestuário e alimentação das crianças. “Tem leite, fralda. Mas, hoje mesmo, só recebi R$ 20 vigiando carro. Disso ainda tenho que tirar a passagem. Então, no final do mês, nós nem chegamos a ter um salário mínimo”, afirma.

 

Há algumas quadras de distância, Benedita Nogueira Pereira, 60, vive uma realidade parecida com a da família de Maria. No início deste mês de outubro, ela foi demitida do trabalho de gari. Faltando menos de dois anos para se aposentar, ela agora paga as contas com o valor que ainda recebe do antigo emprego.

“A empresa prometeu que iria contratar a gente, mas ficamos todos de fora, todos que estavam próximos de aposentar, sendo que eu tenho contas pra pagar: água, luz, telefone, IPTU…”, narra.

Com uma filha e uma neta para sustentar, o salário mínimo que recebia a ajudava a pagar as contas. A partir de agora, a dúvida quanto ao sustento da família assola dona Benedita. “Estamos vivendo com o dinheiro que eu ainda recebi nesse mês e os tíquetes, que ajudam. Agora é esperar pra ver se pagam nossos direitos, porque eu tinha oito anos nesse emprego, e faltava um ano e meio pra me aposentar”, diz.

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Benedita recebia um salário mínimo por mês, mas foi demitida do emprego no início de outubro

 

Também na dificuldade do desemprego, José Raimundo dos Santos, 56, garante a alimentação e a moradia por meio do salário da esposa, que é empregada doméstica. “Eu tive um AVC [acidente vascular cerebral] há cinco anos e, desde que aconteceu, estou sem emprego e procurando alguma coisa”, relata.

Dono de um bar há oito anos, ele conta que nem o estabelecimento tem ajudado com as finanças da família. “É muito devagar, não vende quase nada, porque ninguém tem dinheiro aqui. A situação tá difícil pra todo mundo, não tem emprego para as pessoas, né?”, comenta.

Além disso, o salário mínimo que a esposa recebe não paga todas as contas. “Ainda devo R$ 2 mil de contas de água e de luz. Estou comendo em restaurante do governo onde a refeição custa R$ 1, porque está difícil demais. Mas vamos empurrando com a barriga.”

Por região administrativa

A distribuição do rendimento domiciliar dentro do Distrito Federal é medida pela Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (Pdad), divulgada pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan).

De acordo com a pesquisa de 2018, a maior parte dos moradores do Plano Piloto recebia mais de 20 salários mínimos, ou seja, R$ 19.080 – calculado pelo valor mensal de 2018, de R$ 954.

O valor é pelo menos seis vezes maior que a renda mensal de moradores do Varjão, por exemplo. Na região administrativa, 40,8% da população recebiam, no ano passado, entre dois e cinco salários mínimos – de R$ 1.908 a R$ 4.770. O mesmo acontece em outros locais, como Brazlândia, Planaltina e Recanto das Emas.

A Pdad divide o DF em quatro grupos. O primeiro, de alta renda, inclui Plano Piloto, Jardim Botânico, Lago Norte, Lago Sul, Park Way e Sudoeste/Octogonal. Considerado de média-alta renda, o grupo 2 engloba Águas Claras, Candangolândia, Cruzeiro, Gama, Guará, Núcleo Bandeirante, Sobradinho, Sobradinho II, Taguatinga e Vicente Pires.

No grupo 3, de média-baixa renda, estão Brazlândia, Ceilândia, Planaltina, Riacho Fundo, Riacho Fundo II, SIA, Samambaia, Santa Maria e São Sebastião. O último grupo, considerado de baixa renda, é formado por Fercal, Itapoã, Paranoá, Recanto das Emas, SCIA–Estrutural e Varjão.

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