Após tragédia, família se reconstrói e faz as malas para uma vida nova
Vyviane e Marcos perderam dois filhos em um acidente há 8 anos. Eles tiveram outras duas crianças. Agora, vão morar longe da cidade grande
atualizado
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O trânsito pela caminhada. Os dias corridos por calmaria. O apartamento por uma casa com jardim. Quase 800 quilômetros de estrada separam, por pouco tempo, uma família brasiliense vítima de tragédia de uma nova vida. A mudança prometida em um momento de busca por esperança está próxima de se tornar realidade.
A professora Vyviane Moraes, 43 anos, e o bancário Marcos Moraes, 49, perderam dois filhos em um grave acidente de carro há oito anos. Sem nunca deixar para trás a lembrança nem saudade de João, 7 anos, e Pedro, 3, o casal reuniu forças para seguir em frente. Eles se reergueram e tiveram mais duas crianças.
Coincidentemente, agora os outros filhos de Vyviane e Marcos, Mateus, 6, e Marcos Júnior, 3, têm quase a mesma idade dos irmãos quando morreram. Os quatro se preparam para deixar o Distrito Federal em busca de uma vida mais tranquila em Santa Fé do Sul, no interior de São Paulo.
A cidade, conforme levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tem 32.076 mil habitantes. O número corresponde a 1% da população do Distrito Federal, que conta com 2.974.703 pessoas.
Mateus e Marcos Júnior embarcam com a mãe para a nova vida nesta terça-feira (29/1). O pai vai no mês seguinte.

Promessa
O compromisso de mudar a rotina aconteceu ainda em meio ao terror de dar adeus às duas crianças. Pedro morreu na hora do impacto causado por uma Saveiro. O coração de João deixou de bater dois dias depois, ainda no leito, ao lado da mãe.
Vyviane soube, naquele instante atordoado, que nunca deixaria de ser mãe. Juntou os cacos e fez uma promessa: “Se Deus me desse a oportunidade de ter mais dois filhos, iria me dedicar a criá-los mais próximos de mim. A fé me ajudou muito”, contou. “Quero uma vida mais tranquila, embora ame Brasília”, completou.
Próximos da aposentaria, Vyviane e Marcos já compraram terreno em Santa Fé do Sul para construir uma casa. Após o acidente, ela se apaixonou por artesanato e pretende dar aulas em seu ritmo, além de garantir um espaço próprio para dedicar-se aos trabalhos manuais na nova residência. “Faremos horta, pomar e ateliê”, detalha, animada.
Até logo
Querida, Vyviane ganhou uma festa de “bota-fora” na tarde desse domingo (27), em uma casa na QL 12 do Lago Sul. Degustando crepes da Barcelos Buffet, as amigas lembraram dos momentos de alegria ao lado da professora e deram para ela um até logo.
A empresária Sônia Souza, 56, diz conhecer Vyviane há 20 anos. Elas trabalharam juntas na Regional de Ensino de Taguatinga. “É mais um recomeço. O período de recuperação após o acidente foi bem difícil”, recorda-se.
A dona de casa Arnele Daher, 63, morou no mesmo prédio que o casal e os falecidos meninos, na Asa Norte. “Acho certíssima essa mudança. Os dois vão poder conviver mais com as crianças. Eles merecem”, deseja.
Planos
A irmã da professora mora na cidade paulista há mais de 30 anos. Lá, as crianças ficarão próximas dos parentes, acrescenta Marcos. “O custo de vida é mais barato e a família está perto. Para eles será melhor”, disse.
O apartamento do casal, na Asa Norte, não será vendido. Portanto, caso os meninos queiram voltar quando estiverem mais velhos, terão oportunidade, garante o pai.
Acidente
Uma ultrapassagem arriscada e proibida no Km 179 da BR-060, zona rural de Abadia de Goiás, em dezembro de 2010, ceifou a vida das crianças e deixou os pais gravemente feridos. Vyviane até hoje tem sequelas do acidente: o pulmão, perfurado à época, a deixa constantemente com falta de ar. A coluna fraturada causa dor, assim como a perna, submetida a três cirurgias.
Além de conviver com a dor física e psicológica, o casal se preocupa com a demora para o desfecho na Justiça. O motorista responsável pela batida no Fiat Idea da família, Fabrício Camargos Cunha Rodovalho, não foi julgado até hoje, quase nove anos após o acidente.
Segundo Vyviane, o processo está na mão de um juiz para agendamento da data para ir ao júri popular. “É uma pena estarmos indo embora de Brasília sem ver a resposta final do julgamento do homem que vitimou nossos filhos por imprudência”, lamentou.






