Cotinha da segurança: vizinhos se unem para comprar câmeras

Iniciativa é adotada por moradores de diferentes regiões do Distrito Federal por medo da violência

atualizado 25/11/2019 8:13

Igo Estrela/Metrópoles

Com medo da criminalidade, moradores do Distrito Federal estão se mobilizando para aumentar a segurança onde moram. Vizinhos têm se unido a fim de buscar soluções para resguardar suas residências. Além de grupos de WhatsApp, buscam cotizar valores para instalar câmeras de vigilância nas ruas. Medida antes comum apenas em bairros nobres, ela começa a ser adotada em diferentes regiões da capital da República.

Assustados com os números de roubo a transeunte (14.517 no primeiro semestre de 2019) e a residência (225 no mesmo período) no DF, moradores do Conjunto C, da Chácara 86, do Sol Nascente (Ceilândia), instalaram o sistema de vídeo há pouco mais de três meses. “Aqui roubavam pessoas saindo de casa para trabalhar às 5h da manhã. Depois das câmeras, começou a ficar mais tranquilo”, conta o marceneiro Abílio Félix Araújo, 58 anos.

Ele foi o responsável pela mobilização dos vizinhos. A ideia, conta Abílio, veio após uma conversa com o sobrinho. “Ele me disse que conseguiria instalar, que era uma boa ideia. Falei com o pessoal aqui da rua, fiz um orçamento e colocamos nove câmeras”, explica. Pelo próprio celular, ele consegue fazer o monitoramento da área.

Segundo o marceneiro, os equipamentos têm ajudado na diminuição de ocorrências e na solução de crimes. “Teve uma vez que passamos as imagens para a polícia. Mostravam com quem o suspeito de assassinato saiu e a que horas voltou para casa. A partir daí conseguiram confirmar que foi ele [o autor do homicídio]”, revela.

No entanto, Abílio diz que essa não é a única precaução que ele toma: “Na minha casa, eu tenho um portão que não dá para ver nada de fora para dentro.”

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Vigilância

Em Samambaia Norte, os moradores do Conjunto 17 da QR 410 optaram por contratar uma empresa especializada em vigilância. “Está saindo R$ 25 por mês para os quase 20 moradores que aderiram à ideia”, diz a auxiliar de contabilidade Paula Renata de Jesus, 45 anos.

Depois de ouvir um ladrão correndo por cima do próprio telhado e ter notícia de duas tentativas de arrombamento de casas nas redondezas, ela resolveu conversar com os vizinhos para ver a receptividade da vaquinha para a compra e instalação do sistema de monitoramento. “Consegui organizar e, depois da implementação, ficou um pouco melhor. Pelo menos, dá para acompanhar meus filhos chegando de carro”, afirma.

Ainda assim, a região é perigosa, segundo a moradora. “Na nossa praça, sempre tem gente usando droga de manhã e na hora do almoço. Na última quarta-feira (20/11/2019), assaltaram a farmácia do final da rua. Levaram dinheiro e celular das pessoas”, lamenta.

O aposentado Norival Dias, 66, é um dos que aceitaram entrar no rateio. A casa dele terá duas câmeras apontadas para a entrada e garagem, quando a instalação dos mais de 10 equipamentos for concluída. “É pela nossa segurança”, resume. Apesar de gostar da ideia, ele não acha que as filmadoras são suficientes para acabar com crimes. “Seguro a gente não está, mas é bom dificultar. Boto sempre um cadeado ou ferrolho em todas as minhas portas.”

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Em Samambaia Sul, o uso de câmeras de segurança acontece há mais de dois anos. Em alguns conjuntos da QR 316, a atitude foi tomada após sucessivos assaltos ocorridos na região. “Depois que a gente colocou, diminuíram os problemas. O que teve a gente mandou para a polícia e foi resolvido”, afirma o autônomo Cícero Aparecido, 46.

Por lá, são 30 pessoas com acesso a 15 câmeras. Na época, o rateio saiu por R$ 235 para cada um. Hoje em dia, o custo é apenas da manutenção de uma empresa contratada. Todos têm acesso pelo celular,  além de duas pessoas que monitoram via computador 24 horas por dia. “Assim, dá para ficar mais tranquilo e deixar os netos correrem na rua”, brinca.

A diarista Neuza Terra, 48, aprova a atitude. “Eu me sinto mais segura. Qualquer movimentação, as pessoas já ficam alertas e mandam no nosso grupo de WhatsApp.”

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Iniciativa é positiva

De acordo com Leonardo Sant’Anna, especialista em segurança da Total Florida International, esse tipo de medida acontece em decorrência da falta de confiança da população no serviço público. “A partir daí, quando não há o atendimento pelo Estado, a pessoa muda o pensamento. Passa a ser de participação social”, explica.

“Antes, a atitude era individual, mas agora é no sentido de cotizar. Criam grupos no WhatsApp, dividem o preço das câmeras de segurança. A ideia é ter controle do que acontece ao redor de casa”, explica.

Julio Hott, professor de direito do UniCeub e especialista em segurança pública, diz que esse tipo de solução deixou de ser algo acessível apenas para a elite. “A tecnologia vem sendo popularizada. Então, como há a necessidade de se enfrentar a violência, a população se mobiliza para tentar inibir isso”, relata. Ele destaca também a possibilidade de cooperação com as autoridades policiais. “Esse sistema ajuda muito nas investigações e a aumentar os índices de resolução de crimes”, pontua.

Cadastramento

Procurada, a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP/DF) informou que é o órgão responsável pelo cadastro das atividades de segurança eletrônica e que, de acordo com a legislação vigente, “as empresas que prestam esse tipo de serviço ficam sujeitas a autorização, controle e fiscalização, por meio do Núcleo de Controle de Atividades Especiais (Nucae), da SSP/DF”.

O cadastramento precisa ser renovado anualmente e, antes de emitir o certificado de aptidão à prática de segurança eletrônica, a pasta realiza visita técnica na empresa solicitante para “verificar as condições da central de monitoramento e armazenamento de imagens”.

A secretaria destaca que sempre quando houver solicitação das forças de segurança, a empresa cadastrada é obrigada a fornecer imagens que auxiliem na elucidação de crimes, por exemplo. Outra exigência é a de que todas as imagens captadas pelas empresas devem ser armazenadas pelo prazo mínimo de 15 dias. No ato de cadastramento, também são exigidas Certidões Negativas Criminais (TRF/TJDFT) dos sócios, diretores e responsáveis por armas e munições.

A Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) disse que contratar empresas de segurança ou fixar câmeras em locais públicos é uma opção do cidadão e que “incentiva ações legais que coíbam atividades criminosas”. Uma das formas que a corporação usa para tentar se aproximar da tecnologia usada pelo cidadão é disponibilizar o número de WhatsApp dos batalhões. Veja abaixo:

Divulgação

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