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O Brasil precisará qualificar cerca de 14 milhões de profissionais até 2027 para atender à demanda da indústria, segundo o Mapa do Trabalho Industrial, do Observatório Nacional da Indústria. Desse total, a logística e o transporte concentram o maior déficit: são 474,6 mil vagas abertas aguardando currículos qualificados, mais do que construção civil e operação industrial somadas.
É para esse cenário urgente que o Sistema Transporte apresentou soluções na Intermodal South America 2026, o maior evento de logística e transporte da América Latina, realizado em São Paulo.
Para Roberta Diniz, gerente de Desenvolvimento Profissional do SEST SENAT que participou de painel realizado na quarta-feira (15), a escassez de mão de obra no transporte não é uma crise conjuntural, mas sim estrutural.
“É um problema mundial, com economia em crescimento, frota expandindo, e o número de profissionais formados não acompanha esse ritmo”, diz. “O ecossistema inteiro do setor precisa estar junto. É um problema muito complexo e grande. Precisamos nos unir para combater esse desafio”, diz Roberta.
Além disso, atrair e qualificar é apenas metade da batalha. Reter é o desafio seguinte. O absenteísmo no setor logístico, que chega a 8% a 12%, contrasta com a média nacional de 3%, evidenciando a urgência do tema.
Nesse aspecto, Roberta Diniz aponta a liderança intermediária como fator crítico e ainda negligenciado: “O papel da liderança também é liderar na tecnologia e capacitação. Muitas pessoas não estão tão preparadas para o papel de média liderança”.

Capacitar e manter
Para lidar com a situação, o SEST SENAT oferece um tripé: atração, qualificação e reconhecimento.
No eixo da atração, o programa Mais Motoristas concede gratuitamente a mudança de categoria de habilitação, com investimento de R$ 40 milhões e mais de 20 mil profissionais atendidos só em 2025. Desses, 8 mil motoristas já estão contratados na área – e 3 mil deles são mulheres, uma minoria no setor.
Uma conquista recente abriu novas possibilidades, segundo Roberta Diniz: a nova regulamentação da CNH brasileira passou a permitir que o SEST SENAT realize diretamente a formação de condutores, eliminando a dependência de autoescolas externas e o gargalo que isso representava.
No eixo da qualificação, a Escola de Motoristas prepara quem já tem habilitação, mas ainda não tem experiência. E, para promover reconhecimento, o programa Motorista Série A propõe uma trilha de gamificação combinada com cuidados de saúde integral.
São atendimentos de odontologia, psicologia e nutrição, culminando em um grande evento final. “A família participa desse momento, o que faz com que esse núcleo também ajude esse motorista a se manter no setor”, diz Roberta.
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Hoje, a rede SEST SENAT conta com 174 unidades distribuídas por todo o Brasil, com mais de 22 milhões de atendimentos realizados em 2025, um recorde que superou os 17 milhões do ano anterior.
O portfólio de cursos cobre desde habilidades específicas, como transporte de produtos perigosos e cargas frigorificadas, até formações mais transversais, como liderança, logística, ciência de dados e inteligência artificial.
A experiência de Cleilson Felix, gerente da CTM Transportes, com 75 colaboradores, ilustra como iniciativas bem conduzidas podem mitigar o problema da mão-de-obra. Com materiais e apoio do SEST SENAT, ele qualifica seus mais de 70 motoristas continuamente.
“Você só muda o comportamento das pessoas com conscientização e treinamento”, diz Cleilson, que conhece e utiliza os serviços do SEST SENAT há mais de 20 anos. “O volume de informação que temos nesses treinamentos e cursos faz com que o motorista tenha mais consciência em relação à atividade dele, que é de muita responsabilidade”.
Inclusão como estratégia
Outro esforço do SEST SENAT para ampliar o contingente de profissionais é a inclusão de grupos historicamente sub-representados. A Rota da Acessibilidade é um programa transversal voltado à inserção de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Os resultados apontam para ganhos que vão além da diversidade.
O Mercado Livre, por exemplo, recebeu 900 profissionais PCD formados pelo SEST SENAT, já qualificados para atuação como assistentes de logística.
Regina Rufino, head de operações do Mercado Livre, diz que “esse programa de formação de colaboradores com deficiência é bem importante porque eles já chegam na operação com uma noção de fato do que vão executar. Isso facilita o nosso programa de formação interna e traz muito mais vantagens e produtividade”, afirmou.
Fortalecer o transporte também passa por incluir novas gerações, para quem a qualificação é ainda mais importante. “Os jovens chegam dentro de uma empresa do setor e saem falando que vão trabalhar ali. Têm jovens que foram contratados e se tornaram a renda familiar. Isso muda vidas”, diz Roberta.

