Chacina: promotor considera condenações como “resposta à sociedade”
Somadas, as penas dos cinco réus envolvidos no extermínio de 10 pessoas de uma mesma família chegam a 1.258 anos de prisão.
atualizado
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Após seis dias de júri do caso que ficou conhecido como a maior chacina do Distrito Federal, o promotor Nathan Neto, à frente do processo, considerou o desfecho do julgamento como uma “resposta à sociedade“. Somadas, as penas dos cinco réus envolvidos no extermínio de 10 pessoas de uma mesma família chegam a 1.258 anos de prisão.
Para o representante do Ministério Público, a decisão do júri atendeu às expectativas da instituição. “Podemos dizer que o Ministério Público satisfez as suas expectativas. A sociedade respondeu à altura dos crimes praticados. Estamos contentes com o resultado”, afirmou. Ele também reforçou o respeito à decisão dos jurados:
“Respeitamos a decisão e acreditamos que a justiça foi feita no caso”, pontuou.
O promotor ressaltou que o resultado do julgamento é reflexo de um trabalho coletivo. Ele também atribuiu as condenações a uma união firme de esforços entre o Ministério Público e Polícia Civil do DF.
“O Ministério Público se empenhou desde o início das investigações buscando cooperar com a polícia. Montamos uma operação, fizemos uma força-tarefa e unimos esforços para dar uma resposta à sociedade, uma resposta digna e à altura do mal praticado”, declarou.
Perguntado sobre a condenação do réu Carlos Henrique apenas por roubo e absolvição pela morte de uma das vítimas, Nathan explicou que o Tribunal do Júri acolheu uma tese apresentada pela defesa. Ainda assim, avaliou que o resultado está de acordo com a legislação.
“Não temos motivos para duvidar da justiça dessa decisão. Dentro da culpabilidade e do que ele praticou, ele recebeu uma resposta satisfatória, prevista em lei”, pontuou.
Sobre a motivação do crime, o promotor destacou a dificuldade de apontar um único fator determinante, mas afirmou que a tese apresentada na denúncia foi comprovada durante o processo.
“A motivação indicada foi devidamente comprovada. Há, sim, relação com a questão da propriedade rural ocupada pela vítima e sua família, e isso foi reconhecido pelos jurados”, concluiu.
Penas somadas chegam a 1.258 anos
A sentença condenatória dos réus foi proferida nesse sábado (18/4), mais de três anos após a execução do crime bárbaro ocorrido entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023. Os cinco homens responderam pelo envolvimento no extermínio de 10 integrantes de uma mesma família.
Confira os crimes pelos quais os envolvidos foram condenados:
Gideon Batista de Menezes: apontado como o mentor do crime, Gideon foi condenado por 10 homicídios qualificados, ocultação e destruição de cadáver, corrupção de menores, sequestro e cárcere privado, extorsão mediante sequestro, constrangimento ilegal com uso de arma, associação criminosa e roubos.
A pena total estipulada a ele foi de 397 anos, oito meses e quatro dias de reclusão.
Horácio Carlos Ferreira Barbosa: considerado a segunda mente por trás dos crimes, Horácio foi condenado por 10 crimes de homicídio qualificado, ocultação e destruição de cadáver, corrupção de menores, extorsão mediante sequestro, sequestro e cárcere privado, constrangimento ilegal com uso de arma, associação criminosa, roubos e fraude processual.
No total, ele deverá cumprir 300 anos, seis meses e dois dias de reclusão.
Carlomam dos Santos Nogueira: segundo o Ministério Público, Carlomam teve participação direta nos sequestros e nas mortes. Ele foi condenado por 10 homicídios, extorsão mediante sequestro, corrupção de menor, ocultação e destruição de cadáver, sequestro e cárcere privado, ameaça com uso de arma, associação criminosa, constrangimento ilegal com uso de arma e roubos.
A pena determinada a Carlomam foi de 351 anos, um mês e quatro dias de reclusão.
Fabrício Canhedo Silva: condenado por cinco homicídios qualificados, extorsão mediante sequestro, ocultação e destruição de cadáver, corrupção de menores, associação criminosa, roubos, corrupção de menores e fraude processual.
A pena definida para Fabrício foi de 202 anos, seis meses e 28 dias de reclusão.
Carlos Henrique Alves da Silva: condenado por sequestro. Pena estipulada em 2 anos de reclusão.
Retrospectiva do Júri
O julgamento teve início na segunda-feira (13/4), por volta das 10h, e se estendeu até as 20h. Foram ouvidos depoimentos de seis testemunhas naquele dia.
Segundo dia: na terça-feira (14/4), 12 testemunhas, entre familiares e policiais que atuaram no caso, foram ouvidas no local até as 21h.
Terceiro e quarto dia: os réus prestaram depoimentos, na quarta (15/4) e quinta-feira (16/4), detalhando como foi a participação de cada um no crime.
Quinto dia: defesa e Ministério Público tiveram espaço para debater teses e acusações. Cada um teve 3h20 para discursar.
Sexto dia: após 11h de votação de 500 quesitos, jurados definiram a participação de cada um dos réus na empreitada criminosa. Em seguida, a sentença foi redigida e lida em plenário.
Entenda o caso
- Entre outubro de 2022 e janeiro de 2023, os acusados se associaram para tomar a chácara Quilombo, no Itapoã (DF), e também para obter dinheiro da família de Marcos Antônio Lopes de Oliveira. O plano inicial previa matar Marcos e sequestrar seus familiares.
- Em 27 de dezembro de 2022, parte do grupo foi à casa da vítima, rendeu Marcos, a esposa e a filha, e roubou cerca de R$ 49,5 mil. As três vítimas foram levadas para um cativeiro no Vale do Sol, em Planaltina (DF), onde Marcos foi morto e enterrado.
- No dia seguinte, as mulheres foram ameaçadas e obrigadas a fornecer senhas de celulares e contas bancárias. Com os aparelhos, os criminosos começaram a se passar pelas vítimas para atrair outros familiares.
- Entre 2 e 4 de janeiro, a ex-esposa de Marcos, Cláudia da Rocha, e a filha Ana Beatriz foram atraídas, rendidas e levadas ao mesmo cativeiro.
- O grupo decidiu matar Thiago, filho de Marcos, e o atraiu ao local em 12 de janeiro. Ele também foi rendido e mantido em cárcere. Com acesso ao celular de Thiago, os criminosos atraíram a esposa dele, Elizamar, junto com os três filhos do casal.
- Eles foram levados a Cristalina (GO), onde foram mortos. Os corpos foram queimados dentro do carro da vítima. Em seguida, os acusados decidiram matar as demais vítimas para evitar que os crimes fossem descobertos.
- Renata e Gabriela foram levadas a Unaí (MG), onde foram mortas e tiveram os corpos queimados. Depois, Cláudia, Ana Beatriz e Thiago também foram assassinados e tiveram os corpos escondidos em uma cisterna.
- Após os crimes, parte do grupo incendiou objetos das vítimas para dificultar as investigações.
Disputa por terreno de R$ 2 milhões
Um terreno no Itapoã (DF), avaliado em R$ 2 milhões, teria motivado os assassinos a arquitetarem a morte de 10 pessoas. O local tem cachoeira privativa, ampla área de pastagem de gado e cerca de cinco hectares – equivalentes a 50 mil metros quadrados.
O plano seria assassinar toda a família e tomar posse do imóvel, sem deixar nenhum herdeiro vivo. O terreno, no entanto, nem sequer pertencia à vítima, o patriarca da família, Marcos Antônio Lopes de Oliveira, o primeiro a ser brutalmente morto. A chácara era alvo de disputa judicial desde 2020, na qual os verdadeiros donos tentam recuperar a área.
Veja imagens do local antes da invasão
Veja imagens do local após a invasão
Os integrantes da família foram atraídos para emboscadas e assassinados um a um. São eles:
- Marcos Antônio Lopes de Oliveira – patriarca.
- Renata Juliene Belchior – esposa de Marcos.
- Gabriela Belchior de Oliveira – filha do casal.
- Thiago Gabriel Belchior de Oliveira – filho do casal.
- Elizamar da Silva – esposa de Thiago.
- Rafael (6 anos), Rafaela (6) e Gabriel (7) – filhos de Thiago e Elizamar.
- Cláudia da Rocha Marques – ex-companheira de Marcos.
- Ana Beatriz Marques de Oliveira – filha de Marcos e Cláudia.
Execução do crime
A primeira ação ocorreu em 27 de dezembro de 2022, quando Marcos, a esposa dele, Renata, e a filha Gabriela foram rendidos dentro de casa. O grupo roubou R$ 49,5 mil das vítimas e levou os três para um cativeiro em Planaltina. Marcos foi morto logo depois, enquanto as duas permaneceram vivas.
A partir daí, os criminosos passaram a usar os celulares das vítimas para se passar por elas e atrair outros integrantes da família. Nos dias seguintes, Cláudia e Ana Beatriz foram enganadas, sequestradas e levadas ao mesmo cativeiro.
Depois, o grupo atraiu Thiago, filho de Marcos, que também foi rendido. Com acesso ao celular dele, os criminosos chegaram até a esposa de Thiago, Elizamar, que foi atraída junto com os filhos.




















































