Alunos de medicina da UnB ficam sem estágio no Samu, HBDF, Hran e UPAs

Segundo estudantes, as turmas da UnB não estão conseguindo estágios em urgência e emergência, comprometendo a formação dos profissionais

atualizado 05/07/2022 8:52

Material cedido ao Metrópoles

Estudantes de medicina da Universidade de Brasília (UnB) queixam-se de não estarem conseguindo acesso ao internato de urgência e emergência na rede pública de saúde do Distrito Federal. Segundo os universitários, a falta de acesso a esses ambientes teriam começado em 2021. Atualmente, o problema afeta a formação de 42 futuros médicos.

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Os alunos só conseguem frequentar postos de saúde e o Hospital Universitário de Brasília (HUB). A turma tinha até um estágio previsto no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas a participação acabou cancelada.

“Teríamos um estágio de quatro semanas no Samu, mas cancelaram sem mais explicações e, mais uma vez, vamos ficar sem cenários de prática em emergência”, desabafou o estudante Alan Rodrigues.

Para os futuros profissionais de saúde, a situação é preocupante. “Como recém-formados, vamos acabar pegando plantões nessas áreas, mas sem nenhuma prática na faculdade”, alertou Rodrigues. De acordo com ele, a longo prazo, a falha na formação profissional agrava a crise da saúde como um todo, a exemplo do déficit de pediatras.

Internato em risco

O internato compreende os dois anos finais do curso de medicina. Antes de 2021, as turmas tinham acesso aos cenários de urgência e emergência no Samu, Hospital Regional de Asa Norte (Hran), Hospital de Base e na unidades de pronto-atendimento (UPAs).

Nestes casos, eles apoiam profissionais no tratamento de pacientes em estado grave, como infartados e vítimas de politraumatismo. “As turmas da Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS), por exemplo, fizeram estágio com o Samu”, destacou Rodrigues. Nas poucas oportunidades disponíveis, os alunos seriam dispensados rapidamente pelos servidores.

“Somos uma das melhores do país, na teoria, porém, atualmente, vivemos uma verdadeira crise no internato. Formamos em quatro meses e sabemos que quase nada vai mudar pra gente, porém, nos preocupamos muito com as próximas turmas”, pontuou o universitário.

Para a estudante Andressa Carvalho, a falta de experiência na urgência e emergência para o exercício da prática médica é o principal problema para a formação da turma. Ela explica que o internato ainda enfrenta outros problemas, como a falta de médicos no HUB. “Parece haver um distanciamento e desconhecimento dos reais problemas enfrentados pelo internato do curso”, afirmou.

Sem resposta

Segundo uma das representantes dos alunos da UnB, Ana Beatriz Anchieta Seixas, de 25 anos, a turma já entregou uma carta aberta à coordenação do curso e reclamou à Secretaria de Assuntos Acadêmicos (SAA) da UnB e na Ouvidoria. Mas não houve solução.

“É extremamente desgastante passar por esse período de internato nesta desorganização. Mas simplesmente estamos sem perspectivas de maiores mudanças. Infelizmente, a minha turma já foi prejudicada, mas espero que, para as próximas, as coisas melhorarem”, lamentou Ana Beatriz.

De acordo com Ana, além da falta de acesso, o curso sofre com a perda de professores da medicina social, necessários para as aulas de atenção primária à saúde, conforme a reformulação do currículo feita pelo Ministério da Educação (MEC).

“Sentimos que tudo está ruindo ao nosso redor e os alunos tendo sua educação prejudicada. Apesar de termos excelentes professores, não há possibilidade de se fazer um curso decente sem a preocupação com a estruturação do mesmo”, criticou.

Outro lado

O Metrópoles entrou em contato com a Faculdade de Medicina da UnB, a Secretaria de Saúde e o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF (Iges-DF).

Em nota, a Faculdade de Medicina afirmou que a distribuição de vagas de estágio nos serviços de atenção à saúde da Secretaria de Saúde é coordenada pela Escola de Aperfeiçoamento do Sistema Único de Saúde (Eapsus), vinculada à Fundação de Ensino e Pesquisa em Ciências de Saúde (Fepecs).

“Nessa distribuição, os estudantes da Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS), mantida pelo GDF, têm prioridade. Na sequência, as vagas são destinadas à UnB. A Faculdade de Medicina da UnB participa desse sistema e tem sido atendida nas suas demandas”, explicou a faculdade.

Segundo a coordenação do curso, o cenário das unidades do Iges-DF segue rotina semelhante. No entanto, não se tem avançado na pactuação de estágios nas UPAs. Pois, conforme a nota, o Iges-DF exige que a UnB mantenha um tutor permanente dos estudantes no cenário. O que na prática, para a faculdade, tem-se tornado um fator limitante.

“A capacitação no atendimento pré-hospitalar no Samu não tem oferta para instituições fora do sistema Fepecs-ESCS. Ocasionalmente, a Faculdade de Medicina tem conseguido realizar capacitação de algumas turmas, mas essa oferta não é regular”, concluiu a nota.

Versão do Iges-DF

Segundo o Iges-DF, as vagas de estágios e atividades práticas supervisionadas são disponibilizadas em conformidade com o Plano de Trabalho pactuado, semestralmente, conforme o termo de convênio celebrado entre as partes.

A UnB teria celebrado em junho de 2020 um termo aditivo. A disponibilidade das vagas ocorre mediante solicitação eletrônica em conformidade ao cronograma divulgado entre as instituições de ensino conveniadas, públicas ou particulares.

No ano letivo de 2021, a UnB esteve presente nos cenários do Iges-DF nos cursos de fonoaudiologia, fisioterapia, terapia ocupacional, odontologia, serviço social e medicina.

“Apesar do curso de medicina da referida instituição ter enviado a solicitação após o prazo estabelecido pelo cronograma, o Iges-DF disponibilizou os cenários de Pediatria do Hospital Regional de Santa Maria e Ambulatório de Cardiologia do Hospital de Base. Os demais cenários solicitados já estavam ocupados pelas instituições que cumpriram o prazo regimental de solicitação”, afirmou o Iges-DF, em nota.

De acordo com o Iges-DF, para o ano letivo de 2022, foram disponibilizados no 1º semestre os cenários de prática das UPAs de São Sebastião e Paranoá. “Entretanto, devido a um ato discricionário da Universidade de Brasília, não foram concretizados planos de trabalho para execução de estágios nas referidas unidades”, argumentou o instituto.

“Em atendimento ao calendário especial executado pela Universidade de Brasília, no segundo semestre de 2022, foram disponibilizadas vagas de estágio para o cenário do Ambulatório da Cardiologia no Hospital de Base, sendo rejeitado pela coordenação do curso de graduação de medicina no último dia 20 de junho de 2022”, completou a nota do Iges-DF.

Segundo o Iges-DF, em 29 de junho de 2022, foram autorizadas vagas para estágios eletivos dos internos para as UPAs de Ceilândia I e II, além do Box de Emergência do Hospital Regional de Santa Maria.

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