Crise global e distribuição: saiba o que afeta o preço dos combustíveis

Embora parte do combustível consumido no país seja produzida internamente, o setor continua sujeito a vários fatores

Edward Vieira/Metrópoles
talk-por-que-o-preco-do-combustivel-muda-tanto
1 de 1 talk-por-que-o-preco-do-combustivel-muda-tanto - Foto: Edward Vieira/Metrópoles

atualizado

metropoles.com

O preço dos combustíveis não é definido de forma aleatória, mas resulta de uma combinação de fatores que envolve desde a produção e o refino até cenários internacionais, desafios logísticos e distribuição.

Esse foi um dos principais pontos discutidos nessa terça-feira (2/6) durante o talk “Por que o preço do combustível muda tanto?”, promovido pelo Metrópoles, em parceria com o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom).

Segundo David Zylbersztajn, presidente do Conselho de Administração do Sindicom, os principais saltos nos preços registrados nos últimos anos coincidiram com grandes crises globais.

Ele citou a pandemia da Covid-19, a invasão da Ucrânia pela Rússia e, mais recentemente, o conflito envolvendo o Irã como eventos que provocaram impactos significativos no mercado internacional de energia.

De acordo com Zylbersztajn, embora parte do combustível consumido no país seja produzida internamente, o setor continua sujeito às oscilações do cenário global.

Ele destacou também que os custos logísticos de abastecimento variam conforme a localização e a necessidade de transporte até os postos de combustíveis.

David Zylbersztajn: “São muitas camadas e inúmeras variáveis que mudam ao longo do tempo. Por isso, a formação do preço final é resultado da interação entre fatores econômicos, logísticos e internacionais”

Já o superintendente de Pesquisa da FGV Energia, Márcio Lago Couto, reforçou que, como os combustíveis são commodities comercializadas globalmente, acontecimentos internacionais refletem direto no mercado doméstico.

Além disso, Couto ponderou que garantir a entrega de um produto essencial em um país de dimensões continentais exige uma cadeia complexa de produção e distribuição.

Em muitos casos, o combustível produzido na região Sudeste precisa ser transportado para diferentes partes do território nacional, elevando os custos operacionais.

O pesquisador também chamou a atenção para o fenômeno conhecido como “assimetria de preços”. Nesse processo, as reduções de preços tendem a chegar ao consumidor de forma mais lenta do que os aumentos.

“Isso ocorre porque distribuidores e revendedores precisam administrar os estoques adquiridos anteriormente e ajustar suas operações de acordo com os sinais de mercado. Fatores como a inflação também podem influenciar a velocidade dos repasses”, explicou.

Períodos de conflito

Os conflitos internacionais estão entre os fatores que mais influenciam a volatilidade dos preços dos combustíveis no mercado global. Segundo Couto, períodos de guerra costumam provocar reduções na oferta de petróleo e derivados, pressionando os preços para cima.

Para explicar o fenômeno, o especialista destacou que a gasolina consumida no Brasil é, essencialmente, o mesmo produto comercializado em diversos países. Por isso, existe uma demanda global pelos combustíveis derivados do petróleo, o que faz com que eles sejam disputados em diferentes mercados ao redor do mundo.

Em condições normais, essa dinâmica internacional contribui para equilibrar os preços. No entanto, durante períodos de conflito, o mercado entra em um cenário de maior volatilidade.

A incerteza sobre a produção, o transporte e o abastecimento de petróleo afeta a oferta global e provoca reflexos em praticamente todos os países.

De acordo com o superintendente, quando ocorrem guerras ou tensões geopolíticas relevantes, os impactos se espalham por toda a economia mundial.

Diante desse cenário, governos e agentes do setor energético costumam adotar medidas para mitigar os efeitos da alta dos combustíveis sobre a atividade econômica e o poder de compra da população.

Reajustes moderados

Contudo, apesar da forte alta do petróleo no mercado internacional, os reajustes dos combustíveis no Brasil foram mais moderados, segundo avalia o especialista em energia David Zylbersztajn.

De acordo com ele, enquanto o preço do petróleo acumulou valorização superior a 60% nos últimos meses em decorrência das tensões geopolíticas e dos conflitos internacionais, o diesel registrou aumento de cerca de 20% no mercado brasileiro.

Para Zylbersztajn, um dos fatores que ajudam a amortecer os impactos para o consumidor é a competição existente ao longo da cadeia de abastecimento. Tanto o segmento de distribuição quanto o de revenda operam em um ambiente concorrencial, o que contribui para limitar repasses mais expressivos de preços.

Na avaliação do especialista, houve uma espécie de “colchão de proteção” para o consumidor brasileiro, reduzindo parte dos efeitos da disparada das cotações internacionais.

Ainda assim, em um mercado dinâmico e competitivo, afirma, os preços tendem a acompanhar as mudanças observadas no cenário global.

Dimensão territorial

De acordo com Couto, cada etapa da cadeia possui um peso diferente na formação do preço final. À medida que o combustível é transportado para áreas mais distantes dos centros produtores, os gastos logísticos aumentam, elevando o custo de distribuição.

Além das oscilações provocadas pelo mercado internacional e pelas variações do preço do petróleo, os custos relacionados ao deslocamento do combustível pelo território nacional influenciam os valores cobrados ao consumidor.

Por isso, regiões mais afastadas dos polos de produção e refino tendem a registrar preços mais elevados, refletindo as despesas adicionais necessárias para garantir o abastecimento.

Zylbersztajn, porém, afirma que o sistema brasileiro se destaca pela capacidade de atender à demanda de forma contínua e sem desabastecimento.

Na avaliação dele, a estrutura logística construída ao longo das últimas décadas tornou a distribuição de combustíveis no Brasil uma das mais eficientes do mundo, garantindo que gasolina, diesel e etanol cheguem regularmente aos consumidores em todas as regiões do país.

Márcio Lago Couto: “Nem sempre é fácil para o consumidor perceber o peso que a logística tem na composição dos custos”

Conforme Zylbersztajn, o debate sobre os preços dos combustíveis deve levar em conta um conceito central: a busca por minimizar impactos diante de fatores inevitáveis, como crises internacionais.

Para ele, embora eventos como guerras e conflitos geopolíticos afetem diretamente o mercado global de energia, o mais relevante é compreender como o sistema responde a essas pressões.

“Dentro do contexto, o importante é que as pessoas compreendam que existe um conceito de minimizar impactos. Quando há um grau de inevitabilidade, trata-se de reduzir o que for possível”, afirmou.

“Podemos lamentar que uma guerra traga impactos para o Brasil, mas, por outro lado, também podemos reconhecer que, apesar disso, conseguimos manter o sistema funcionando muito bem”, complementou.

Assista o talk completo:

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações