“Brigas com cracudos”: adolescentes divulgavam “currículo porradeiro” em grupo do zap
A 10ª DP investiga jovens de 15 a 17 anos que marcavam previamente lutas em tatames com uso de luvas em encontros organizados no Lago Sul
atualizado
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O Metrópoles teve acesso as mensagens do grupo de WhatsApp usado para organizar o “clube da luta” por adolescentes de 15 a 17 anos no Lago Sul (DF). Nas conversas, os participantes eram selecionados a partir de dados pessoais como idade, altura e peso, além de um “currículo” com supostas vivências, relatos e trajetórias, utilizado como forma de autoafirmação de masculinidade e de força física entre os integrantes.
As lutas já estavam na terceira edição e funcionavam com quórum — isto é, o número mínimo de participantes necessário para que os confrontos fossem realizados. Essas informações eram usadas em enquetes internas que definiam as duplas de confronto e as datas dos embates, posteriormente divulgados em redes sociais. O “currículo porradeiro” geralmente recebia reações de outros integrantes, com emojis e comentários que reforçavam o tom da “brincadeira”.
Entre as “experiências” citadas por um dos participantes, de 17 anos, aparecem relatos como “inúmeras brigas com mendigos e cracudos do Plano Piloto e Entorno do DF (invicto)”, acompanhados de emojis de risadas e de foguinho. Quanto mais exageradas ou violentas eram as declarações, maior era a quantidade de reações atribuídas ao candidato, principalmente quando envolviam relatos de agressão física, com respostas que incluíam emojis de incentivo e aprovação.
Um outro integrante, de 18 anos, afirma ter “quebrado braço de neguinho no Na Praia”, em referência ao festival de música em Brasília, com reações de emojis de “morte” dos participantes.
Em outro trecho, surgem, ainda, as descrições “faixa rosa da putaria” com “1 ano de punheta consecutiva”, atribuídas a outro candidato, também acompanhadas de reações de emojis de fogo e “calor” dos colegas.
Há também descrições auto irônicas ou irrelevantes ao contexto, como “Youtuber de Minecraft” (17 anos), “Fiz um ano de academia” (16 anos), “Jovem aprendiz” e brincadeiras como “Já consegui fazer flexão uma vez”.
O caso é alvo de investigação da 10ª Delegacia de Polícia Civil do Distrito federal, que busca identificar os responsáveis pela organização das atividades, o proprietário do imóvel onde ocorriam as rinhas e eventuais irregularidades associadas aos eventos.
A Secretaria de Justiça e Cidadania do DF também acompanha a ocorrência e informou que o Conselho Tutelar vai apurar a possível participação ou incentivo de adultos nas atividades envolvendo adolescentes. As investigações seguem em andamento e as medidas cabíveis serão adotadas conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), com foco na proteção dos envolvidos.
Roda, socos e tatame
Os embates ocorriam em tatames, com uso de luvas de boxe e a presença de um árbitro responsável por contabilizar os golpes. As disputas também reuniam uma plateia de pelo menos 15 adolescentes, que acompanhava os confrontos no local.
Em vídeo gravado por participantes, é possível ver o incentivo verbal à continuidade das lutas, com gritos como “bate, bate, bate”. Também há a contagem dos golpes feita por um dos adolescentes que atua como árbitro. Em determinado momento, ele anuncia o 25º golpe, enquanto cerca de outros 15 menores assistem à cena e registram as agressões.






