Capivaras no DF não transmitem febre maculosa, preocupação em SP e MG
Estudo não encontrou a bactéria responsável pela forma mais grave da doença em animais monitorados no DF

Um estudo divulgado pelo Instituto Brasília Ambiental (Ibram), na sexta-feira (26/6) , indica que as capivaras do Distrito Federal não transmitem a febre maculosa brasileira, doença que preocupa autoridades de saúde em estados como São Paulo e Minas Gerais. De acordo com a pesquisa, não há registro da circulação da bactéria entre os animais monitorados no DF.
O levantamento faz parte do Projeto de Monitoramento e Manejo de Capivaras e Carrapatos no Distrito Federal, desenvolvido em parceria entre o Ibram, a Universidade Católica de Brasília (UCB), as secretarias de Meio Ambiente e de Saúde do DF e o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).
A pesquisa busca conciliar a conservação da fauna com a proteção da saúde pública, principalmente na orla do Lago Paranoá e em outras regiões do DF.
Ao Metrópoles, o gerente de Fauna do Ibram e membro da Comissão de Monitoramento e Avaliação da Gestão da Fauna, Rodrigo Santos, explicou que o estudo é uma continuidade do trabalho realizado em 2022. Com um novo edital, a UCB assumiu a pesquisa com o objetivo de ampliar o monitoramento para outras áreas do Distrito Federal.
Além de acompanhar a distribuição das capivaras, os pesquisadores passaram a investigar a saúde dos animais e a possível circulação da bactéria causadora da febre maculosa brasileira.
“A ideia era coletar sangue das capivaras, de cachorros e cavalos, para ver se a gente tem, dentro de Brasília, circulando o vírus da febre maculosa brasileira. Além disso, a gente queria entender como essas populações estão circulando em Brasília. Será que os animais do lago andam por outros locais, ou eles ficam condensados ali?”, explicou Rodrigo.
Os resultados iniciais apontaram que nenhum dos animais capturados para coleta de sangue testou positivo para a bactéria responsável pela forma mais grave da doença.
“Isso já foi um grande alívio para esse primeiro momento, que há uma preocupação da população de Brasília com relação à transmissão de doenças e o perigo que tem com essa doença que ocorre em outros estados, de uma forma mais letal”, afirmou.
Segundo Rodrigo, os dados reforçam que, até o momento, não há registro da circulação da febre maculosa brasileira no Distrito Federal. Ele ressalta, no entanto, que isso não elimina outros riscos associados aos carrapatos.
“Isso não impede também que os carrapatos, que não estão necessariamente associados com as capivaras, transmitam alergias ou outro tipo de doença. Então, os cuidados, na época seca, nos lugares onde a gente frequenta, principalmente na hora, permanecem”, disse.
“A gente não está falando que não existe risco de nada. A gente está falando que o risco para a doença, que é mais temerária no cenário nacional, hoje não há essa preocupação”, acrescentou.
O gerente do Ibram afirma que os resultados também ajudam a combater a ideia de que a retirada das capivaras seria necessária para evitar a doença.
Segundo ele, as populações aparentam estar estáveis e a remoção dos animais poderia, inclusive, abrir espaço para a chegada de indivíduos vindos de regiões onde a bactéria circula.
“Hoje o que a gente tem são populações aparentemente estáveis, o estudo vai permitir dizer isso com mais precisão ao longo do ano”, explicou Rodrigo. “Nesse exato momento, a gente pode dizer que os nossos animais estão funcionando como sentinelas, até como protetores neste momento, mas o estudo a longo prazo vai nos trazer essa certeza maior”, acrescentou.

População varia conforme a estação
Outro resultado considerado relevante pela pesquisa diz respeito ao comportamento das capivaras ao longo do ano.
Segundo Rodrigo, o número de animais avistados aumenta durante o período de seca, principalmente na orla do Lago Paranoá, mas isso não significa crescimento da população.
“Na seca, o que a gente tem? Um aumento da quantidade de avistamentos de animais, principalmente na orla do lago. E, na chuva, a gente tem uma redução da população. E, o que hoje o brasileiro posta e vê? Nossa, estou aqui na beira do lago, na seca, tem muita capivara”, afirmou.
Ele afirma que esse comportamento já havia sido observado no estudo realizado em 2022. “É que as populações de capivaras, inclusive, elas são distribuídas em determinados pontos da orla. Elas não se distribuem amplamente. A gente tem uma percepção de aumento em função disso. É um período reprodutivo, as populações tendem a crescer”.
Segundo Rodrigo, a própria dinâmica social da espécie contribui para essa movimentação.
“Até por uma questão de estrutura, daquela família, vamos dizer assim, os [animais] jovens têm que ir para outro local. Você normalmente tem um macho dominante que acaba expulsando aquele jovem que vai crescendo e não quer se apropriar das fêmeas do harém dele, vamos dizer assim”, explicou.
Além disso, os dados preliminares indicam que o número de avistamentos registrado em 2025 foi menor do que o observado em 2022.
“Reduzindo, quando eu digo, é em comparação com os anos. Por quê? Agora, em 2025, a gente já teve uma quantidade menor de avistamentos do que do estudo de 2022. Então, tudo leva a crer que talvez as capivaras estejam reduzindo o seu tamanho aqui em Brasília“, afirmou.
Projeto segue até 2027
A coordenadora da execução do projeto, a bióloga e professora da UCB Morgana Bruno, explicou que a pesquisa acompanha três áreas de monitoramento contínuo: a orla do Lago Paranoá, o Parque Ecológico de Águas Claras e o Jardim Zoológico de Brasília, locais onde há maior convivência entre pessoas e capivaras.
Outras dez áreas são utilizadas para análises genéticas e estudos de soroprevalência.
Segundo ela, os resultados preliminares descartaram a circulação da bactéria responsável pela febre maculosa brasileira no DF.
“Estamos nos aprofundando na pesquisa, mas tudo indica que a presença de outras bactérias da mesma família, mas sem a patogenicidade da FMB nas populações de capivaras que circulam pelo DF, impede que a bactéria mais nociva se instale na região”, destacou.
Os estudos foram divididos em seis eixos, com foco em monitoramento e pesquisa, saúde pública e zoonoses, educação ambiental e prevenção de acidentes envolvendo capivaras.
Entre as ações estão o mapeamento da população da espécie, a identificação de áreas com maior risco de atropelamentos e a coleta de informações sobre carrapatos e a saúde dos animais.
Segundo Rodrigo Santos, os pesquisadores também utilizam dados do Serviço de Limpeza Urbana (SLU) sobre carcaças recolhidas para identificar pontos críticos de atropelamento.
“Através desses dados, a gente consegue identificar se o animal foi atropelado ou não. E a partir desses dados, a gente também vai conseguir mapear pontos de risco de atropelamento”.




















