Familiares se despedem de fuzileiro naval Miquéias Gabriel em Januária

Militar tinha 22 anos. Segundo parentes, autópsia apontou apendicite como causa da morte. Colegas culpam jornada extenuante

atualizado 20/01/2019 16:40

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Amigos e familiares do soldado Miquéias Gabriel Ferreira, de 22 anos, estão em Januária (MG) neste domingo (20/1) para velar e sepultar o corpo do militar da Marinha. Segundo parentes, o Instituto Médico Legal do Distrito Federal liberou os restos mortais no início da tarde de sábado (19), após autópsia. O translado para o município mineiro, contudo, só ocorreu na madrugada, atrasando a cerimônia de despedida marcada para acontecer na igreja onde o pai de Miquéias é pastor.

Como mostrou o Metrópoles, o soldado morreu na noite da última quinta-feira (17/1). Colegas de farda afirmam que o rapaz se queixava de problemas de saúde e não resistiu à pesada jornada de trabalho no Grupamento de Fuzileiros Navais de Brasília, que aumentou desde o fim do ano passado.

Praças que servem na mesma guarnição de Miquéias relataram estar submetidos, há mais de um mês, a uma rotina extenuante, com jornadas de trabalho de mais de 30 horas seguidas, alimentação escassa e pouco tempo de descanso.

Há cerca de um mês, as escalas foram alteradas para o modelo “um por um” na linguagem militar. O que significa, na prática, 30 horas consecutivas de trabalho – sendo 24 horas de “serviço” e seis do expediente regular. O intervalo entre elas é de 18 horas. A mudança foi necessária por conta das diversas cerimônias militares na capital do país, de acordo com a Marinha.

No início da tarde deste sábado (19/1), o comando do Grupamento de Fuzileiros Navais de Brasília disponibilizou um ônibus para levar os militares que desejassem acompanhar o sepultamento de Miquéias em Minas Gerais.

O texto, divulgado em grupos de WhatsApp, no entanto, destaca que ninguém será liberado para acompanhar as homenagens. “Os interessados não podem estar de serviço no domingo, uma vez que o ônibus partirá hoje [sábado] e retornará no domingo ou na segunda”, diz a mensagem.

Causa da morte
O corpo do soldado foi liberado por volta das 18h deste sábado, após passar por necrópsia. A Marinha do Brasil divulgou nota afirmando que “a certidão de óbito e o relatório da necrópsia serão entregues à família” e destacou que “não foi encontrada relação entre a causa da morte e as atividades realizadas pelo militar em serviço”.

Colegas de farda e familiares receberam, no entanto, um áudio de um amigo de Miquéias relatando que o soldado teria morrido em decorrência de uma apendicite.

A autópsia acabou de ser finalizada. A médica dele disse que o coração estava bom. O que aconteceu é que ele tinha uma variação anatômica e o apêndice dele não era no lugar normal. Então, o apêndice inflamou e como não era no lugar normal, ele não sentia dor localizada. Aí os médicos, administrando remédio para dor, sem fazer uma bateria de exames nem nada. O apêndice inflamou, estourou. E só descobriu, infelizmente, com a autópsia

Trecho da gravação de amigo de Miquéias

O amigo completa: “Desde o Natal, ele já estava se queixando dessas dores. E simplesmente aplicavam remédio para dor e febre e liberavam ele. Então, é isso. Nós perdemos nosso amigo de graça”.

Ouça:

Procurada pelo Metrópoles, a família de Miquéias não quis comentar o assunto. A Marinha informou que não estava autorizada a divulgar informações sobre o resultado da necrópsia.

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Circunstâncias do óbito

Também não há consenso sobre as circunstâncias da morte de Miquéias. Segundo os praças, o fuzileiro estava em trabalho, fazendo serviço de guarda, quando passou mal na última quinta-feira (17/1). “Ele foi na enfermaria do grupamento, mas não havia médico. Então, foi para casa. Piorou e foi para o Hospital Naval de Brasília, onde faleceu”, contou um colega.

Já a assessoria de imprensa do Comando do 7º Distrito Naval diz que Miquéias estava de licença médica. Em nota, a Marinha informou que, na última quarta-feira (16), “o militar procurou a enfermaria do Grupamento, no período matutino, relatando que no dia anterior havia ingerido uma ‘coxinha de frango’ e estava sentindo dores abdominais, solicitando um antiácido”.

Segundo o texto, “no mesmo dia, após ele ter sido licenciado, o militar, por meios próprios, buscou atendimento no Hospital Naval de Brasília, por volta das 18h40, onde foi atendido, medicado e liberado com as devidas orientações e prescrições médicas, recebendo, na oportunidade, uma dispensa domiciliar para repouso de dois dias corridos”.

A nota informa ainda que, na quinta-feira (17), por volta das 17h, “o militar regressou ao Hospital Naval de Brasília, ainda queixando-se de dores abdominais, sendo atendido no serviço de pronto-atendimento, onde foi novamente avaliado e medicado”. Foi quando, segundo a Marinha, o quadro de Miquéias piorou.

Durante o período em que estava recebendo a medicação, o militar sofreu uma parada cardiorrespiratória, por volta das 18h40. Imediatamente, a equipe médica do hospital iniciou os procedimentos de reanimação, utilizando todos os recursos possíveis na tentativa de reversão do quadro

Trecho da nota da Marinha sobre a morte de Miquéias

Ainda de acordo com a assessoria de imprensa do Comando do 7º Distrito Naval, “às 21h30, o militar teve seu óbito confirmado. Às 23h, o corpo do militar foi encaminhado para o Serviço de Verificação de Óbito do Distrito Federal para necrópsia e apuração da causa da morte”.

A Marinha também informou que “está prestando todas as informações e apoio social, religioso e psicológico à família do militar”.

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