Eventos, gastronomia e hotéis coloca SP entre os grandes destinos urbanos do mundo
Especialistas mostram como o turismo e a hospitalidade transformaram São Paulo em destino que impulsiona empregos, renda e negócios

“Você não consome um evento. Você consome uma cidade”. A frase resume uma mudança profunda que vem acontecendo em São Paulo. Durante décadas, a maior metrópole do país foi vista como um lugar de passagem, onde milhões desembarcavam para trabalhar ou participar de uma reunião. Hoje, esse cenário mudou. A capital paulista passou a disputar espaço entre os grandes destinos urbanos do mundo, onde o visitante circula por diferentes bairros, frequenta restaurantes, hotéis, museus, espetáculos e ajuda a movimentar uma cadeia econômica que beneficia milhares de pessoas.
Esse foi um dos principais temas do segundo painel do Metrópoles Talks – São Paulo: Cidade das Oportunidades, realizado nesta segunda-feira (30), que reuniu representantes do setor público e da iniciativa privada para discutir como turismo, eventos e gastronomia vêm redesenhando a economia da capital paulista.
Participaram da discussão Marcelo Vieira Salles, presidente da SPTuris; Toni Sando, CEO do SP Convention & Visitors Bureau (Visite São Paulo); e Gabriel Pinheiro, diretor da Abrasel em São Paulo. A mediação foi da jornalista do Metrópoles, Valéria Luizetti.

Os números ajudam a explicar por que São Paulo deixou de ser apenas um centro financeiro para se consolidar como um dos maiores polos turísticos da América Latina. Segundo dados apresentados durante o painel, somente em 2024 a cidade recebeu cerca de 47,2 milhões de visitantes, que movimentaram aproximadamente R$ 25,4 bilhões na economia local.
Os especialistas defenderam que o impacto vai muito além das estatísticas. Quando um visitante chega à cidade, ele dificilmente movimenta apenas um setor. A hospedagem gera receita para hotéis. O deslocamento beneficia motoristas, transporte público e estacionamentos. Os restaurantes recebem novos clientes. Museus, teatros, bares, cafeterias, shoppings e pequenos comerciantes também passam a fazer parte desse circuito econômico.
“A cidade que deixou de ser passagem”
Segundo Marcelo Vieira Salles, São Paulo, deixou de ser passagem e virou destino. Toni Sando, CEO do SP Convention & Visitors Bureau (Visite São Paulo), concordou e recorreu a uma analogia simples e bastante brasileira para exemplificar o que acontece com a cidade.
“São Paulo é como uma grande pizza. Ela precisa ser saboreada aos pedaços.”
Não existe uma única São Paulo. Existe a São Paulo da Avenida Paulista, dos museus e centros culturais. Existe a do Ibirapuera, voltada ao lazer e ao esporte. Há a região da Berrini, marcada pelos negócios. O Centro Histórico, com seu patrimônio arquitetônico e cultural. A Liberdade, com forte influência japonesa. O Bom Retiro, o Brás, a Vila Madalena, Pinheiros, Moema, Santana, a Zona Leste, a Zona Sul.
Cada bairro oferece uma experiência diferente e assim como uma pizza tem diversos sabores, São Paulo reúne diferentes “fatias”, cada uma com identidade própria. É justamente essa diversidade que amplia o tempo de permanência dos visitantes.
Quem chega para participar de uma feira de negócios pode aproveitar um musical, visitar um museu, experimentar a gastronomia da cidade ou conhecer bairros históricos antes de voltar para casa.
De acordo com Toni Sando, esse fenômeno ganhou ainda mais força após a pandemia, quando os próprios moradores passaram a redescobrir a cidade e entender que turismo não significa necessariamente viajar centenas de quilômetros.

Economia movimentada por milhares de eventos
Segundo Toni Sando, um estudo realizado pelo Visite São Paulo indica que a capital pode ultrapassar a marca de 200 mil eventos por ano. Com essa estimativa, significa, que em média, São Paulo têm um novo evento começando a cada três minutos.
São congressos médicos, feiras de negócios, shows, casamentos, encontros corporativos, eventos esportivos, festivais gastronômicos, apresentações culturais e celebrações de diferentes portes. Cada um movimentando cadeias produtivas diferentes.
E os bares e restaurantes são parte indispensável dessa engrenagem frenética. De acordo com Gabriel Pinheiro, diretor da Abrasel em São Paulo, a cidade possui mais de 110 mil CNPJs ligados à alimentação fora do lar, distribuídos por aproximadamente 45 mil ruas.
“Pesquisas realizadas pelo nosso setor mostram que muitos clientes retornam não apenas pela comida, mas principalmente pela experiência de atendimento. O grande evento traz o turista. O atendimento recebido nos bares e restaurantes faz esse visitante voltar.”
Gabriel Pinheiro, diretor da Abrasel em São Paulo

A cidade cresce quando diferentes setores caminham juntos
Se existe uma palavra que apareceu repetidamente durante o painel, foi integração. Ao longo de mais de uma hora de debate, representantes do turismo, da gastronomia e da promoção econômica defenderam que nenhuma cidade consegue se consolidar como destino internacional trabalhando de forma isolada.
Não basta ter bons hotéis. Também é preciso ter mobilidade, segurança, programação cultural, qualificação profissional, infraestrutura urbana e diálogo constante entre iniciativa privada e poder público.
Para Marcelo Vieira Salles, presidente da SPTuris, um dos maiores aprendizados da gestão pública é compreender que desenvolvimento econômico não acontece sozinho.
Segundo ele, cabe ao poder público exercer um papel de facilitador, criando condições para que empresas, comerciantes e organizações consigam trabalhar de forma integrada.
“Quando você humaniza o processo e abre espaço para conversar sem hierarquia, o empreendedor não é menor que o poder público. São pessoas servindo ao país de formas diferentes.”

Outro tema recorrente foi a segurança. Os participantes reconheceram que grandes metrópoles enfrentam desafios nessa área, mas defenderam que São Paulo vem investindo em tecnologia, monitoramento e integração para fortalecer a sensação de segurança e melhorar a experiência de moradores e visitantes.
Na ocasião, Marcelo destacou o uso do sistema Smart Sampa, plataforma que reúne milhares de câmeras inteligentes espalhadas pela cidade e auxilia ações de monitoramento urbano.
Gabriel acrescentou que bares e restaurantes também exercem um papel importante nesse processo. “Uma rua movimentada transmite muito mais segurança do que uma rua vazia.”
Para ele, incentivar o funcionamento da economia durante a noite ajuda a manter os espaços públicos ocupados, favorecendo tanto moradores quanto turistas.
Ao final do debate, ficou evidente que a estratégia apresentada pelos especialistas vai além da promoção turística.
Ela passa pela construção de uma cidade mais integrada, onde eventos funcionam como catalisadores de desenvolvimento econômico, inclusão produtiva, geração de empregos e fortalecimento da identidade urbana.
Mais do que atrair visitantes, o desafio é fazer com que cada pessoa que chega a São Paulo encontre uma cidade preparada para recebê-la com segurança e tenha motivos para voltar.