Regulação das apostas on-line amplia combate ao crime organizado

Especialistas apontam que o mercado regulado de apostas pode ser um grande aliado por reportar atividades suspeitas às autoridades

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O avanço da regulamentação das apostas online no Brasil começa a produzir efeitos que vão além da arrecadação tributária e da formalização do setor.

Na avaliação de especialistas, operadores e autoridades de controle financeiro, o novo ambiente regulado tem potencial para aumentar a transparência das operações, fortalecer mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro e dificultar a atuação do crime organizado.

O tema esteve no centro dos debates do BiS Brasília (Brazilian iGaming Summit Brasília), evento que reuniu, nos dias 2 e 3 de junho, representantes da indústria de apostas, reguladores, autoridades públicas e especialistas para discutir os desafios da consolidação do mercado regulado brasileiro.

Durante o evento, o presidente do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Ricardo Saadi, destacou a importância da cooperação entre setor público e privado para proteger a integridade do mercado.

“Todos nós queremos um setor íntegro, livre da infiltração do crime organizado”, afirmou Saadi.

Segundo ele, a efetividade do trabalho de inteligência financeira do conselho depende diretamente das informações fornecidas pelas empresas reguladas.

“O Coaf funciona com base nas comunicações recebidas dos setores obrigados. Se a comunicação não tem qualidade, a análise também não terá”, ressaltou.

A declaração sintetiza uma das principais mudanças trazidas pela regulamentação. Diferentemente do mercado ilegal, operadores autorizados precisam identificar usuários, monitorar movimentações financeiras, implementar controles de compliance e reportar atividades suspeitas às autoridades.

As comunicações de operações suspeitas enviadas ao conselho são analisadas e, quando necessário, compartilhadas com órgãos de investigação como a Polícia Federal e o Ministério Público.

Os debates ocorrem em um momento de consolidação do mercado regulado brasileiro. Desde janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, podem oferecer apostas de quota fixa de forma legal no país.

Saiba quais podem operar legalmente no país

A regulamentação trouxe uma série de exigências relacionadas à prevenção à lavagem de dinheiro, ao jogo responsável e à segurança operacional.

A nova estrutura regulatória também passou a permitir uma compreensão mais detalhada sobre o comportamento dos usuários das plataformas autorizadas.

A classe D é a que mais aposta

Durante o evento BiS Brasília, o account manager de iGaming da Legitimuz, Pedro Brisola, apresentou um retrato dos apostadores brasileiros a partir de uma base superior a 27 milhões de CPFs únicos, com mais de 4,4 bilhões de verificações processadas.

Na análise socioeconômica, a classe D aparece como predominante, respondendo por aproximadamente 53% dos usuários cadastrados. Sendo a faixa entre 35 e 44 anos representando cerca de 24% da base analisada.

A empresa ainda identificou três grandes perfis de usuários. O primeiro, considerado predominante, é composto por apostadores com renda mais baixa e forte dependência da experiência digital.

O segundo reúne usuários com maior estabilidade financeira e menor exposição a riscos.

Já o terceiro concentra jovens com renda variável, baixo histórico de crédito e maior necessidade de acompanhamento por meio de políticas de jogo responsável.

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Segundo Pedro Brisola, mais de 100 milhões de tentativas de verificações fraudulentas foram bloqueadas no último ano

Além disso, os dados revelam que os maiores volumes de verificações ocorrem entre 18h e 22h, período que coincide com os principais eventos esportivos do dia. Já os maiores picos de tentativas de fraude são registrados entre 4h e 8h.

Outro dado que chamou a atenção foi o baixo nível de fidelização.

Segundo a Legitimuz, 51% dos usuários possuem cadastro em mais de duas operadoras e 32% já estão presentes em três ou mais plataformas simultaneamente, tornando a experiência digital um fator decisivo para a retenção.

Comportamento recreativo

A visão sobre o comportamento dos usuários foi aprofundada por um estudo apresentado pela SafeFy.

O CEO da empresa, Eduardo Franceschett, revelou uma análise baseada em mais de 1 milhão de jogadores e aproximadamente 7 milhões de sessões de jogos processadas a partir de dados validados pelo Sistema de Gestão de Apostas (Sigap).

Os resultados indicam que a maior parte dos apostadores brasileiros apresenta comportamento predominantemente recreativo. A mediana dos depósitos mensais foi de R$ 54, o que significa que metade dos usuários deposita até esse valor por mês. 

A análise das perdas financeiras revelou um padrão semelhante. A perda mediana observada foi de aproximadamente R$ 20 por mês enquanto a maior parte das perdas está concentrada em um grupo reduzido de apostadores. 

Segundo a SafeFy, 75% das perdas registradas nas plataformas estão concentradas nos 5% dos jogadores que mais perdem.

Para Franceschett, os resultados demonstram que os riscos existem, mas estão concentrados em uma parcela específica da base de usuários, o que reforça a importância das ferramentas de monitoramento comportamental previstas na regulamentação.

Foto colorida de Eduardo Franceschett no Bis Brasília - Metrópoles
“O desafio não é ignorar a existência dessa parcela de risco, mas identificá-la rapidamente e atuar de forma preventiva”, destacou Eduardo Franceschett

Segundo o executivo, tecnologias de inteligência artificial, análise preditiva, prevenção à lavagem de dinheiro e mecanismos de jogo responsável permitem detectar sinais de fraude, movimentações financeiras atípicas e possíveis comportamentos compulsivos antes que eles evoluam para situações mais graves.

O desafio é combater o mercado ilegal

Para Nuno Bispo, diretor de Marketing da BiS Sigma, um dos principais objetivos da edição promovida em Brasília foi justamente aproximar o setor dos tomadores de decisão e qualificar o debate público sobre a atividade.

De acordo com ele, o mercado brasileiro vive um momento em que dados concretos precisam substituir percepções e narrativas construídas sem base técnica.

“O que estamos vendo aqui são números reais do mercado sob diferentes perspectivas. Não estamos falando de pesquisas, estudos de percepção ou achismos. Estamos falando de informações construídas a partir de bases oficiais, operações reguladas e empresas que atuam diariamente nesse ecossistema”, acrescentou.

Na avaliação de Nuno Bispo, a regulamentação consolidou uma realidade que já existia no país e abriu espaço para que o setor pudesse ser acompanhado de forma mais transparente.

Para o executivo, o foco das políticas públicas deve estar na diferenciação entre o mercado regulado e o mercado ilegal.

“O fenômeno das apostas on-line é consequência da transformação digital. O brasileiro já apostava antes da regulamentação. O que mudou foi a possibilidade de acompanhar essa atividade dentro de um ambiente regulado, fiscalizado e responsável”, frisou.

Para o diretor, o principal desafio agora é combater as operações que permanecem fora do ambiente regulado.

Estimativas discutidas durante o evento apontam que entre 30% e 40% da atividade ainda ocorre em plataformas ilegais que não fazem monitoramento de usuários, não reportam operações suspeitas, não adotam políticas de jogo responsável e não recolhem tributos.

“O inimigo a ser combatido é o mercado ilegal. É ele que não possui fiscalização, não segue regras e não oferece proteção ao consumidor”, ponderou Nuno Bispo.

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