Casal gay realiza fertilização com óvulo doado por parente após mudança em lei

Robert e Gustavo terão gêmeos gerados pela prima de Gustavo, com óvulo da irmã dele. Medida foi possível após nova resolução do CFM

atualizado 18/09/2021 12:00

Robert Rosselló e Gustavo CatundaGustavo Moreno/Especial Metrópoles

Casados há 10 anos, os engenheiros civis Robert Rosselló, 31 anos, e Gustavo Catunda, 29, concretizaram um sonho em comum neste ano. Há três meses, eles descobriram que terão gêmeos, que chegarão ao mundo de forma especial. Os primeiros filhos do casal são gerados por Lorenna Resende, 27, prima de Gustavo, com óvulo doado pela irmã dele, Camila Catunda, 20.

Robert e Gustavo são o primeiro casal do Distrito Federal a realizar fertilização in vitro com óvulo doado por uma parente após nova resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM), publicada em junho deste ano. As normas que regulam a utilização das técnicas de reprodução assistida (RA) no Brasil foram atualizadas pelo CFM por meio da Resolução nº 2.294/21, atualizada no Diário Oficial da União (DOU) em 15 de junho deste ano. Ela revoga a Resolução CFM nº 2.168, de 10 de novembro de 2017.

Até então, doadores de gametas ou embriões não poderiam conhecer a identidade dos receptores e vice-versa. Agora, a resolução deste ano prevê que “os doadores não devem conhecer a identidade dos receptores e vice-versa, exceto na doação para parentesco de até 4º grau, de um dos receptores (primeiro grau – pais/filhos; segundo grau – avós/irmãos; terceiro grau – tios/sobrinhos; quarto grau – primos), desde que não incorra em consanguinidade”.

A partir de agora, também a cedente temporária do útero deve ter ao menos um filho vivo e pertencer à família de um dos parceiros em parentesco consanguíneo até o quarto grau. Demais casos estão sujeitos a avaliação e autorização do Conselho Regional de Medicina.

Com a mudança na resolução, Robert e Gustavo conseguiram concretizar a vontade que tinham desde quando começaram a planejar a paternidade. “Desde cedo idealizávamos uma misturinha de nós dois. A ideia que a gente sempre teve era de usar o óvulo da irmã dele, já que eles são bem parecidos, com o meu espermatozoide”, conta Robert.

Entraves

Os dois se conheceram em 2010, na faculdade de engenharia que cursavam, em Brasília. Desde 2011, estão juntos. “A irmã do Gustavo sempre concordou, mas a partir de 2015 que a gente realmente foi atrás de ter filhos”, relata Robert.

“Fomos em uma palestra de uma clínica, que foi inclusive onde a gente fez a fertilização, voltada para o público LGBT. Lá, a gente ficou muito animado, mas tivemos o primeiro baque, porque descobrimos que não podíamos usar óvulos de doadores conhecidos”, pontua Robert. “No Brasil, compra de material biológico também é proibida, então tem que ser doação, e sempre foi obrigatório que fosse anônimo. Então, foi uma frustração ali naquele momento, mas não desanimou a gente de ser pai”, acrescenta Gustavo.

Uma vez que no Brasil a doação de gametas não pode ter caráter lucrativo ou comercial, o casal começou a pesquisar pelas chamadas “barrigas de aluguel” fora do país. Encontraram, porém, outro entrave: “O valor mais barato para casais LGBTs era na Colômbia, 60 mil dólares”, revela Robert.

Eles, então, optaram pela compra de óvulo de um banco internacional. “A gente estava já quase comprando, falamos com a empresa e a clínica lá de fora. Mas, antes, fizemos uma viagem para o aniversário do Gustavo e, voltando, no dia seguinte iríamos assinar o contrato e comprar”, conta Robert. “Aí, voltando, no aeroporto, à noite, recebemos uma mensagem da nossa advogada falando que a resolução mudou após não sei quantos anos e que agora era permitido o uso do óvulo de um parente de até quarto grau”, completa.

Para o casal, a mudança que proporcionaria a realização do sonho deles “foi um milagre”. “Foi literalmente na véspera de a gente assinar o contrato, que era um valor enorme: R$ 28 mil. Foi muito chocante na nossa cabeça, o maior milagre da minha vida. A gente quis tanto, tentou tanto, minha irmã tentou ajudar a gente de várias formas, a médica, a advogada, e não dava certo. Aí, na véspera de assinar o contrato da compra dos óvulos, muda a resolução. Foi a maior coincidência da vida”, comemora Gustavo.

No dia seguinte, Robert foi até a clínica de reprodução assistida e conseguiu marcar uma consulta para a mesma semana. Rapidamente, deram início ao processo.

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Fertilização

Para a fertilização, era necessário que tanto Camila quanto Lorena realizassem exames e procedimentos para a preparação dos organismos das duas. “Tive que fazer uns exames de saúde, fazer a contagem de óvulos para ver quantos tinham e quantos poderiam ser utilizados. Descobrimos que eu tinha 44, e isso é ótimo. Depois, tive que tomar alguns remédios hormonais para estimular os óvulos a crescerem. Tomei primeiro uma injeção e depois tive que tomar uns remédios, umas cápsulas que eram todos os dias, por uma semana. Paralelamente, tomei injeções diariamente, que aplicava em casa mesmo”, narra a estudante Camila Catunda, irmã de Gustavo.

“A cirurgia para retirar os óvulos já foi no centro cirúrgico da clínica. Foram 12 horas sem poder comer nada nem beber água. Mas durou pouco mais de uma hora o processo; depois foi bem tranquilo […] Tiraram alguns óvulos, e desses a gente viu os que estavam ficando maduros, que foram fertilizados”, explica.

De acordo com Robert, médicos previam que todo o processo poderia levar até três meses. Com eles, porém, tudo durou apenas 20 dias. “A Lorena usava anticoncepcional e estava há seis anos sem menstruar. Na hora que tirasse, poderia estar com o endométrio muito grosso, tinha que esperar descamar, eram muitas coisas que poderiam demorar. Mas, na hora que tirou, o endométrio estava fininho, pronto só para deixar na espessura certa. A Camila estava bombando óvulos. O ciclo das duas tinha que estar pareado e as duas estavam pareadas. Era para ser”, afirma.

Após a fertilização, o casal correu com Lorena para fazer exames e tentar confirmar a gravidez. “Foi um turbilhão de emoção e ansiedade. Depois que faz a transferência, tem que esperar nove dias para fazer o exame (de gravidez). Mas a gente comprou vários testes de farmácia para ir fazendo logo”, conta Gustavo, com bom humor.

“Com cinco dias, ela fez um teste e deu positivo. A gente logo foi ao Sabin 24h, para fazer outro exame. Passamos a noite inteira atualizando o site, e em três horas saiu o resultado. Voltamos para a casa da Lorena, abrimos juntos e vimos o positivo. Já mandamos para a médica, todos eufóricos”, completa.

“Eles compraram uma sacola de teste de farmácia. Quando o primeiro deu positivo, a gente já foi fazer o exame de sangue e deu positivo pra caramba”, reforça Lorena.

Para ela, que hoje está grávida de 12 semanas do filho do casal, “é uma emoção única”. “Um sentimento totalmente diferente, de que você se torna capaz de fazer a diferença na vida do outro de uma forma tão marcante. Foi algo que era para ser e não tinha como ser diferente. A gente foi muito agraciado”, celebra a publicitária.

A emoção foi ainda maior quando descobriram que eram gêmeos. “Já foi extremamente eufórico saber da gravidez. Mas o ápice foi saber dos gêmeos”, diz Gustavo.

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“Sucesso”

Robert e Gustavo ainda não sabem o sexo das crianças, mas já compraram roupinhas e pensam na decoração do quarto. Atualmente, eles têm um perfil no Instagram onde compartilham a história e as novas experiências. Veja aqui.

Especialista em reprodução humana, a ginecologista Lorrainy Lopes Rabelo foi a médica que realizou a fertilização. Na análise da profissional, o processo foi “um sucesso”. “Provavelmente eles são o primeiro casal do Brasil, porque a resolução foi publicada em 15 de junho, e no dia 12 de julho a gente já tinha transferido os embriões. E é superdifícil conseguir sincronizar doadores”, comenta.

Lorrainy explica que, antes da resolução de junho deste ano, a doação de gametas tinha que ser anônima, o que impedia Robert e Gustavo de realizarem a fertilização com óvulo de Camila. “Agora, as pessoas podem conhecer a proveniência do material genético, do óvulo (vindo de uma parente de até quarto grau).”

“Foi um caso lindo, do início ao fim, em que tudo convergiu para ser realmente um sucesso”, destaca a médica. “Acho que as pessoas têm que saber que é possível constituir uma família, que é um direito idôneo e fundamental e que cada vez mais a legislação está avançando para permitir isso”, finaliza a médica.

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