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Uma caminhonete branca estaciona na altura da parada de ônibus da 515 Norte, na Asa Norte (DF), e a movimentação começa antes mesmo das mesas serem montadas, junto com o nascer do sol. Sentados na escada em frente ao ponto, trabalhadores aguardam ansiosos a chegada de Inês Maria, 52 anos, e de Renilton Santos, de 61 anos. O casal é responsável por uma banca de café da manhã, que diariamente é montada na calçada, há quase uma década. O local virou parada obrigatória para quem passa pela região logo cedo.
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Das caixas saem garrafas térmicas, bolos, salgados, frutas e pães preparados durante a madrugada. Comida de verdade, fresquinha, temperada com afeto, vendida a preço justo para alimentar o trabalhador com muita luta.
Moradora de Valparaíso (GO), Inês e o marido trabalham na Asa Norte há nove anos. Para garantir o alimento dos clientes às 06h30, eles acordam às 02h.
Inês conta que decidiu começar a vender café da manhã depois de perder uma gestação. Foi no empreendedorismo que ela encontrou uma forma de recomeçar. E o tipo de negócio surgiu a partir de uma promessa: ninguém que passasse pelo local com fome ficaria sem comer.
“Rico, pobre, mendigo, bem vestido ou não. Todos que passam aqui comem. Pode perguntar pra qualquer um, pessoas passam [o cartão] e o cartão não passa, eu libero. Pode ir, amanhã você paga. Pessoas bem vestidas. Já parou aqui e me pediu um lanche. Qual o meu propósito? Servir”, disse Inês.
Segundo ela, a decisão de atravessar diariamente o Entorno até Brasília veio da necessidade de se manter em movimento durante um período difícil. Após indicação de uma familiar que trabalhava próximo à quadra, ela decidiu instalar a banca ao lado da parada de ônibus.
Hoje, a banca reúne clientes fiéis e virou ponto de encontro na região. Mas a trajetória até este ponto exigiu muita determinação. Segundo Inês, o primeiro dia de vendas rendeu apenas R$ 50.
“A gente começou com uma mesinha de bar […] No primeiro dia, nós fizemos R$ 50. Meu marido disse, vamos embora, isso aqui não vai dar. Eu falei pra ele, esse homem de pouca fé, vamos voltar amanhã”, relembrou.
“Eu comecei com um bolo, umas coxinhas. Aí no outro dia já foi mais. Não foi muito longe não para a gente crescer, não. Com menos de um mês, eu já tinha uma demanda muito grande”, acrescentou.
Ao lado da esposa em toda a jornada está Renilton, que era pedreiro e acabou trocando o ofício pela banca. Hoje, os dois dividem todas as etapas do trabalho, da compra dos ingredientes às vendas.
“A gente trabalha sempre juntos. Quando a gente está 24 horas do dia… Eu falo assim, nós vivemos 48 por 48 juntos. A gente faz compras, a gente resolve tudo junto. Fabrica, compra, vende, se diverte, viaja, tudo junto”, contou.
A alegria do casal é compartilhada com os clientes frequentes. Antes das 6h30, o fluxo de pessoas é intenso. Muitos descem do ônibus e seguem direto para a banca, repetindo um caminho que virou parte do cotidiano.
O movimento nos pontos de ônibus ajuda a explicar a clientela fiel formada por vendedores ambulantes de café da manhã no DF. Segundo a Secretaria de Transporte e Mobilidade do Distrito Federal (Semob-DF), o Sistema de Transporte Público Coletivo registra média de 1,2 milhão de acessos por dia útil nos ônibus da capital.
Quando a rotina começa ainda de madrugada
Por trás das garrafas térmicas e dos bolos que chegam ainda quentes à parada de ônibus, existe uma rotina que atravessa a madrugada. Na casa da família, o trabalho começa muito antes do primeiro ônibus passar pela W3 Norte.
Todos acordam por volta das 2h30 para finalizar os preparos iniciados na noite anterior. É nesse horário que o café é passado, os sucos são preparados, os pastéis fritos e os bolos finalizados.
“Os mistos quentes, os hambúrgueres, os pães com salada. São montadas as caixas com a salada de fruta, botando gelo. Os cuscuz são produzidos também na parte da manhã. Muita coisa a gente faz de manhã mesmo, café, café com leite, tudo é bem fresquinho”, contou Inês.
O atendimento vai até as 10h. Depois disso, o trabalho recomeça: compras no mercado, produção em casa e poucas horas de descanso antes de iniciar novamente os preparativos.
“Às vezes sai para comprar algo que ficou faltando e retorna umas 18 horas e pouquinho. Vai às vezes até meia-noite para levantar 2 horas e vir do outro dia. Para poder chegar tudo aqui fresquinho”, disse Inês.
É no início da noite que ela começa a preparar bolos, tortas de frango, saladas de frutas e encomendas para outros clientes e coffee breaks.
“É sempre assim, o que eu faço, faço com muito amor. Tudo, aqui eu só não faço pão de queijo, né? O resto tudo é eu mesma que fabrico, eu mesma que faço, eu mesma que tenho cuidado na fabricação. É tudo feito em casa, com muito amor e carinho”, afirmou.
“É uma satisfação ver eles pegarem e dizerem, nossa, que delícia. Tem gente, gente, que se desloca lá da outra ponta pra passar aqui. Pessoal do setor clínico vem pra cá, lanchar das clínicas pra cá”, acrescentou.
Enquanto aguardam a abertura da banca, muitos clientes se sentam nas escadas próximas ao ponto de ônibus. A cena, segundo Inês, se tornou comum ao longo dos anos.
“É todos os dias. Tem uns que falam: ‘Ai, nunca mais eu consegui comer a torta. Nunca mais consegui pegar um lanchinho’. Porque às vezes a gente chega atrasado e eles têm um compromisso de ir, mas geralmente eles dão um tempinho deles e ficam aguardando a gente chegar”, contou.
Para a diarista Longina Vieira de Souza, 65 anos, que trabalha na W3 Norte e compra lanches no local há mais de dois anos, a qualidade e a variedade fizeram da banca parada fixa no dia a dia.
“Nós lanchamos aqui todo dia, é um lanche que é maravilhoso, o pessoal atende a gente bem, enfim, eu trabalho aqui como diarista, que é tudo de bom e virou aqui também um ponto de encontro para a gente”, disse Longina.
“Acho que de Brasília toda, que eu já experimentei vários, moro aqui há mais de 40 anos e até agora de rua eu nunca achei um melhor”, afirmou.
A babá Maria Carvalho, 41 anos, conta que passou a tomar café puro depois de experimentar a bebida vendida na banca.
“O lanche é maravilhoso, não tenho o que falar muito, é um lanche de qualidade, tudo muito bom, maravilhoso”, destacou.
Já a diarista Elizabeth dos Santos, 49 anos, moradora do Jardim Ingá (GO), acorda às 4h para ir para o trabalho e chega cedo ao ponto para aproveitar tanto o café quanto a companhia.
“O café daqui é o melhor. É muito gostoso e você vê que é tudo fresquinho. É tudo fresquinho e o atendimento é nota dez. Maravilhoso”, afirmou.
Além da praticidade para quem sai cedo de casa, o café da manhã vendido em pontos de ônibus também se conecta à realidade econômica de milhares de moradores do DF.
Dados da Síntese de Indicadores Sociais 2024, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que 40,8% da população do Distrito Federal vive com renda domiciliar per capita de até um salário mínimo mensal de R$ 1.412,00.
Segundo o levantamento, 16,3% vivem com até meio salário mínimo por pessoa, enquanto 4,7% sobrevivem com renda de até um quarto do salário mínimo per capita.
Mais do que café antes do expediente
Para Inês, o trabalho acabou criando também uma rede de apoio entre clientes e vendedores.
“O boca a boca eu falo, é você ouvir o outro. É tipo assim, aqui você ouve histórias que você se comove. Você pega para si e você cresce. Como você aconselha, como as pessoas vêm até você e contam”, disse.
“Vidas difíceis, vidas com problemas em casa, familiares, às vezes com o filho, com o marido, dificuldade financeira. Aqui a gente é uma família. Todo mundo sabe, se comunica, se fala. Então, eu sabia que isso ia fazer eu sair de onde eu estava”, afirmou.
Apesar da rotina intensa, Inês convive com fibromialgia e hérnia de disco. Ainda assim, diz encontrar na cozinha um espaço de acolhimento.
“Tem dia que a gente se sente meio cansado, mas eu sempre falo, quando eu vou para a cozinha, eu vou alegre. Mesmo que a dor às vezes me deixe um pouco triste, igual eu falo para as meninas, mas na hora que eu vou para fazer meus bolinhos, eu me entrego ali. Eu vou porque é aqui que eu me encontro”, disse.
O próximo sonho da família é sair da calçada e conquistar um ponto fixo, capaz de ampliar a produção e atender uma demanda que, segundo Inês, cresce a cada manhã.
“Estou de olho nas licitações mesmo para ver se a gente consegue um quiosque para poder trabalhar porque a nossa demanda aqui é muito grande, às vezes a gente não consegue trazer tudo que poderia trazer, às vezes quando dá 9h, 9h30, os lanches começam a acabar e não tem mais”, afirmou.
Ela explica que, muitas vezes, parte dos clientes acaba ficando sem os lanches por conta da alta procura logo nas primeiras horas do dia.
Segundo Inês, a autorização para trabalhar na região já existe, mas o desejo é consolidar um espaço definitivo que permita mais estrutura e estabilidade.
“Eles falam que tem que esperar saírem as licitações para poder colocar por aqui. Espaço até que acho que tem, mas aí tem que vir tudo deles de lá, a autorização, tudo certinho. Aí estamos de olho”, disse.
Cafés pelo DF
A rotina madrugadora de Inês e Renilton é vivida também por outros empreendedores que vendem café fresquinho em pontos de ônibus do DF.
Nas primeiras horas da manhã é possível observar o trabalho de pequenos empreendedores no Eixo Monumental, na entrada das passagens subterrâneas dos eixinhos e também em rodovias de grande circulação, como a Estrada Parque Taguatinga (EPTG).
Os números do empreendedorismo ligado à alimentação no DF refletem essa dinâmica. Dados da Junta Comercial, Industrial e Serviços do Distrito Federal (Jucis-DF) mostram que há 45.262 empresas ativas registradas no CNAE de lanchonetes, casas de chá, sucos e similares. Já o segmento de serviços ambulantes de alimentação soma 15.695 empresas ativas.
Quando o recorte considera os microempreendedores individuais (MEIs), são 11.447 registros ligados a lanchonetes e similares e outros 10.933 relacionados aos serviços ambulantes de alimentação.
Paixão pela cozinha e empreendedorismo
Próximo à parada de ônibus da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), as irmãs Hilda Alves, 49 anos, e Helta Nathália, 54, montaram uma banca há cerca de um ano e meio.
Segundo Hilda, a decisão de empreender partiu da irmã depois de ser demitida de uma empresa. Apaixonada por cozinha, encontrou na venda de lanches de rua uma nova fonte de renda.
Moradora de Samambaia (DF), Hilda acorda às 4h20 para ajudar na banca, enquanto a irmã desperta ainda mais cedo para preparar bolos, biscoitos de queijo, sucos e café.
“Ela gosta muito de mexer com comida, com lanche, ela sempre gostou. Somos três irmãs, mas a que mais gosta de cozinhar é ela, mas ela gosta muito, aí ela falou que iria montar o próprio negócio e montou a banquinha”, disse Hilda.
Segundo ela, o cunhado ajudava inicialmente no trabalho, mas deixou a rotina das vendas e Hilda passou a assumir a parceria com a irmã nas madrugadas. Ela chega ao ponto de ônibus por volta das 5h20 e permanece até as 10h40 atendendo passageiros, motoristas de ônibus e trabalhadores da região.
“O movimento é relativo, tem dia que dá um movimento bom, tem dia que já é mais parado, razoável. A gente atende mais o pessoal que trabalha nas empresas aqui perto”, contou Hilda.
Assim como na 515 Norte, o café servido nas primeiras horas da manhã acaba indo além da comida. Entre garrafas térmicas, bolos caseiros e conversas rápidas antes do expediente, os pontos de ônibus do DF se transformam diariamente em espaço de encontro para quem atravessa a cidade ainda antes do amanhecer.
A cena de dedicação e entrega antes mesmo do sol raiar, demostra a força e a importância que pequenos empreendedores têm para manter a dinâmica social, garantindo o sustento do trabalhador.




















































