Confiança no comércio cai motivada pela redução na renda dos trabalhadores

O fim do auxílio emergencial foi um dos motivos apontados pelo Icom, da Fundação Getúlio Vargas, para a piora da confiança no setor

atualizado 27/01/2021 13:40

O Índice de Confiança do Comércio (Icom), divulgado nesta quarta-feira (27/1) pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta uma tendência de queda nas vendas em 2021. A piora é influenciada pela diminuição na renda dos trabalhadores provocada pela pandemia do novo coronavírus e o fim do auxílio emergencial, que socorreu até dezembro pessoas afetadas financeiramente pela crise na saúde.

É a quarta queda consecutiva no indicador, que busca avaliar o otimismo do setor com as condições dos negócios, e consolida uma tendência já observada no fim do ano passado.

“A cautela dos consumidores, o fim dos programas emergenciais do governo, e a lenta recuperação do mercado de trabalho contribuem para essa piora, principalmente quando se trata de revendedores de bens não essenciais”, explicou Rodolpho Tobler, coordenador da sondagem do comércio do FGV Ibre.

O economista André Perfeito, da Necton, reforça essa avaliação. “Muito provavelmente as vendas abaixo do esperado têm ligação direta com uma queda geral da renda da população. Há algum tempo temos alertado para os efeitos deletérios que o fim do auxílio emergencial, por exemplo, poderia ter sobre o nível geral dos negócios, e esses primeiros dados de 2021 parecem confirmar nossa intuição”, afirmou.

O auxílio emergencial injetou R$ 300 bilhões na economia em 2020, atendendo 69 milhões de pessoas. O governo pagou  R$ 600 num período de cinco meses, depois de R$ 300 por quatro meses.  O benefício, contudo, foi interrompido em dezembro mesmo com a pandemia ainda em curso, sob a alegação de que não há mais caixa para suportá-lo.

O presidente Jair Bolsonaro enfrenta pressão da área política e do mercado para renovar a ajuda – é também é de seu interesse direto, por ter como efeito previsto aumentar sua popularidade em 2020. Nesta semana, o ministro da Economia, Paulo Guedes, sinalizou que pode apresentar uma nova proposta de auxílio, desde que haja cortes de outras despesas, como em saúde, educação e segurança, e citou congelamento dos salários de servidores por dois anos como um exemplo.

O economista André Perfeito observou que, nesse contexto, “nunca uma eleição para a Câmara e o Senado foram tão importantes”. Na próxima segunda-feira (1º/2), o Congresso vai escolher quem irá comandar as duas Casas Legislativas no biênio 2021-2022. A discussão sobre o novo auxílio emergencial passa necessariamente pelo Congresso.

“Se de um lado os empresários seguem otimistas com o futuro, e suas expectativas se ancoram na perspectiva de dias melhores seja por conta da vacina, seja por conta de uma prometida continuidade nos ajustes econômicos, seja porque simplesmente não acreditam que não dá para piorar, por outro lado sabemos que de boas intenções o inferno está cheio.”

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