Asa Norte: obras e áreas públicas viram abrigos de moradores de rua

Um dos bairros mais nobres do DF tem sem-teto por toda parte. Em alguns locais, invasões são tão antigas que ganharam até nome

JP Rodrigues/MetrópolesJP Rodrigues/Metrópoles

atualizado 16/02/2019 16:11

O endereço que Júlio César Pereira da Silva escolheu há três meses para viver é nobre. Do lugar é possível ver a Catedral Metropolitana de Brasília, a Biblioteca Nacional e parte dos prédios que compõem a Esplanada dos Ministérios. Mas o glamour do homem, de 64 anos, resume-se à paisagem. Catador de latinhas, ele integra um exército de moradores de rua espalhado por uma das localidades mais ilustres da capital do país, a Asa Norte.

De uma ponta à outra do bairro, centenas de famílias ergueram puxadinhos de lona em terrenos públicos. Algumas ocupações são tão antigas que ganharam nome e têm até campinho de futebol. Acostumados com ações pontuais do governo, os sem-teto não demonstram muita preocupação quando caminhões, tratores e agentes de fiscalização chegam para remover as estruturas precárias.

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Homem instalou uma tenda atrás de uma parada de ônibus, na L2 Norte: vista privilegiada

“É assim há mais de 15 anos: derrubam tudo e levam nossas coisinhas, mas logo eles esquecem e a gente volta”, resume Ana Fátima Silva, 56, que reside com a neta no canteiro às margens da L2 Norte, na altura do Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen).

A Secretaria de Desenvolvimento Social estima cerca de 3 mil pessoas em situação de rua no Distrito Federal. A pasta não dispõe de estatísticas por região administrativa, mas basta cortar a Asa Norte para concluir que muitas estão por lá. Sem política pública eficiente voltada para essa população, os gramados do bairro são cada vez mais usados como domicílio.

Nos fundos da 910 Norte, uma invasão, de tão antiga, ganhou até nome: “Favelinha”. No lugar, vivem pelo menos oito famílias. Em véspera de Natal, Dia das Crianças e Páscoa, a quantidade de pessoas cresce demasiadamente. Foi lá que o motorista de aplicativo Felipe Pereira Lima de Melo, 35 anos, foi encontrado em janeiro último após ficar quatro dias desaparecido.

As famílias tiram o sustento da venda de materiais recicláveis, mas elas também contam com a solidariedade de cidadãos que estacionam os veículos e desembarcam com cestas básicas, roupas e brinquedos. “Uns dias mais, outros menos, mas sempre alguém para e doa alguma coisa pra gente”, diz Leidiane Germano, 33 anos, há 5, no lugar.

Segundo investigadores da 5ª Delegacia de Polícia (Área Central) e da 2ª DP (Asa Norte), a Favelinha costuma ser endereço de ladrões e traficantes de drogas. Muitos desses bandidos se aproveitam da vulnerabilidade social no local para se misturar aos desabrigados e dificultar o trabalho dos órgãos ligados à segurança pública.

Esqueletos
Prédios abandonados ou com obras inacabadas também são atrativos para quem não tem um lar. Na Universidade de Brasília (UnB), um esqueleto de dois andares ao lado da Fundação de Apoio para Pesquisa, Ensino, Extensão (Finatec) é o retrato do desperdício com o dinheiro público.

O local abriga usuários de drogas. Carteiras e cadeiras quebradas, vidros estilhaçados, encanação pela metade e rede elétrica exposta dão à estrutura um aspecto de abandono, embora a UnB negue e garanta que o prédio “passa por estudo de segurança estrutural para identificar eventuais patologias na construção”.

Nos cômodos menores, é possível encontrar preservativos usados, roupas sujas e latinhas de refrigerante furadas e queimadas. Nas ruas, o recipiente é o principal meio usado por dependentes químicos para fumar crack.

Estudantes e funcionários da Universidade de Brasília (UnB) temem passar perto da edificação inacabada. Aluna do 6º semestre de letras, Helionay Costa, 22 anos, evita a região. “Normalmente eu espero algum grupo passar por aqui para acompanhar de perto. Já é um lugar com pouco trânsito de pessoas e, com essa obra abandonada, a sensação é que fica mais perigoso”, afirma.  

A menos de três quilômetros dali, nos fundos da 611 Norte, há o maior conglomerado de pessoas em situação de rua da Asa Norte. Na quinta-feira (14/2), 19 barracos de lona estavam instalados no gramado às margens da via L3 Norte, exatamente ao lado do Centro Educacional nº 1 de Brasília.

Consolidada, a pequena invasão conta com cavalos, criação de galinhas, campinho de futebol e um amontoado de ferros retorcidos recolhidos nas ruas e vendidos para a reciclagem.  

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Estudante de letras, Helinonay Costa, 22, tem medo de passar perto do prédio inacabado na UnB

Garagem virou banheiro a céu aberto
Na 506 Norte, um edifício de seis andares que hospedava a sede da Polícia Rodoviária Federal (PRF) até 2013 também virou refúgio de mendigos. A entrada de uma das garagens subterrâneas transformou-se em latrina: há fezes por todos os lados, e o odor de urina beira o insuportável.

Edmar Furtado de Sá, 63 anos, é porteiro de um bloco residencial nas proximidades e se queixa da sujeira e da insegurança. “Para chegar ao trabalho, eu ando uns 400 metros a mais para não passar por aí. Uma moradora do bloco já foi assaltada em plena luz do dia”, conta ele, apontando para um beco tomado pelo mato. 

A antiga sede da PRF tem vigilantes dentro do prédio, o que não impede a deterioração em volta. A área reservada aos jardins virou dormitório. Nos arredores, há latas queimadas, isqueiros vazios e comida estragada.

Sem querer se identificar, o dono de um estabelecimento comercial nas proximidades diz ter sido vítima de usuários de droga que dormem na sacada do antigo edifício da PRF.

“Entraram, furtaram alguns produtos e foram embora: e eu sei quem foi. É complicado até denunciar, porque ninguém fica preso por furto no Brasil. Seria arriscado me expor, apontá-lo para a polícia e ele sequer ser detido. Preferi deixar passar batido e reforçar a segurança da minha loja”, resigna-se o comerciante.

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Área de jardim da antiga sede da PRF, na 506 Norte, virou dormitório de moradores de rua

Torre Palace
O inóspito Torre Palace, no Setor Bancário Norte, é um dos mais antigos e tradicionais pontos de desabrigados e pequenos traficantes do Distrito Federal. Mesmo após o GDF ter fechado as entradas com concreto, em 2016, a movimentação dentro do esqueleto abandonado não cessou.

Pessoas que trabalham na região contam ser comum ver homens escalando as paredes para acessar as dependências do antigo hotel. “Eles chegam até a subir em carros estacionados na frente para escalar. Depois que fecharam, a quantidade de usuários de droga reduziu, mas não por completo. Quem tem disposição, entra facilmente”, relata um taxista que prefere não revelar a identidade.

Pedestres em perigo
Pelas estatísticas da Secretaria de Segurança Pública, a Asa Norte é uma das regiões mais perigosas do DF para quem anda a pé. Em 2018, foram 1.081 roubos a pedestres apenas no bairro. O número é mais alto do que o computado no mesmo período em cidades mais pobres e consideradas mais violentas, como Brazlândia, Estrutural, Guará, Itapoã, Paranoá, Riacho Fundo, Riacho Fundo II, Sobradinho, Sobradinho II, Varjão e Vicente Pires.

No mesmo período, a Asa Norte foi palco de 273 furtos a pedestres, 27 roubos a comércio e seis homicídios. Também foram feitos 62 boletins de ocorrência relacionados ao tráfico de drogas.

O outro lado
Em nota, a Polícia Militar do DF informou “trabalhar 24 horas por dia e realizar patrulhamento de forma ininterrupta na Asa Norte”. Ressaltou, ainda, que em relação à população de rua, os PMs “só podem retirá-los em caso de crime”.

“Ressalta-se que o trato com esses moradores não é apenas uma questão policial, mas também de saúde, assistência social e de políticas públicas. Eles devem ser retirados de lá pelo órgão responsável. Assim como essas pessoas, os usuários de drogas também precisam receber um auxílio de diversos outros órgãos.”

No texto, a corporação se queixa da legislação que versa sobre posse de entorpecentes. “No que cabe à PMDF, os usuários são encaminhados à delegacia sempre quando se encontram em situação de flagrante delito. No entanto, como o crime não estipula uma ‘pena’, o usuário é liberado logo em seguida e retornam aos mesmos locais que estivera antes.”  

Já a Secretaria de Desenvolvimento Social garantiu atuar diariamente com 30 equipes de abordagem de rua em todo o DF. “Durante o serviço nos espaços públicos, são oferecidos acompanhamento psicossocial e vagas em um dos três centros de atendimento ou no núcleo de acolhimento da pasta.”

Por sua vez, a Secretaria da Saúde destacou estar “elaborando um diagnóstico sobre a atenção à saúde mental com o objetivo de reestruturar equipamentos que foram desativados na gestão passada, como o que funcionava na rodoviária central”.

O GDF explicou que as duas pastas não têm “instrumentos legais para proceder a retirada de usuários de droga em situação de rua”, mas destacou que o Executivo dispõe de rede de atendimento voltada a esse público. “Conta com Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), onde o trabalho de acolhimento ao usuário é feito por demanda espontânea para pessoas com transtorno mental grave, como esquizofrenia, bipolaridade e para dependentes de álcool e outras drogas”, finaliza o texto.

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