Após denúncias, diretor do Colégio Dom Pedro II é afastado do cargo

Decisão do comandante do Corpo de Bombeiros do DF, coronel Emilson, foi comunicada na noite desta terça-feira (28/05/2019)

atualizado 29/05/2019 13:06

Acácio Pinheiro / Agência Brasília

O comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF), coronel Carlos Emilson Ferreira dos Santos, afastou, na noite desta terça-feira (28/05/2019), o diretor do Colégio Dom Pedro II, o tenente-coronel Marcos Antônio Nascimento de Souza Apolônio. A medida foi adotada após denúncias de assédio moral, sexual e racismo dentro da instituição.

“Entendemos que era a melhor opção para que as investigações e a apuração dos acontecimentos ocorressem com toda a lisura e imparcialidade”, explicou o coronel Emilson. A exoneração de Nascimento, que estava à frente da escola havia menos de um ano, deve ser publicada nos próximos dias.

Como mostrou o Metrópoles nesse domingo (26/05/2019), uma aluna negra com tranças afro contou ter sido abordada por um monitor que recomendou a ela “cortar ou alisar” o cabelo para não sofrer sanções.

Poucos dias depois, um grupo de cerca de 50 jovens foi repreendido pelo diretor da instituição após uma apresentação musical ao ritmo de funk, durante competição esportiva. As críticas às estudantes foram feitas diante de todo o corpo discente, ou seja, na presença de quase 3 mil pessoas.

Além disso, a instituição vetou uma das obras cobradas nas provas do Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB). De acordo com relatos de alunos, o romance estava na programação de estudos do 2º ano do ensino médio, mas foi excluído das aulas por “ferir a moral da instituição” ao retratar um relacionamento homossexual.

Retaliações
Após a publicação dos relatos de pais e alunos insatisfeitos, a reportagem recebeu dezenas de depoimentos. Apesar do descontentamento com a instituição de ensino, a maioria dos leitores relataram sentir medo de punições.

“Queremos evitar esse medo de represálias e que a verdade venha à tona. Não estamos punindo o comandante Nascimento. O caso teve um calor muito grande e queremos evitar mais tensionamento”, explicou o coronel Emilson.

O comandante-geral do CBMDF ainda agradeceu os serviços prestados pelo subordinado. “À frente do Colégio Dom Pedro II, o tenente-coronel Nascimento trabalhou dia e noite. Nós somos treinados para apagar incêndio. Administrar uma escola de excelência é um desafio muito grande”, completou.

Assédio moral e discriminação racial
Como mostrou o Metrópoles, em um intervalo de poucos dias, episódios de assédio moral e discriminação racial indignaram pais e alunos do Colégio Dom Pedro II.

Uma aluna negra com tranças afro contou ter sido abordada por um monitor que recomendou a ela “cortar ou alisar” o cabelo para não sofrer sanções. Em uma reunião de pais e alunos na última quinta-feira (23/05/2019), a mãe da jovem relatou o constrangimento enfrentado pela filha.

O desabafo da mulher foi registrado por outras mães durante o encontro. O Metrópoles teve acesso ao áudio, mas, como não conseguiu entrar em contato com a família, optou por não divulgar a gravação, apenas transcrever a declaração:

“Eu tentei passar para ela que era só uma questão de padronização, mas, para mim, é racismo. Anos atrás, não tínhamos mulheres no serviço militar. Hoje, temos. Antes, poderia não ter negros, não ter mulheres negras, não ter cabelo afro, mas hoje temos. E temos que saber lidar com isso”, disse a mãe da jovem, com a voz embargada. “Falta preparação pedagógica, saber lidar com a diversidade e o novo. Não dá para jogar fora o que está fora do padrão”, completou.

Segundo o relato de outros estudantes, a aluna abordada pelo monitor possui várias tranças, que estavam presas conforme o manual da instituição no momento da intervenção do bedel. Mesmo assim, ela foi orientada a “cortar ou alisar”.

Comemoração
A reunião na qual o caso ganhou notoriedade foi convocada às pressas, após um áudio do então comandante da escola, o tenente-coronel Marcos Antônio Nascimento de Souza Apolônio, repercutir em grupos de WhatsApp. A gravação foi feita durante a cerimônia de entrega de medalhas do evento esportivo anual da instituição, na manhã da última quarta-feira (22/05/2019).

Com uma plateia de quase 3 mil estudantes, o diretor da instituição repreendeu um grupo de cerca de 50 jovens que, na semana anterior, em 15 de maio, havia feito uma apresentação musical ao ritmo de funk, durante competição esportiva.

“[Isso] Nos desrespeitou. [Foi uma] Afronta a uma ordem direta. Não quero que vocês sejam surpreendidos com as medidas disciplinares que serão aplicadas a todos que participaram”, afirma Nascimento no áudio. “Nossa intenção foi preservar vocês do desrespeito que essas músicas promovem com as próprias mulheres, com as próprias meninas do nosso colégio”, continua ele na gravação.

Ouça:

A música responsável pela confusão é um hit da funkeira MC Pocahontas. De acordo com as estudantes, a canção Não Sou Obrigada foi submetida à aprovação dos dirigentes da escola. “Passamos uma lista com todas as músicas. Três foram vetadas e uma teve o refrão censurado. Nós nos adequamos a todos os pedidos. Mudamos tudo correndo”, revelou uma das jovens que participou da apresentação.

Assédio sexual
A confusão ocorre em um momento no qual a instituição passa por outro caso de repercussão negativa. Há duas semanas, veio a público uma denúncia de assédio sexual contra uma adolescente de 13 anos aluna do Colégio Dom Pedro II. O autor seria um professor de futsal da escola que é bombeiro reformado.

A corporação confirmou ao Metrópoles que o educador foi demitido por justa causa em 2 de maio. Informou ainda que, tão logo soube da denúncia, em 24 de abril, afastou preventivamente o militar por 15 dias. Porém, mesmo antes de o período terminar, decidiu pela demissão por justa causa, uma vez que “o funcionário não detém perfil adequado para permanecer como docente na instituição”.

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