“Caso mais chocante da minha carreira”, diz promotor sobre chacina
Marcelo Leite também atuou como promotor no Crime da 113 Sul, que investigou as mortes do casal José e Maria Villela e de Francisca Silva
atualizado
Compartilhar notícia

Após o fim do julgamento do caso que ficou conhecido como a maior chacina do Distrito Federal, nesse sábado (19/4), Marcelo Leite, um dos promotores que atuaram no processo, descreveu o julgamento como um dos mais marcantes já realizados no DF, “tanto pela extrema violência quanto pelo número de vítimas”.
Para ele, o caso entra para a história pela brutalidade e pelas consequências trágicas.
Com anos de atuação no Tribunal do Júri, Marcelo Leite não hesitou ao dimensionar a gravidade do processo. “Eu já trabalho há muitos anos no Tribunal do Júri. Realmente foi o crime mais chocante de que já participei”, afirmou. Segundo ele, o julgamento foi atravessado por forte carga emocional.
“Acima de tudo, foi um julgamento que envolveu muito emocional, não só das famílias, como nosso também”, disse.
O promotor ressaltou o envolvimento direto do Ministério Público ao longo de todo o processo e avaliou o desfecho como uma resposta consistente da Justiça.
“A gente se envolveu muito no caso e estamos satisfeitos com o resultado. As penas foram muito bem colocadas. Então, ficamos com a sensação de dever cumprido”, declarou. Somadas, as penas dos réus envolvidos no extermínio de toda uma família chegam a 1.258 anos de prisão.
Marcelo leite foi o principal promotor do Crime da 113 Sul, que resultou no triplo homicídio do casal José e Maria Villela, pais de Adriana Villela, e da funcionária da família, Francisca Nascimento Silva. O caso foi um dos mais emblemáticos da capital da República e demorou 10 dias para ser julgado pelo Tribunal do Júri. Veja mais sobre o crime aqui.
Maior chacina do DF
Indagado sobre o ponto em que teve uma maior dificuldade para lidar com o julgamento dos réus, Leite informou que entre os momentos mais tensos do júri destaca o depoimento de Gideon Menezes, considerado o mandante do crime.
“Teve o interrogatório do Gideon, que tentou imputar a duas das vítimas mortas a responsabilidade pelo caso. Isso foi muito impactante”, disse. Apesar disso, o promotor afirmou que a acusação conseguiu sustentar sua versão. “Conseguimos mostrar que era mentira e os jurados acolheram nossa tese.”
A decisão envolvendo o réu Carlos Henrique também foi abordada. O homem foi absolvido da acusação de homicídio da vítima Thiago Belchior e condenado pelo sequestro do rapaz. A pena de Carlos foi estipulada em dois anos de prisão.
Questionado sobre a diferença na punição — alvo de críticas de familiares das vítimas —, o promotor explicou os limites da atuação no Tribunal do Júri. “Muitas vezes o jurado não concorda com a definição jurídica do fato. Tivemos votos a favor e contra, e acima de tudo respeitamos a soberania do veredito”, afirmou.
Segundo Marcelo Leite, a atuação de Carlos Henrique foi considerada pontual dentro da dinâmica dos crimes. “Ele entrou no caso de uma forma específica, não participou desde o início. Entendemos que ele tinha responsabilidade por ter sequestrado a vítima e a entregue aos demais envolvidos”, explicou.
Ainda assim, reconheceu: “Os jurados entenderam que essa prova não foi suficiente.”
Ao final, o promotor reforçou que o Ministério Público ainda avalia os próximos passos. “Estamos dentro do prazo e vamos analisar se há viabilidade e chance de êxito em um eventual recurso”, concluiu.
Tribunal do Júri
O Tribunal do Júri da chacina teve início na segunda-feira (13/4) e durou seis dias. O julgamento já é considerado o segundo mais longo da história da capital, atrás apenas do júri do caso que ficou conhecido como o Crime da 113 Sul, que se estendeu por 10 dias.
No total, os jurados ouviram 18 testemunhas ao longo de uma semana, os cinco réus e quase 7h de debate entre defesa e Ministério Público.
Os réus responderam por homicídio qualificado, latrocínio, ocultação de cadáver, extorsão mediante sequestro, associação criminosa qualificada e corrupção de menor.
Entenda o caso
- Entre outubro de 2022 e janeiro de 2023, os acusados se associaram para tomar a chácara Quilombo, no Itapoã (DF), e também para obter dinheiro da família de Marcos Antônio Lopes de Oliveira. O plano inicial previa matar Marcos e sequestrar seus familiares.
- Em 27 de dezembro de 2022, parte do grupo foi à casa da vítima, rendeu Marcos, a esposa e a filha, e roubou cerca de R$ 49,5 mil. As três vítimas foram levadas para um cativeiro no Vale do Sol, em Planaltina (DF), onde Marcos foi morto e enterrado.
- No dia seguinte, as mulheres foram ameaçadas e obrigadas a fornecer senhas de celulares e contas bancárias. Com os aparelhos, os criminosos passaram a se passar pelas vítimas para atrair outros familiares.
- Entre 2 e 4 de janeiro, a ex-esposa de Marcos, Cláudia da Rocha, e a filha Ana Beatriz foram atraídas, rendidas e levadas ao mesmo cativeiro.
- O grupo decidiu matar Thiago, filho de Marcos, e o atraiu ao local em 12 de janeiro. Ele também foi rendido e mantido em cárcere. Com acesso ao celular de Thiago, os criminosos atraíram a esposa dele, Elizamar, junto com os três filhos do casal.
- Eles foram levados a Cristalina (GO), onde foram mortos. Os corpos foram queimados dentro do carro da vítima. Em seguida, os acusados decidiram matar as demais vítimas para evitar que os crimes fossem descobertos.
- Renata e Gabriela foram levadas a Unaí (MG), onde foram mortas e tiveram os corpos queimados. Depois, Cláudia, Ana Beatriz e Thiago também foram assassinados e tiveram os corpos escondidos em uma cisterna.
- Após os crimes, parte do grupo incendiou objetos das vítimas para dificultar as investigações.
Disputa por terreno de R$ 2 milhões
Um terreno no Itapoã (DF), avaliado em R$ 2 milhões, teria motivado os assassinos a arquitetarem a morte de 10 pessoas. O local tem cachoeira privativa, ampla área de pastagem de gado e cerca de cinco hectares – equivalentes a 50 mil metros quadrados.
O plano seria assassinar toda a família e tomar posse do imóvel, sem deixar nenhum herdeiro vivo. O terreno, no entanto, sequer pertencia à vítima, o patriarca da família, Marcos Antônio Lopes de Oliveira, o primeiro a ser brutalmente morto. A chácara era alvo de disputa judicial desde 2020, na qual os verdadeiros donos tentam recuperar a área.
Veja imagens do local antes da invasão
Veja imagens do local após a invasão
Os integrantes da família foram atraídos para emboscadas e assassinados um a um. São eles:
- Marcos Antônio Lopes de Oliveira – patriarca.
- Renata Juliene Belchior – esposa de Marcos.
- Gabriela Belchior de Oliveira – filha do casal.
- Thiago Gabriel Belchior de Oliveira – filho do casal.
- Elizamar da Silva – esposa de Thiago.
- Rafael (6 anos), Rafaela (6) e Gabriel (7) – filhos de Thiago e Elizamar.
- Cláudia da Rocha Marques – ex-companheira de Marcos.
- Ana Beatriz Marques de Oliveira – filha de Marcos e Cláudia.
Execução do crime
A primeira ação ocorreu em 27 de dezembro de 2022, quando Marcos, a esposa dele, Renata, e a filha Gabriela foram rendidos dentro de casa. O grupo roubou R$ 49,5 mil das vítimas e levou os três para um cativeiro em Planaltina. Marcos foi morto logo depois, enquanto as duas permaneceram vivas.
A partir daí, os criminosos passaram a usar os celulares das vítimas para se passar por elas e atrair outros integrantes da família. Nos dias seguintes, Cláudia e Ana Beatriz foram enganadas, sequestradas e levadas ao mesmo cativeiro.
Depois, o grupo atraiu Thiago, filho de Marcos, que também foi rendido. Com acesso ao celular dele, os criminosos chegaram até a esposa de Thiago, Elizamar, que foi atraída junto com os três filhos pequenos do casal.




















































