Brasilienses disputam mundial de profissões técnicas na Rússia

Três jovens do DF e outros 60 de todo o Brasil viajam para a cidade russa de Kazan. Torneio WorldSkills 2019 ocorre entre 22 e 27 de agosto

Vinícius Santa Rosa/MetrópolesVinícius Santa Rosa/Metrópoles

atualizado 07/08/2019 8:49

Acordar às 6h, fazer exercícios para preparo físico, tomar um rápido café da manhã e treinar até o início da noite. Depois, repetir a série por ao menos seis dias da semana.

A sequência de atividades poderia ser de um atleta em preparo para a Copa do Mundo. No entanto, essa é a rotina dos brasilienses Luan Silva Braga, de 20 anos, João Victor dos Anjos Oliveira, 19, e Lucas Maciel Santos Gomes, 21.

O trio não é envolvido com esportes, mas vai participar da 45ª edição da competição internacional WorldSkills, também conhecida como “Olimpíada do Conhecimento”. O evento ocorre entre os dias 22 e 27 de agosto, em Kazan, na Rússia.

O torneio, que envolve mais de 60 países e 1,6 mil competidores, é a maior competição de atividades técnicas do mundo, e ocorre bienalmente desde 1950.

Entre as modalidades, estão 56 ocupações da indústria e do comércio, como design gráfico, marcenaria, panificação, pintura automotiva, robótica, segurança cibernética, hotelaria, cozinha e terapia da beleza.

A proposta é incentivar a educação profissional e mostrar as novidades nas áreas técnicas da indústria e do setor de serviços. Em 2017, o torneio ocorreu em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, e o Brasil ficou em segundo lugar geral.

 

A delegação brasileira tem 60 concorrentes. Desses, sete participantes são preparados pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac).

Outros 53 são treinados pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), entidade responsável por organizar as etapas regionais e nacionais de seleção dos “atletas do conhecimento”. O Senai também se responsabiliza pela viagem e pelo condicionamento dos concorrentes.

Treinamento

“A gente treina cerca de 10 horas por dia”, conta João Victor dos Anjos Oliveira, 19. Com óculos de proteção, máscara e bastante concentração, o jovem passa a maior parte do dia na Central de Produção de Alimentos do Serviço Social da Indústria (Sesi), no Guará II, onde os competidores da área da construção civil treinam.

João concorre na categoria Movelaria, na qual o Brasil ficou em terceiro lugar na última edição do evento. Durante as provas, ele precisará montar um móvel com porta, gaveta, tampa e base, mas só saberá qual modelo deverá construir na hora do torneio. Os participantes terão 22 horas para finalizar a atividade.

Vinícius Santa Rosa
João Victor passa cerca de 10 horas por dia em treinamento

 

Apesar de morar em Águas Lindas (GO), Entorno do Distrito Federal, a casa temporária de João é o Quality Hotel. Desde janeiro, ele e outros integrantes da delegação brasileira treinam para as atividades do WorldSkills em Brasília e passam as noites no hotel.

João começou o curso de qualificação em madeira e mobiliário em 2016, na unidade do Senai em Taguatinga. Desde o início, antes mesmo de iniciar as aulas, ele conhecia o torneio.

“Um ex-competidor mora perto da minha casa e me falou sobre a competição. Me interessei, ele me ajudou no treinamento e me apresentei”, conta. De 2016 a 2018, ele participou das etapas regional e nacional de seleção dos representantes do Brasil na Rússia.

Agora, a rotina do jovem e dos demais competidores se resume a trabalho: exercícios físicos para preparar o corpo, visto que serão muitas horas em pé, manuseando máquinas durante a competição e simulação de prova, com tempo cronometrado.

Eles também têm acompanhamento psicológico e nutricional, oferecido pelo Senai. Na Rússia, cada competidor terá a ajuda de um intérprete, visto que a língua oficial do evento é o inglês.

 

Pensar no treinamento e no percurso que traçou durante esse período deixa o jovem emocionado. Com lágrimas nos olhos, João pensa na família e fala sobre futuro pós-campeonato.

“Quando volto para casa, fico no máximo dois dias. A saudade aperta. Moro com minha mãe, meu pai e irmãos, e eles se sentem muito orgulhosos”

João Victor dos Anjos Oliveira, 19, competidor na modalidade Movelaria

Ao voltar da Rússia, os planos são investir em projetos pessoais: “Pretendo trabalhar na área de marcenaria e abrir minha própria empresa”.

A duas semanas do evento, João mantém o foco. “Estou ansioso, mas tranquilo. Acho que vou me sair muito bem, estamos acertando os últimos detalhes. Se Deus quiser vamos buscar o primeiro ouro nessa categoria para a gente.”

Orgulho

Aos 30 anos de idade, o instrutor de formação profissional do Senai, Marcelo Erct, acompanha e auxilia João no treinamento para o WorldSkills. Natural de Mirassol, São Paulo, o expert – como são chamados os técnicos dos participantes – está em Brasília há dois meses para se dedicar ao jovem.

“Estou aqui sempre, preparando material de prova e avaliação. É bem gratificante, porque, quando falamos de Olimpíada, estamos falando do melhor que tem no mundo da tecnologia”, conta Erct.

Erct participou de etapas nacionais do evento antes de se tornar expert e, agora, fica emocionado ao ver o desempenho dos jovens. “Em 2017, fomos medalha de bronze [na categoria Movelaria] e agora estamos brigando para trazer o ouro. Ficar na frente de países como Alemanha, Japão e Coreia é algo que não tem preço.”

Vinícius Santa Rosa/Metrópoles
Marcelo Erct é o treinador de João Victor desde janeiro. “Nossos jovens têm vontade de trabalhar e aprender.”

 

Para Marcelo, é importante contar com brasileiros na competição para melhorar o mercado industrial e comercial no país.

O técnico defende a educação técnica no Brasil: “Acho que precisamos investir o dinheiro público adequadamente. Nossos jovens têm vontade de trabalhar e aprender.”

“É como Fórmula 1: você não vê um carro daqueles na rua, mas é ali que são testadas as novas tecnologias, novos processos, que depois serão utilizados em sala de aula e na indústria”

Marcelo Erct, 30, instrutor de formação profissional
Brasilienses na disputa

Além de João, outros dois brasilienses estão com as malas preparadas para ir até Kazan. Lucas Maciel Santos Gomes, 21, mora em Ceilândia e treina para a modalidade Funilaria Automotiva.

No Senai de Taguatinga, o jovem fez cursos de lanterneiro, mecânico e de eletricista, polidor e funileiro automotivo. O interesse pela área começou em casa, pois o pai tem uma oficina mecânica.

Agora, Lucas pretende trazer medalha de ouro para o Brasil na categoria. Durante as cinco etapas das provas, ele deverá cuidar das partes estruturais e de reparação de um automóvel. Ao retornar da competição, a ideia do jovem é investir na área.

Essa também é a vontade de Luan Silva Braga, 20, que briga pelo pódio na categoria Sistemas de DryWall e Estucagem. Morador da Candangolândia, o jovem conheceu a competição após iniciar o curso técnico em edificações na unidade de Taguatinga, em 2015.

Desde então, o interesse pela área da construção civil aumentou: ele chegou a trabalhar em um escritório de arquitetura e pretende se especializar na área depois da WorldSkills.

 

Agora, Luan se prepara para a competição. Durante as provas, ele deverá montar paredes de drywall – uma espécie de gesso – e confeccionar as peças. A prova terá cinco módulos.

Sobre o sentimento pré-competição, Luan confessa: “Ansiedade, porque é uma responsabilidade muito grande. Mas é manter o foco e não desistir. Quero alcançar o pódio. É um investimento que vai ter retorno no futuro”.

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