Capital Sonrisal: Brasília se dissolve em meio às chuvas e ao descaso

Vídeos com imagens áreas mostram os transtornos provocados pelas precipitações na precária malha viária do Distrito Federal

atualizado 26/11/2018 17:43

Michael Melo/Metrópoles

“Sabão, sabão, sabão. Choveu, virou sabão.” Há muito tempo o principal problema do asfalto da capital da República no período chuvoso deixou de ser a pista escorregadia. O jingle da antiga propaganda que marcou uma geração de brasilienses, na década de 1990, deu lugar a uma trilha de filme de terror. Aos 58 anos, Brasília sofre com a fragilidade da infraestrutura urbana. A sucessão de problemas causados pelas precipitações provoca um caos na vida dos moradores do Distrito Federal, que veem seus recursos dos impostos sendo aplicados em uma malha que se desfaz a cada chuva.

Só em 2018, a população testemunhou atônita o viaduto do Eixão Sul desabar, carros sendo engolidos por crateras em Vicente Pires e Sobradinho, pessoas sendo arrastadas pelas enxurradas, quadras e vias inteiras completamente alagadas, além de buracos e desabamentos que interromperam importantes vias no DF.

Entre terça (21) e quinta-feira (22/11), o Metrópoles captou por meio de drones impressionantes imagens áreas de regiões críticas da cidade. A reportagem também visitou a DF-180, que teve trecho interditado, na última quarta-feira (21/11), em decorrência de uma erosão na ponte do Rio Melchior.

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Cidade do caos
Campeã de transtornos, Vicente Pires teve de tudo um pouco neste ano. “Entre a lama e a poeira”, os moradores tem enfrentado as graves consequências provocadas pela falta de infraestrutura na região administrativa. Obras inacabadas, buracos no chão e ruas sem asfalto estão entre as maiores queixas levantadas por quem vive no local.

No dia 23 de outubro, uma cena chocante: moradores da cidade viram uma caminhonete ser sugada por uma erosão que se abriu no meio da rua. No veículo, um casal de idosos viveu momentos de terror. Os vídeos (veja abaixo) mostram o risco que as vítimas correram. Para resgatar os dois de dentro da Nissan Frontier, populares precisaram fazer uma “corrente humana”.

O aposentado Oswaldo José, de 76 anos, dirigia a caminhonete. A mulher, Maria Marlúcia, 53, estava no banco do passageiro. Moradores da Rua 6, em Vicente Pires, os dois agradeceram a ajuda da população. “Havia um engarrafamento e, de repente, o carro foi sugado. Precisei ficar calmo”, disse.

Segundo Maria, o casal pouco se lembra dos “momentos de terror”. “Eu me recordo que a chuva estava grossa e não vimos sinal de buraco no chão. Depois, duas pessoas me puxaram e me tiraram do carro.”

De acordo com Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), a região é a segunda do DF que mais demandou massa asfáltica para a manutenção de vias em 2018 — 595 toneladas, ao todo. O órgão informou que mantém equipes para a realização das operações tapa-buracos, “uma vez que se trata de uma atividade contínua que integra o processo de manutenção da cidade”.

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Drama sem fim
O Sol Nascente é outra região que vive situação dramática com a falta de atenção estatal e está longe de ser uma vitrine. Na segunda maior favela da América Latina, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), histórias como a de Antônio Jorge de Souza são fáceis de encontrar. Cadeirante, reclama dos buracos que atrapalham a difícil necessidade de se locomover.

Assim como Antônio, outros moradores também são obrigados a desviar dos buracos. O criador de animais Ivo Ferreira de Lima, 57, conta que, há seis meses, a empresa contratada pelo GDF iniciou o calçamento da Rua 14 B, onde ele vive com a família há 12 anos.

Embora os engenheiros tenham fincado piquetes no solo bem próximo à porta da sua residência, a urbanização chegou somente até a metade da rua. “Eu me senti excluído. O próprio governador veio aqui e prometeu que tudo seria asfaltado, mas até agora nada”, reclama.

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Transtorno por todos os lados
Em Sobradinho, o sentimento é de revolta por parte da população. Paulo César Cardoso Sousa, 31, é morador do condomínio Morada da Serra, na QLS 29 da cidade. Ele reclama das obras de manutenção realizadas pela administração local.

Já arrumaram isso aqui mais de cinco vezes, mas o bueiro não aguenta o tanto de água. Chega na altura das nossas canelas. São incapazes de solucionar o problema

Paulo César Cardoso, morador

Na última segunda-feira (19), as fortes precipitações abriram um buraco na Rua 41 do condomínio. A cratera era tão grande que um carro chegou a ficar preso no buraco (veja abaixo) e o motorista precisou da ajuda de outras pessoas para retirar o veículo do local.

O vizinho Dogival Fernandes, 64, foi um dos que prestaram socorro. Após o episódio, o morador disse ter saído por conta própria tapando os buracos abertos com canos, pedaços de madeira e cones para alertar outros motoristas.

No dia seguinte, a administração do condomínio contratou uma empresa para promover o asfaltamento dos buracos abertos, mas Dogival não acredita que isso irá solucionar o problema: “Toda vez eles fazem isso. Eu mesmo já vi taparem três vezes e o final é sempre o mesmo”.

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As estradas que ligam o Distrito Federal ao Entorno não ficam de fora. A falta de infraestrutura adequada para o volume de água previsto ficou visível na quarta-feira (21), quando o Rio Melchior, situado na DF-180, encheu e promoveu “uma erosão na cabeceira da ponte”, segundo explicou ao Metrópoles o engenheiro do Departamento de Estradas de Rodagem (DER).

Para promover as obras de recuperação do talude, o órgão foi obrigado a promover um bloqueio total em ambos os sentidos do trecho sobre a ponte.

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Não há saída
“Quando não é buraco, é enxurrada”, a declaração do servidor público Eduardo Gusmão, 52, exemplifica o cotidiano brasiliense quando começa a chover. Na noite de quarta (21), uma cena viralizou nos grupos de WhatsApp dos moradores do Gama. As imagens mostram a um motociclista sendo arratado pela correnteza na rua da Quadra 32.

Gerente de uma borracharia, o comerciante Antônio Geraldo Pereira, 56 anos, disse que, devido à força das águas, algumas pessoas desviaram seus veículos da via e desceram de seus automóveis à procura de abrigo no estabelecimento. O local chegou a ser invadido pela água.

“É a primeira vez que vejo algo assim acontecer. Acredito que tenha sido a força da natureza somada ao fato de que aqui nesta rua não tem escoamento. Ficou parecendo um rio. Algumas pessoas ficaram assustadas e começaram a descer dos carros”, relata.

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Quem paga os prejuízos?
Em uma das quadras mais movimentadas do Plano Piloto, na 202 Norte, os problemas se repetem sempre que chove mais forte. Recentemente, o local virou alvo de enxurradas “quase rotineiras”, conta a comerciante Cleydelis Alvarenga, 40.

Ela culpa a falta de manutenção das bocas de lobo que “estão sempre entupidas” pelos alagamentos. Cleydelis chegou a registrar (veja abaixo) a quadra “tomada por um rio” durante tempestade ocorrida no último mês.

“Já me disseram que a força da água carregou um carro. A última chuva que deu chegou a levar nossa placa de publicidade. É uma situação complicada, pois os clientes ficam assustados, ninguém consegue atravessar a rua, ou seja, basta começar a chover para o movimento todo do nosso comércio cair”, reclama a comerciante.

“Pavimento velho”
As mazelas da malha viária viraram pauta no discurso do novo gestor da Novacap. Nomeado pelo governador eleito Ibaneis Rocha (MDB), Daclimar Azevedo de Castro disse que o problema, atualmente, não está restrito apenas à capa asfáltica das vias, mas também à base da pavimentação. “É um pavimento velho.” Ele também comentou sobre as pontes e viadutos: “Precisamos dar uma atenção especial e buscar tecnologias para melhorar a manutenção e evitar esse tipo de situação”.

O tema também foi abordado pelo engenheiro Fauzi Nacfur Júnior, futuro diretor do DER. “Vamos estudar toda a situação. É uma questão séria, pois Brasília tem muitos viadutos”, comentou. Em relação ao elevado do Eixão Sul, que desabou em fevereiro, ele ainda estuda o que fazer. “Precisamos analisar com calma.”

Outro lado
Em nota, a Novacap, a Secretaria de Infraestrutura e de Serviços Públicos (Sinesp), a Secretaria das Cidades e a Subsecretaria de Defesa Civil disseram trabalhar em conjunto para prevenir e a reagir aos transtornos causados pela chuva.

Segundo a Novacap, entre janeiro de 2015 e outubro de 2018, a companhia realizou a limpeza e manutenção de cerca de 134 mil bocas de lobo em todo o DF, de um total de 170 mil — o que corresponde a 78% de cobertura. “Para a realização das benfeitorias a Novacap investe, em média, R$ 5,3 milhões por ano com manutenção da rede de drenagem pluvial do Distrito Federal”.

A Sinesp, por sua vez, defendeu que em Vicente Pires estão sendo executados 185,6 km de drenagem pluvial. “O sistema contará com 22 bacias de qualidade e detenção, das quais cinco foram concluídas, além de 136 lançamentos, devidamente outorgados pela Adasa.”

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