Dos filmes para a vida real. Conheça os detetives particulares do DF
Regulamentação da atividade, traições, tecnologia, casos marcantes. Saiba como é a rotina dos investigadores privados
atualizado
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Se você pensa em começar um caso fora do casamento ou usar drogas escondido dos pais ou quem sabe ainda entregar informações da empresa em que trabalha, cuidado. Alguém pode estar de olho no que anda aprontando. Pode parecer coisa de filme ou novela, mas os detetives particulares existem. E são muito procurados.
Basta uma pesquisa rápida na internet para ver que diversos profissionais atuam no Distrito Federal. Mas poucos conhecem a rotina de trabalho dos investigadores particulares.
Edison Arnold começou a fazer investigações em 1989 e é um dos mais antigos detetives em atividade no DF. De lá para cá, muita coisa mudou, mas o principal motivo de busca dos clientes ainda é o mesmo: infidelidade conjugal. “Em torno de 70% dos casos, investigamos maridos ou esposas que supostamente traem o parceiro. Em média, recebo uns três serviços desse tipo por semana”, conta.
Uma vez que a situação é trazida ao escritório – Arnold prefere falar ao vivo com os clientes-, o detetive explica os métodos de ação. “Costumo dizer que o ideal é acompanhar o suspeito por, pelo menos, uma semana. Nesse tempo, instalamos equipamentos de GPS ou mesmo de escuta no veículo do suspeito e passamos a segui-lo”, relata.
Durante a investigação, funcionários da agência fazem o acompanhamento, seja de carro, seja de moto ou mesmo a pé. Enquanto isso, outro detetive segue o carro por meio de um aplicativo no computador. Todos os passos são registrado por fotos, vídeos e relatórios. “Tudo tem que ser mostrado claramente. Assim, mesmo que não haja traição, mostramos que o trabalho foi realizado”, explica Arnold.
Mas, no final, o desfecho costuma ser o mesmo: “Sete entre 10 casos acaba em flagrante”. Detetive há 11 anos em Brasília, Sérgio Barros conta que, diferentemente do que se pensa, a confirmação quase nunca acontece em motéis. “Os amantes normalmente se encontram na hora do almoço, saem para comer juntos, trocam carícias, beijos. A maioria dos clientes fica satisfeito com essas provas. Apenas alguns insistem para provarmos que houve sexo entre os investigados”, revela.
Não é só adultério
Apesar de a maioria dos casos ser de traição, os detetives realizam outras tarefas. “Cuidamos de casos empresariais, quando algum funcionário lesa a empresa, de pessoas desaparecidas e várias situações de pais que querem ficar de olho nos filhos para ver se eles estão andando com más companhias, usando drogas, faltando aulas”, enumera Arnold.

Quanto ao limite de atuação, o detetive Edilmar Lima, que investiga casos há 20 anos, explica que o trabalho é complementar ao policial e da Justiça. “Existe uma grande procura por nossos serviços para ajudar na produção de provas para o cliente ingressar com ações judiciais. Localizar um endereço de um devedor, de uma testemunha”.
Em alguns casos, a ajuda se faz até mesmo necessária. “Evitamos nos envolver, mas quando as provas são levadas à Justiça, eventualmente somos chamados para depor. Nessas situações, pedimos ao advogado do cliente para fazermos o depoimento em sigilo para manter nossa integridade”, afirma o detetive Arnold.
Regulamentação
Além dos problemas diários, os detetives atualmente lutam também em outra causa: a regulamentação da atividade.
Apesar de ser reconhecida há décadas, o marco regulatório da profissão pouco avançou. “A principal lei é a 3.099 de 1957, que estabelece regras para estabelecimentos particulares. Além disso, somos reconhecidos no Código Brasileiro de Ocupações, do Ministério do Trabalho. Isso permite trabalharmos de carteira assinada, por exemplo, mas não impede que profissionais duvidosos abram uma empresa”, explica o detetive.
A saída para evitar serviços de má qualidade, segundo o detetive, é a aprovação da Lei 106/2014, que regulamentaria a atividade. O projeto já passou por comissões da Câmara e se encontra na Mesa Diretora do Senado, à espera de ser votada em plenário. “Com a aprovação, algumas situações podem ser evitadas, como termos de explicar a policiais que estamos trabalhando e não perseguindo pessoas”, brinca Barros.
Investigação tecnológica
Enquanto aguardam a regulamentação da atividade, esses profissionais precisam se reciclar, uma vez que os novos métodos de investigação são cada vez mais sofisticados. “Quem não se atualiza, acaba para trás”, afirma Barros. O detetive investe pesado em itens tecnológicos. A última aquisição foi um drone com câmera de alta resolução usado, principalmente, para localizar itens roubados ou perdidos. “Um cliente meu vendeu um caminhão, mas não recebeu o pagamento. Fomos até a casa do suspeito, uma chácara grande. Como não podia entrar no local, usei o equipamento e logo visualizei o veículo”, conta.

Apesar de estar há mais tempo no mercado, Arnold também não abre mão dos gadgets. No escritório, ele conta com toda sorte de utensílios com câmeras, incluindo gravatas, bonés, canetas, relógios, rádios, tomadas, além de outros com gravadores.
Mas o item mais usado, segundo ele, é o rastreador GPS, que pode ser colocado dentro ou mesmo fora do carro, preso por um imã. “Um programa de computador mostra a localização exata do automóvel. Assim, podemos seguir os suspeitos com uma certa distância, sem sermos notados”, explica.
Até mesmo aplicativos mais recentes já são usados. Os serviços de transporte individual, por exemplo, ajudam em investigações. “Assim podemos usar carros variados e até terceirizar algumas ações”, conta Edilmar Lima.
Perigoso e caro
Apesar das diferenças de métodos, todos os entrevistados disseram a mesma frase: “Ser detetive não é para qualquer um”. A coragem e o preparo estão entre as qualidades ressaltadas para que um profissional da área tenha sucesso. “Existem cursos teóricos que são importantes. Mas a maior parte da atividade está na prática diária”, conta Barros. Mesmo com uma equipe de três profissionais a seu serviço, ele faz questão de ir para rua. “Sem isso, não tem graça”, brinca.
Mas os riscos existem. Afinal, normalmente, alguém sai decepcionado ao final do serviço. “No começo, eu entregava uma segunda via do contrato para o cliente. Mas uma vez, um marido que traía encontrou o documento e veio me ameaçar. Tive que explicar que não era eu o culpado. Desde então, faço a cópia, mas deixo aqui. No fim do trabalho, destruo o arquivo na frente do cliente”, explica Arnold.
Para compensar os perigos, os serviços de investigação particular não saem muito barato. “Depende de cada situação, mas em média, um acompanhamento de uma suspeita de traição por uma semana custa em torno de R$ 3,5 mil. Casos empresariais, que exigem mais tempo de trabalho, saem mais caros, até R$ 20 mil”, afirma Arnold, que atende cerca de três clientes por semana.
Na empresa de Barros, os casos de traição custam um pouco mais, em torno de R$ 8 mil. Ainda assim, segundo ele, a procura é grande. “Ás vezes, recebo seis contatos em uma semana e tenho que pedir para voltarem a ligar na semana seguinte.”
Um profissional, uma história
Entre as vantagens da profissão estão as inúmeras histórias pitorescas que cada um já se envolveu. O Metrópoles pediu para que os entrevistados contassem como se tornaram detetives e um caso marcante.
Padre em fuga
Edison Arnold sempre gostou de filmes de espião e depois de atuar como policial por um tempo, decidiu investir nos próprios casos. O mais emblemático aconteceu há vários anos, mas não sai da memória do investigador.
“Fui contratado para seguir um padre que, supostamente, estava tendo um caso amoroso. Seguimos ele por dias e percebemos que, de fato, ele se encontrava com uma mulher. Certa vez, acompanhamos o suspeito até um motel. Era por volta de 16h quando entrou. Após horas de espera, percebi que ele notou que estava sendo seguido, mas continuei lá. Às 21h, vi o carro dele sair a toda velocidade e simplesmente entrar em um matagal. Não segui, pois já tinha feito fotos na entrada. Anos depois, descobri que o contratante, que achava ser um bispo, era na verdade um rapaz que tinha ciúme do padre e que, infelizmente, morreu pouco tempo após a investigação.”
Amante desconfiado
Sérgio Barros tem hoje um dos sites que oferecem serviços de detetive mais procurados no DF. Ele acredita que todo mundo tem um pouco de detetive e desde os tempos da escola resolve pequenos casos. Mas foi há 11 anos que começou a fazer cursos, participar de fóruns e se dedicar profissionalmente ao ramo.
“Normalmente, são os casados que nos buscam. Mas uma vez, um cliente veio até a mim pelo motivo contrário. Ele era amante de uma mulher, mas desconfiava que o marido dela estava investigando o caso. O rapaz estava preocupado porque não conseguia ver a amada e então me pediu para monitorar o esposo traído enquanto marcava encontros. Durante uma semana, ele conseguiu vê-la várias vezes e matar a saudade. Depois disso, não sei exatamente o que aconteceu.”
Falso abuso
Edilmar Lima já é detetive há 20 anos e a profissão começou em família. Ainda adolescente, ele ajudou um primo que suspeitava da namorada. A moça realmente traía o parente. Tristeza para o primo, mas felicidade para Lima, que iniciou ali sua carreira.
“O que mais me intrigou por um bom tempo foi o caso de uma moça que acusava o padrasto de ter abusado dela sexualmente. Logo no início, percebi que a história não se sustentava. Coloquei um agente infiltrado nos locais que ela costumava frequentar e não demorou muito para conseguirmos arrancar a verdade. A jovem havia inventado aquela situação porque o padrasto a proibia de sair com os amigos, pois era muito zeloso. Segundo a garota, isso a deixava sem poder fazer nada”
