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Renovar a frota antes de tudo. Priorizar o coletivo antes de banir o individual. Cobrar pedágio por quilômetro rodado, não por praça. As propostas do Sistema Transporte para a descarbonização, apresentadas nessa terça-feira (14/4) na 30ª edição da Intermodal South America, em São Paulo, abrem os diversos caminhos que podem e devem ser tomados para a sustentabilidade no transporte.
“Para problemas diferentes, temos que ter soluções diferentes”, afirmou o presidente do Sistema Transporte, Vander Costa.
Além disso, aponta que há uma janela de oportunidade para essas mudanças. “O Brasil nunca investiu tanto em infraestrutura de transporte. As privatizações já passam de 400 bilhões de reais”, ressaltou o presidente durante a cerimônia de abertura do evento, que teve a presença de autoridades como o ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, que também visitou o estande da entidade na feira.

Renovar e eletrificar
Para o presidente Vander Costa, a abordagem da transição deve ser pragmática: enquanto tecnologias como o veículo elétrico pesado ainda dependem de infraestrutura de recarga e energia limpa disponível em todo o território nacional, medidas imediatas já podem gerar impacto significativo.
A renovação de frota deve ser a principal alavanca de curto prazo. Um veículo hoje emite cerca de 90% menos poluentes do que um fabricado há 20 anos. Contudo, o Brasil ainda se locomove com uma frota envelhecida, sobretudo entre os transportadores autônomos: a idade média dos caminhões no país supera os 15 anos, podendo alcançar até 22,20 para os autônomos, segundo o estudo Transporte em Foco – Renovação de Frota, realizado pela CNT.
“Não adianta ter um caminhão elétrico rodando ao lado de um veículo de duas décadas. Na média, a poluição ainda será muito alta”, ponderou.
A proposta da Confederação Nacional do Transporte é a criação de um IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores) progressivo, que desincentive financeiramente a manutenção de veículos velhos. O modelo já foi adotado com sucesso em países europeus, aponta Costa.
Hidrogênio, biometano e eletromobilidade também foram temas de debate. “A eletrificação é uma solução comprovada e economicamente viável para o transporte leve e urbano. Mas, o ônibus elétrico não consegue fazer 300, 400 km e recarregar facilmente. E a energia utilizada precisa ser limpa. Não adianta um ônibus elétrico cuja recarga vem de uma termelétrica a carvão”, explicou.
Outra frente prioritária, na visão da entidade, é o fortalecimento das opções coletivas. “Um ônibus hoje emite muito menos do que o transporte individual. Temos que ter estímulo à utilização do coletivo”, frisou o presidente.
Para o presidente do Sistema Transporte, a principal barreira não é tecnológica. “O setor está preparado para a transição energética. O que precisamos é de vontade política em todos os níveis, municipal, estadual e federal, para fazer essa transformação. Não podemos mais protelar”.

Intermodalidade na prática
Outra maneira de tornar o transporte no país mais eficiente e sustentável é a combinação de diferentes modais em veias de escoamento de cargas, produtos e até pessoas, a chamada intermodalidade. Guilherme Mello, presidente da MRS Logística, uma das parceiras da Confederação, pontuou que o transporte ferroviário emite entre 30% e 40% menos CO₂ por tonelada transportada do que o modal rodoviário.
Além disso, a empresa está lançando uma operação hidroviária, uma pauta também destacada pela Confederação. Segundo Vander Costa, o Brasil tem milhares de quilômetros de vias navegáveis – e nenhuma concedida. O debate em torno das hidrovias precisa ser “racional”, segundo ele, para diminuir a dependência de outros modais mais poluentes.
Em fevereiro, o governo federal revogou um decreto que abria caminho para a concessão dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização após manifestações de comunidades indígenas no Pará por falta de consulta pública. O decreto havia sido originalmente assinado em agosto do ano passado.
Os números mostram o potencial da modalidade. Segundo levantamento da Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação, a eficiência energética das barcaças é 78% superior à do transporte rodoviário, considerando o consumo de combustível por tonelada transportada.
Ao concentrar grandes volumes de carga nos rios, também se otimiza o fluxo nas rodovias que cortam biomas sensíveis, como o Pantanal e o Cerrado, reduzindo riscos à fauna.

Boas práticas
Além de fomentar discussões sobre transição energética e apoiar o setor em jornadas sustentáveis, o Sistema Transporte tem outras iniciativas no âmbito. O programa Despoluir, por exemplo, promove avaliações ambientais em frotas de veículos em todo o país, orientando transportadores sobre boas práticas de manutenção e contribuindo para a redução da pegada de carbono do setor.
Já a Coalizão do Transporte pela Descarbonização, liderada pela CNT em conjunto com Motiva, CEBDS e Insper, reúne mais de 120 entidades e empresas em torno de um plano estratégico com 90 ações integradas para reduzir em até 70% as emissões de gases de efeito estufa do setor até 2050.
As medidas foram incorporadas ao Plano Clima apresentado pelo governo federal na COP30, no ano passado.

