Como 22 mil famílias com renda zero enfrentam o coronavírus no DF

A maioria vive em Ceilândia, Taguatinga e Estrutural. Essas pessoas só não passam fome graças a programas sociais e doações

atualizado 31/05/2020 12:36

Dona de casa na cozinhaHugo Barreto/Metrópoles

Muito antes do novo coronavírus, a pobreza extrema já castigava 22.850 famílias do Distrito Federal, cuja renda mensal não chega a um centavo. E a maioria só não passa fome porque sobrevive de doação ou programas sociais, como o Bolsa Família.

O levantamento integra o Cadastro Único da Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes). A maior parte dessas famílias reside em Ceilândia: 3.543. Na sequência, aparece Taguatinga, que abriga 2.023.

O terceiro posto desse amargo ranking é ocupado pela Estrutural, onde moram 1.803 famílias que enfrentam a miséria.

Ainda de acordo com o Cadastro Único, há ainda 77 mil famílias no DF sobrevivendo com renda de até R$ 89 por mês. Novamente, programas de assistência social e a caridade são a salvação desses lares.

A chegada da pandemia impediu a volta de Maria Rosalia, 44 anos, para o mercado de trabalho. A doença interrompeu o curso de capacitação profissional da moradora da favela de Santa Luzia, na Estrutural.

Dona de casa na cozinha
Saudade: Maria Rosalia não pode comemorar o aniversário junto com a irmã gêmea durante a pandemia

Mãe de quatro filhos, ela vive em um barraco com o companheiro. O Bolsa Família chega todo mês, mas não é suficiente para pagar as contas.

A Covid-19 a obrigou a deixar de ver os parentes, inclusive a irmã gêmea, Maria do Rosário. E no aniversário deste ano, para preservar a saúde, não se abraçaram. A saudade maltratou o coração.

Cada dia é uma luta

Para a dona Vivaldina Rosa Teixeira, 55, (foto em destaque) cada dia é uma nova batalha. Praticamente todo o dinheiro que consegue é investido nos cuidados do filho especial, um rapaz de 18 anos.

O companheiro faz bicos, porém, com a pandemia, o dinheiro restou ainda mais minguado. “Tudo ficou muito pior após a Covid-19”, lamentou a moradora de Santa Luzia.

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Nascida em Lavras (MG), ela tem problemas de saúde desde a infância e nunca teve chance de trabalhar. O maior desejo da dona de casa é ter uma vida justa e mais confortável, principalmente sem o assombro da fome.

Necessidade

O medo de faltar comida no prato dos filhos tira o sono do pintor Sebastião Oliveira, 56. Morador do Sol Nascente, ele diz que o último serviço que conseguiu fazer foi há dois meses. “Ninguém chama para mais nada. Bate um desespero, porque tem conta para pagar e comida para comprar”, desabafa o pai de quatro filhos.

Segundo o pintor, a família só não tem passado fome graças a iniciativas de organizações não governamentais (ONGs) que distribuem alimentos na região considerada a segunda maior favela do Brasil. “Se não fosse a solidariedade das pessoas, tem dia que não teríamos um pão para comer”, lamenta.

Socorro de emergência

Muitas dessas famílias têm recorrido a auxílios de emergência oferecidos pelo Poder Público. Um deles, do governo federal, apelidado de “coronavaucher”, paga R$ 600 a trabalhadores informais e desempregados.

Já o Governo do DF (GDF) lançou dois programas: o Renda Emergencial e o Cartão Parto Cheio. O primeiro dá R$ 408 para quem não estiver inscrito em outro programa social; já o segundo oferece benefício de R$ 160 (cesta básica) e R$ 90 (pão e leite), totalizando R$ 250, com uso restrito em estabelecimentos alimentícios.

Segundo a Sedes, aproximadamente 11 mil famílias pobres foram contempladas até o momento.

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